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Padre Pedro Pruteanu – O nome de Deus é Jeová?

Muitas vezes, quando uma “testemunha de Jeová” quer expor a sua doutrina acerca do “nome de Deus”, parte da ideia que cada um de nós tem um nome e gostamos de ser chamados por ele. O nome, de acordo com o entendimento das “testemunhas”, tanto para as pessoas como para Deus, seria a sua característica mais importante e, portanto, não deve ser negligenciado. Admitiríamos, sem reservas, esta premissa, um tanto lógica, se elas não se estivessem a contradizer! Ao lhes perguntarmos quais os nomes dos editores da “sua” Bíblia (a tradução do “Novo Mundo”), elas respondem: ”Somente Deus deve ter um nome, que é Jeová. Para um indivíduo, ter um nome significa difamar a grandeza divina”[1]. Assim, como se pode claramente concluir desta frase, o homem nem sequer deveria tem um nome, para não se poder comparar a Deus e então, o seu pequeno truque para conquistar novos prosélitos não funciona. Ou será que se trata de outro nome? Também isso não está claro, já que, na opinião das “testemunhas”, um nome humano poderia difamar a grandeza divina. Uma coisa é clara: nem mesmo “as testemunhas de Jeová” sabem se “o nome de Deus” pode ser comparado, dalguma forma, ao nome dum indivíduo.

Neste caso, o que é “o nome de Deus”? Existe um “nome” semelhante? Por diversas vezes, tanto antes de Moisés (Génesis 32:29), como depois dele (Juízes 13:17-18), Deus recusou-Se a dizer o Seu “nome”. Podemos até dizer que Deus Se recusa a atribuir a Si próprio um nome porque, assim como dizia São Dionísio, o Areopagita, Ele é “Aquele com vários nomes” e “acima de qualquer nome”. Somente este apofatismo é verdadeiramente digno da “grandeza de Deus”, da qual falam “as testemunhas”. Assim, como veremos daqui em diante, mesmo quando Deus Se manifestou a Moisés como “Ja(h)vé(h)” (Êxodo 3:14) [2], revelou a este apenas mais um dos Seus diversos e inúmeros atributos e não “um nome próprio”. Ainda que aceitássemos a ideia de que “Javé” fosse um nome próprio, teríamos que determinar à qual Pessoa divina o mesmo deve ser atribuído, pois não é possível que três pessoas tenham o mesmo nome próprio. As Pessoas da Santíssima Trindade podem ser caracterizadas, juntas e inseparavelmente, com os mesmos atributos divinos; mas, quando dizemos “nome”, este só pode pertencer a uma única pessoa. Desta forma, deparamo-nos com uma outra heresia sustentada pelas “testemunhas de Jeová”, a qual defende que “a Trindade não existe”, que “Jesus Cristo, O Filho de Deus, não é Deus” e que o Espírito Santo nada mais é do que uma “energia ativa”. Não nos propomos a demonstrar, lógica e teologicamente, a existência da Santíssima Trindade. Mas é interessante notar que, ao debater o problema do “nome de Deus”, chegamos à conclusão natural que Jesus Cristo é Deus. E se Jesus Cristo é Deus, como ensinam todos os cristãos, então o Espírito Santo também é Deus, ou seja, temos um Deus Trinitário e a doutrina das “testemunhas” é herética e aberrante.

