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Alison Sailer Bennet  – Pecado Original ou Ancestral? Uma Breve Comparação

„A desobediência primeira do homem, o Fruto
Daquela Árvore Proibida, cujo sabor letal
Trouxe a Morte ao Mundo, e toda nossa miséria
Com a perda do Éden, até um Homem maior
Nos restaurar, e uma vez mais recebermos o trono bendito,
Canta Ó, empírea Musa!”
John Milton, Paraíso Perdido, Livro I

Embora Milton tenha escrito de forma mais eloquente do que eu, a música da humanidade é criação, queda e redenção – uma bela sinfonia repleta de ricas polifonias, repentinas modulações e dissonâncias dramáticas. Em algum ponto, uma melodia trágica embrenhou-se na partitura, mas no fim é sobrepujada e a música conclui com fanfarra triunfante. Embora a maioria dos cristãos concorde com esta imagem musical, grupos diferentes escreveriam o prelúdio de forma diferente. De onde exatamente a melodia trágica veio, quem a escreveu na partitura, e como ela afeta o resto da música? A resposta a estas perguntas influencia os atributos das partes individuais, assim como a direção de toda a narrativa musical.

Esta é nossa narrativa de trabalho como alicerce do Cristianismo: Adão e Eva foram criados em comunhão com Deus, perderam esta comunhão, e o resto da humanidade os seguiu. Desta narrativa emergem duas visões divergentes sobre o ser humano, duas antropologias. Embora todos os cristãos usem o termo “pecado original” para se referir ao estado da humanidade depois da Queda (Rom. 5:12-21; Cor. 15:22), muitos Cristãos Ortodoxos preferem o termo “pecado ancestral”. Assim, por conveniência, utilizarei o termo pecado original para referir-me exclusivamente às articulações deste conceito feitas por Roma, Calvinistas e Luteranos, que ensinam que a humanidade herdou tanto os efeitos quanto a culpa do pecado de Adão. Em contraste, utilizarei o termo pecado ancestral, para denotar o ensino Cristão Ortodoxo de que a humanidade herdou apenas as consequências do pecado de Adão, e não sua culpa. Uma visão é ontológica, a outra é existencial.

Os Dez Mandamentos (Ex 20, 1-17)

  1. Eu sou o Senhor teu Deus, não terás outros deuses além de Mim.
  2. Não farás para ti ídolos, nem figura alguma do que está em cima nos céus, ou embaixo sobre a terra, ou nas águas, debaixo da terra; não te prostrarás diante delas e não lhes prestarás culto.
  3. Não pronunciarás em vão o nome do Senhor teu Deus.
  4. Lembra-te de santificar o dia do descanso; trabalharás durante seis dias e farás toda tua obra. Mas no sétimo dia — que é um repouso em honra do Senhor teu Deus, não farás trabalho algum.
  5. Honra teu pai e tua mãe, para que teus dias se prolonguem sobre a terra.
  6. Não matarás.
  7. Não cometerás adultério.
  8. Não furtarás.
  9. Não levantarás falso testemunho contra teu próximo.
  10. Não cobiçarás a mulher do teu próximo e não cobiçarás a casa do teu próximo, nem seu escravo, nem sua escrava, nem seu boi, nem nada do que lhe pertence.

Padre Alexander Men – VIDA CRISTÃ

Desde a manhã da Ressurreição, os séculos passaram como um relâmpago. Impérios e civilizações inteiras surgiram e desapareceram; revoluções militares, convulsões sociais e políticas mudaram a própria ordem mundial. Mas aquela pequena comunidade de pescadores fundada pelo judeu Jesus, da aldeia de Nazaré, a sua Igreja, permanece de pé até hoje, como um rochedo firme no meio de um mar em contínuo movimento.

E aquele Credo (professado nos primeiros dias por poucas dezenas de pessoas e que hoje move mil milhões de habitantes do nosso Planeta, os quais falam as mais variadas línguas) deu origem a inumeráveis formas de cultura.