Passemos, então, à leitura da Bíblia e aos sentidos que inferimos de alguns textos. As “testemunhas de Jeová” consideram que Deus (que é único em essência e pessoa, apesar delas não diferenciarem estas duas noções) revelou a Moisés o Seu nome, que é “Jeová”. Também dizem que este nome significa “Jeová autodetermina-Se com sabedoria para se transformar em qualquer coisa que for necessária para alcançar os Seus propósitos” [3]. Além da leitura equivocada do tetragrama bíblico יהוה (YHWH), facto que as “testemunhas” reconhecem (sobretudo quando o apresentam de formas muito diferentes na transposição para as mais variadas línguas) [4], a interpretação que dão a este nome é totalmente herética e sem lógica. Por um lado, falam de alguns “propósitos” de Deus que, evidentemente, só podem ser reportados a este mundo (dimensão ad extra); por outro lado, mencionam uma “autodeterminação” e uma “transformação” de Deus as quais, logicamente, se referem ao Próprio Deus (dimensão ad intra). Se “as testemunhas” não fazem esta diferença entre as dimensões ad intra e ad extra de Deus, significa que criam um deus segundo a sua imaginação, que “se autodetermina” e que “transforma” a Sua natureza conforme a Pessoa; e se estas “autodeterminação” e “transformação” não se referem à essência de Deus, mas antes significam a capacidade de adaptação ao entendimento e à inferioridade dos humanos, ou seja, de versatilidade, concluímos que este “nome de Deus” não se refere mais a Ele, mas a essa capacidade de ser como um camaleão… Enfim, nunca poderemos entender tal raciocínio se seguirmos a linha de argumentação das “testemunhas”. É necessário tratar o problema dum outro modo, ao adotar uma coerência e um rigor científico que não desafiem, nem a lógica, nem a filosofia (não no sentido ideológico, mas terminológico) nem, é claro, a teologia. Devemos destacar que, no Antigo Testamento, a Deus são atribuídos mais de 80 “nomes”, nenhum deles um “nome próprio”, mas sim nomes de atributos e obras de Deus. O “nome” mais comum é, na verdade, Javé (6823 vezes, segundo o cálculo dos judeus e 6928 vezes, segundo o cálculo dos protestantes). Além deste nome, encontramos também: Jahvéh-Savaoth (268 vezes), Jahvéh-Elohim (42 vezes), Jahvéh-Adonai (5 vezes), Adonai (131 vezes), Jah, que é uma abreviação de Javé (26 vezes), Eloah ou Elohim (57 vezes), [El-] Şaddai, que significa o Todo-Poderoso (48 vezes) etc.[5] É relevante também o facto de não aparecer, no Novo Testamento, o nome Javé. Nem O Salvador Jesus, nem os Seus Discípulos, procuraram difundir o nome Javé e tal facto tem várias explicações:

A.

É sabido que os judeus, devido a uma piedade especial e até exagerada pelo “nome” Javé, recusavam-se a pronunciar este “nome” no dia-a-dia, tendo o hábito de substituí-lo por Adonai, que significa “O Senhor”. Somente o sumo-sacerdote, uma vez por ano, na festa do Yom Kippur, pronunciava este nome no santuário, mas duma forma camuflada, para que não fosse facilmente percebido [6]. Parece que esta “piedade” tem a ver com o terceiro mandamento do Decálogo (Êxodo 20:7), tendo sido desenvolvida depois da época de Moisés, sobretudo nos períodos intertestamentário e talmúdico, mas que não existiu no princípio, quando os filhos de Abraão ainda “invocavam o nome de Deus” (Génesis 4:26). É claro que aqui surge uma pergunta: qual era o nome divino que os primeiros descendentes de Abraão conheciam se, conforme “as testemunhas de Jeová”, o único “nome” de Deus é Jahvéh (Jeová), o qual foi revelado a Moisés?

O sentido deste “nome” foi decifrado no texto de Êxodo 13:14, onde encontramos a expressão hebraica ani Yehieh aşer Yehieh [7], que foi traduzida, na Septuaginta, pela expressão γώ εμι ν, ou seja, Eu sou Aquele que sou. O livro do Apocalipse (1:4,8) também dá um sentido escatológico a esta expressão: “Aquele que é, Aquele que era e Aquele que vem”; mas, na teologia cristã (e mesmo na judaica) permaneceu, como sentido básico, a expressão “Eu sou Aquele que sou”, ou seja, “Eu sou Aquele que tenho a Minha existência através de Mim mesmo, Aquele que existo através de Mim”. Alguns exegetas judeus interpretam este nome no sentido de “Eu sou Aquele que (a todo o momento e em todo o lugar) estou presente”, interpretação que pode ser aceita, se pensarmos no contexto no qual foi dita. É claro que devemos observar que o mais importante aqui é que “Javé” não é, de facto, um nome próprio, mas o nome dum atributo divino ou, como alguém já disse, a concentração numa única expressão (nem sequer numa só palavra) dos mais concretos atributos divinos [8].

Já no que diz respeito à substituição de Javé por Adonai, “as testemunhas de Jeová” constatam (neste caso, elas têm razão) que esta substituição era feita não apenas na leitura, mas também no texto escrito. As “testemunhas” identificaram 134 trechos no Antigo Testamento onde os massoretas substituíram o respetivo tetragrama por um outro nome, [9], mas esquecem-se de mencionar que, no “esforço de corrigir o erro dos massoretas”, introduziram, sem nenhum motivo, “o nome” Jeová em 7210 trechos onde este “nome” nunca esteve [10].

A tradução grega do Antigo Testamento (Septuaginta), feita pelos judeus helenizados, no século III a.C, mostra apenas a situação existente, naquele momento, no mundo hebraico, com respeito à leitura e à citação do “nome de Deus”. O texto de Êxodo 3:14 é traduzido na Septuaginta como γώ εμι ν, ou seja, Eu sou Aquele que sou e, nos demais casos, a Septuaginta usa o equivalente Adonai – Κύριος, que significa O Senhor. Esta situação tem reflexo no Novo Testamento onde, mesmo quando são citados textos vetero-testamentários que contêm o tetragrama, ele é substituído por um outro “nome”, usualmente O Senhor (comparem I Pedro 2:3 com Salmos 33:8; Hebreus 1:10 com Salmos 101:26;  Atos dos Apóstolos 2:25 com Salmos 15:8; I Pedro 3:15 com Isaías 8:13; Romanos 10:13 com Joel 3:5 e Filipenses 2:10-11 com Isaías 45:23-24). Falaremos mais abaixo do sentido do tetragrama no Novo Testamento. Para começar, desejamos destacar, mais uma vez, que o texto do Novo Testamento não contém nenhum tetragrama no sentido clássico e, inclusive onde podemos encontrar sinais deste, o mesmo se refere exclusivamente a Cristo, o que é extremamente importante.

O povo judeu e, até mesmo, o próprio Deus, não consideravam Javé o Seu único nome e nem sequer o consideravam o mais importante. A Sagrada Escritura, mesmo a partir do primeiro versículo (Génesis 1:1), fala sobre Elohim (o plural de El/Eloah). “As testemunhas de Jeová” dizem que Elohim não é um nome próprio da divindade, mas um nome geral, que significa ‘Deus’, sem mostrar o “nome” de Deus [11]. Mas a Bíblia contradiz tal afirmação seriamente. Em Daniel 9:19, lemos que: “a tua cidade e o teu povo se chamam pelo teu nome”. Agora, vamos fazer uma pergunta retórica às “testemunhas”: o povo judeu era denominado de Işra-Jeová ou Işra-El (de El/Elohim)? Em conclusão, Deus marca o seu povo, Israel, assim também como muitos dentre os Seus justos e profetas (Iezechi-El, Dani-El, Misa-El), não com o nome de Javé, mas com o nome Elohim. Observemos que os anjos Micha-El, Gabri-El e Rafa-El, que são os mais próximos de Deus e que conhecem e servem os Seus mistérios, usam também o nome que deriva de El/Elohim, não de Javé. Este argumento é importante, se pensarmos que, na conceção das “testemunhas” (a qual é errada do ponto de vista cristão), o Arcanjo Miguel é idêntico a Cristo, O Filho de Deus [12]. Resta a conclusão, ainda de acordo com o entendimento das “testemunhas”, que “O Filho de Deus” tem, no Antigo Testamento, um “nome” que ignora “o nome” de Javé. Mas é interessante que, também no Novo Testamento, O Filho de Deus, sobre O qual foi profetizado que “nascerá [de Virgem] e terá o nome Emanu-El” (Isaías 7:14), quando morreu na cruz, invocou o Seu Pai (em hebraico): “Eli, Eli (de El/Elohim), lamah sabahtani!” e não Javé!

B.

Com a chegada de Cristo ao mundo, tudo mudou. Sabemos que a doutrina das “testemunhas de Jeová” está cheia de contradições no que diz respeito à Pessoa e ao papel do Salvador, Cristo, no mundo, sobretudo porque não reconhece a Sua divindade. Veremos, porém, mais uma vez, que a Escritura está do nosso lado, quando somos sinceros na busca e compreensão da Verdade. Uma das mais importantes sínteses sobre Cristo está na Carta aos Filipenses 2:5-11: “De sorte que haja em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus, que, sendo em forma de Deus, não teve por usurpação ser igual a Deus, mas aniquilou-Se a Si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-Se semelhante aos homens; e, achado na forma de homem, humilhou-Se a Si mesmo, sendo obediente até à morte, e morte de cruz. Pelo que, também, Deus O exaltou soberanamente, e Lhe deu um nome que é sobre todo o nome; Para que, ao nome de Jesus, se dobre todo o joelho dos que estão nos céus, e na terra, e debaixo da terra, e toda a língua confesse que Jesus Cristo é O Senhor, para a glória de Deus Pai. Ora, deste texto, além da confissão clara da Divindade de Cristo (que, para Ele, não era uma “usurpação”, mas uma dignidade “de condição divina”), vemos ainda que Deus-Pai concedeu ao Filho “o Nome que está acima de todo o nome”, ou seja, acima também do nome Javé e de qualquer outro “nome” do Antigo ou do Novo Testamento. Eis que surge, então, a pergunta: qual é esse Nome? Do texto acima e também doutros textos paralelos muito importantes (João 13:13; Atos dos Apóstolos 10:36; I Coríntios 8:6 e 12:3), concluímos que este nome é “Κύριος – O Senhor”. Mas, aqui, surge mais uma pergunta: este nome – O Senhor — que é a tradução do hebraico Adonai, substitui, em escrita e leitura, “o nome” Javé, como o fez a Septuaginta (com o Κύριος), ou acaba por se delinear como um “nome” à parte, que substituirá, a partir de então, o respetivo tetragrama bíblico, inclusive no sentido teológico e não somente no literal? A pergunta é bastante complicada e, ao mesmo tempo, muito importante, e é por isso que merece uma análise mais minuciosa.