Quando o anúncio do Evangelho soprou, como uma suave brisa, no decadente mundo antigo, trouxe a esperança aos degradados e aos desesperados, dando-lhes um novo alento e uma nova vida. O Cristianismo fundiu em si a sabedoria de Atenas e as expectativas do Ocidente ao sonho romano de uma pax universal; condenou os opressores, elevou a mulher a uma dignidade nova, provocou a erradicação da escravidão… 

Steven Hayes – MISSÃO, EVANGELIZAÇÃO E PROSELITISMO

Duas das mais importantes questões que a missão ortodoxa enfrenta dizem respeito à evangelização e o proselitismo e a diferença entre ambos. Alguns têm dito que não há diferença entre eles. Se as pessoas falam a respeito da necessidade de evangelização, encontram a resposta: “A Igreja Ortodoxa não promove conversões”, como se a evangelização e o proselitismo tivessem o mesmo significado.

Outros estão mais preocupados com o proselitismo que vem de fora da Ortodoxia – de missionários que desde o fim do comunismo tem-se apressado em converter a Rússia, a Bulgária, a Roménia e outras terras tradicionalmente ortodoxas para a sua forma de pensamento.

Os cristãos do Ocidente tendem a pensar que o Oriente Ortodoxo não é “missionário”. O século XX, especialmente após a Primeira Guerra Mundial, tem sido o período de contato “ecuménico” entre os cristãos de diferentes tradições. Os anos de 1920 a 1970, porém, constituíram o período no qual as atividades missionárias da Igreja Ortodoxa atingiram o seu ponto mais baixo. Após a Queda de Constantinopla para os turcos, em 1453, a Rússia tornou-se realmente o único centro da missão ortodoxa e a Revolução Bolchevique pôs um fim a isso.

Protopresbítero Alexander Schmemann – EUCARISTIA

A Eucaristia é a Igreja que entra na alegria de Seu Mestre. Entrar nesta alegria e ser dela testemunho neste mundo é, na verdade, o próprio apelo dirigido à Igreja, sua leitourgia essencial, o sacramento pelo qual “ela torna-se o quê realmente é”.

A melhor maneira de compreender a Liturgia eucarística é olhá-la como uma estrada ou uma procissão. É a estrada onde a Igreja entra na dimensão do Reino. Empregamos esta palavra “dimensão” porque parece ser a melhor para indicar a maneira de nossa entrada sacramenta na vida ressuscitada de Cristo.

Nossa entrada na presença de Cristo é uma entrada numa quarta dimensão que nos permite pressentir a realidade última da vida. Não é uma evasão do mundo. Antes a chegada ao ponto privilegiado de onde nossa vista pode se imergir mais profundamente na realidade do mundo.

Monja Rebeca – Monge: “O Asceta do Amor”

“O impulso que produziu o voo original para o deserto tebático do Egito (Thebaída) foi […] o impulso elementar do Cristianismo, que tudo desperta para Deus, abandonando todas as coisas e influências deste mundo a fim de melhor se preparar para o Reino dos Céus”.   Hieromonge Serafim (Rose)

O monaquismo encarna a mais elevada forma de vida ascética da qual o homem dispõe para corresponder ao amor louco de Deus, que deseja ardentemente divinizá-lo, a fim de torná-lo semelhante a Si próprio. O homem torna-se, então, segundo São Máximo, o Confessor, um pequeno “deus”, ao possuir todas as qualidades do próprio Deus: a mesma glória, a mesma beatitude, a Ele idêntico em tudo, menos na essência.

O Caminho Ortodoxo

Para nós, cristãos ortodoxos, a vida inicia-se com o Batismo.  É a nossa jornada de fé, na qual o nosso primeiro passo é um salto: para dentro da Pia Batismal! É através do Batismo e do Crisma que os nossos pés são postos no caminho pavimentado pelos Santos, que percorreram essa jornada antes de nós. Como cristãos ortodoxos, carregamos a sua fé e a sua verdade connosco, verdade esta que se nos apresenta sólida, como uma rocha. De qualquer forma, a verdade da Ortodoxia é tão ativa quanto sólida. A verdade que trazemos no nosso interior e que faz surgir dentro de nós uma compulsão por viver de um determinado modo.

O Espírito Santo, por nós recebido, reaviva essa verdade, a qual se transforma, então, num caminho de vida: o caminho ortodoxo. Através dos séculos, nós, os fiéis ortodoxos, aprendemos cinco formas pelas quais o Espírito Santo opera para nos reavivar a verdade, para que estejamos realmente vivos, como Deus o desejou para nós. “(…) Eu vim para que tenham vida, e a tenham com abundância” (João 10:10). As cinco formas (ou experiências) que compõem o caminho ortodoxo são:

Ludmilla Garrigou – ÍCONE OU QUADRO? ICONÓGRAFO OU ARTISTA?

Tradução de monja Rebeca (Pereira)

Hoje, todos sabem que um ícone é uma imagem santa, uma imagem sagrada, uma imagem teológica e litúrgica; uma imagem que “fala de Deus” e, paradoxalmente, convida os nossos olhos a contemplarem o mundo invisível; “pelo intermédio da visão sensível, nosso pensamento recebe uma impressão espiritual que eleva-se à invisível Divina Majestade”, diz São João Damasceno.

Pode-se gostar ou não de um ícone. Mesmo sendo cada vez mais objeto de apreciação, o Ocidente não sabe ainda muito bem qual é atitude correta diante dele. Alguns o julgam hierático, rígido, sem expressão ou triste. Outros dizem não conseguir rezar diante dum rosto aparentemente duro e sem compaixão, sem misericórdia, sem ternura… Outros ainda sensibilizam-se diante do ícone dito da “Virgem de Vladimir”, pois ela é “impenetrável” e parece sentir dor por causa do “gládio que trespassará sua alma”. (Lc. 2,35). Com relação ao ícone da Santíssima Trindade de Rublev, temos que foi longamente estudado e explicado; neste caso, então, o espírito cartesiano do homem moderno ”entende“, “analisa”, encontra-se satisfeito e “admite” certas sensações, mas poucos entendem espontaneamente o significado profundo do ícone.

Photis Kontoglou – A ARTE SAGRADA DA IGREJA ORTODOXA

Tradução de monja Rebeca (Pereira)

A arte iconográfica na Igreja Ortodoxa do Oriente é uma arte sagrada e litúrgica – como todas as artes sagradas eclesiásticas – com um propósito espiritual. O objetivo dessas artes não é meramente o de decorar a igreja com pinturas, para torná-la mais prazerosa aos fiéis ou deleitar seus ouvidos com música: mas para elevá-los ao místico mundo da fé pela escada espiritual, os passos e degraus, que são artes sacras: a composição de hinos, construção de prédios de igreja, pintura religiosa bem como outras artes… Tudo isso trabalha junto, cultivando o Paraíso místico nas almas dos fiéis. Com isso, obras de arte na Igreja do Oriente são comentários sobre o mundo divino.

Igumeno Cirilo (Bradette) – A VENERAÇÃO DOS ÍCONES

Nós veneramos os ícones porque nos colocam na “presença real” do que representam. A Igreja latina só emprega esta expressão para a Eucaristia. Para os ortodoxos, as palavras são escassas para a Eucaristia. Enquanto não utilizamos termos adjetivos, falamos de “mistério”. O grande mistério é o mistério da Eucaristia. Dizemos, então, “o mistério litúrgico”, “o mistério eucarístico”. Evitamos o termo “transubstanciação”, pois não podemos afirmar que a Eucaristia seja uma mudança de substância. Mas sabemos que é uma mudança de realidade, o quê não é a mesma coisa. Consequentemente, não falaremos de aparências e de substância, mas do mistério da Presença.