Os ícones ortodoxos têm escrito, no halo do Salvador Cristo: ν (Aquele que é) e na ecfonese, no final das Vésperas e Matinas, o padre diz: Bendito seja “Aquele que é” Cristo nosso Deus, agora e sempre e pelos séculos dos séculos. Ámen”. Estas duas expressões são muito antigas no Cristianismo e mostram-nos que Jesus Cristo é Javé (“Aquele que é”). Vejamos quão bíblica é esta ideia que, é claro, as “testemunhas de Jeová” nunca aceitarão. Neste caso, vamos pôr duas perguntas a elas:

a) Por que elas denominam Jeová de Juiz [13], se o Evangelho diz claramente que “O Pai não julga ninguém, mas entregou ao Filho todo o julgamento” (João 5:22)? Ou será que elas reconhecem que, contudo, Jeová é o Filho e não o Pai?

b) Por que Cristo foi crucificado? (Para esta pergunta queremos provas bíblicas claras). Se chegarmos a pôr estas duas perguntas, veremos que as “testemunhas” não saberão o que responder a nenhuma delas. E se a primeira deriva da confusão geral que paira acima da doutrina das “testemunhas”, a segunda deve ser minuciosamente analisada.

O texto de Levítico 24:16 mostra claramente que, segundo a Lei, ninguém tinha o direito de matar alguém por pensar ou fingir ser o Messias (sobretudo, porque os judeus tiveram vários falsos Messias e nenhum deles foi morto por isso), mas que se deveria matar, segundo a Lei, a pedradas, aquele que difamasse a Deus e a maior difamação era se fazer passar por Ele. E eis que Cristo disse ser Deus (João 5:18 e 10:30-33) [14] e foi por tal razão que O crucificaram. Mais do que isso, muitas vezes, Jesus confessou abertamente a Sua divindade, ao atribuir a Si mesmo, de forma indireta, o nome Javé, facto que “justificou”,  conforme a Lei, a Sua crucificação. Vamos mostrar alguns argumentos muito claros a esse respeito: “Mas Ele calou-Se, e nada respondeu. O sumo-sacerdote tornou a perguntar-Lhe, e disse-Lhe: És Tu o Cristo, Filho do Deus Bendito? E Jesus disse-lhes: Eu O sou, e vereis O Filho do homem, assentado à direita do poder de Deus, e vindo sobre as nuvens do céu. E o sumo-sacerdote, rasgando os seus vestidos, disse: Para que necessitamos de mais testemunhas? Vós ouvistes a blasfémia; que vos parece? E todos O consideraram culpado de morte (Marcos 14:61-64). Deste texto, que guarda relação com o de Levítico 24:16 e com os nossos comentários, resulta claramente que o sumo-sacerdote não considerou uma blasfémia o facto de Jesus se intitular o Cristo (Messias) ou “O Filho do Bendito” (o que, de modo geral, somos todos; para tanto, ver Salmos 81:5), mas o facto Dele ter dito as palavras “Eu sou”. Para que se convençam, vejam as reações a este “Eu sou” no Evangelho: “Disse-lhes, pois, Jesus: Quando levantardes O Filho do homem, então conhecereis quem Eu sou, e que nada faço por Mim mesmo; mas falo como o Meu Pai Me ensinou. E Aquele que Me enviou está Comigo: o Pai não Me tem deixado só, porque Eu faço sempre o que Lhe agrada. Dizendo Ele estas coisas, muitos creram Nele. Jesus dizia, pois, aos judeus que criam Nele: Se Vós permanecerdes na Minha palavra, verdadeiramente sereis Meus discípulos; E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará. Responderam-Lhe: Somos descendência de Abraão, e nunca servimos a ninguém; como dizes Tu: Sereis livres? Respondeu-Lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo que todo aquele que comete pecado é servo do pecado. Ora o servo não fica para sempre em casa; o filho fica para sempre. Se, pois, o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres. Bem sei que sois descendência de Abraão; contudo, procurais matar-Me, porque a Minha palavra não entra em vós” (João 8:28-37). As palavras “Eu sou”, ditas no sentido comum, não teriam gerado, de forma alguma, esse tipo de reações. Vejam ainda: E dizia-lhes: Vós sois de baixo, Eu sou de cima; vós sois deste mundo, Eu não sou deste mundo. Por isso vos disse que morrereis nos vossos pecados, porque, se não crerdes que Eu sou, morrereis nos vossos pecados” (João 8:23-24). Aqui, vemos claramente dois significados diferentes da expressão “Eu sou”, como também o facto que, na última sentença, ela não apresenta o sentido habitual, assim como podemos ver também nos seguintes versículos: Disse-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo que, antes que Abraão existisse, Eu sou. Então pegaram em pedras para Lhe atirarem; mas Jesus ocultou-Se e saiu do templo, passando pelo meio deles, e assim Se retirou (João 8:58-59).

Sabendo, pois, Jesus todas as coisas que sobre Ele haviam de vir, adiantou-Se, e disse-Lhes: a quem buscais? Responderam-Lhe: A Jesus, nazareno. Disse-Lhes Jesus: Sou Eu. E Judas, que o traía, estava com eles. Quando, pois, Lhes disse: Sou Eu, recuaram e caíram por terra. Tornou-Lhes, pois, a perguntar: A quem buscais? E eles disseram: A Jesus, nazareno. Jesus respondeu: Já vos disse que sou Eu; se, pois, Me buscais a Mim, deixai ir estes” (João 18:4-8). Por que os judeus recuaram e caíram por terra quando Ele lhes disse: “Eu sou”? Não terá sido porque ouviram o tetragrama e esta, então, foi uma reação esperada diante da pronúncia do “nome” de Javé? Evidentemente, referidas palavras, ditas no sentido comum, não teriam gerado tais reações: primeiro a prosternação, depois a crucificação.

Dos textos acima, inferimos que Jesus Se intitulava Javé (“Eu sou Aquele que sou”), mesmo quando não dizia isso de forma direta, situação causada talvez também pela língua aramaica, que é diferente da hebraica e difícil de ser traduzida para o grego. Por outro lado, a Escritura atribui, de forma direta, a Jesus Cristo, somente o nome de “O Senhor”. E, já que “ninguém pode dizer: “Jesus é Senhor”, senão pelo Espírito Santo” (I Coríntios 12:3), consideramos que a fixação deste “nome” é providencial e desejada por Deus através do Espírito Santo, não podendo ser considerada, de forma alguma, o resultado dum erro ou duma tradição estritamente judaica de substituir um nome por outro. Assim, como veremos mais adiante, ao invocar este nome (O Senhor), junto ao nome “Jesus (que significa ”Deus salva”) e Cristo (“O Ungido de Deus”), os cristãos rezam ao Deus Único em natureza e triplicado em Pessoas: O Pai, O Filho e O Espírito Santo.

Sabemos que “as testemunhas de Jeová” não concordam com este ensinamento e nunca rezam a Jesus, mas eis que, mais uma vez, elas contradizem flagrantemente a Escritura. Nós sabemos claramente que os primeiros cristãos “em todo o lugar, invocam o nome do Nosso Senhor Jesus Cristo” (I Coríntios 1:2), como Ele mesmo nos exortou  a fazê-lo (João 14:14 e 16:24). Os cristãos, inspirados pelo Espírito Santo e ensinados pelos Discípulos, entendiam muito bem que, “em nome de Jesus Cristo, o nazareno, Aquele a quem vós crucificastes e a quem Deus ressuscitou dos mortos, em nome Desse é que este está são, diante de vós. Ele é a pedra que foi rejeitada por vós, os edificadores, e que Se transformou em pedra angular. E em nenhum outro há salvação, porque também, debaixo do céu, nenhum outro nome há, dado entre os homens, pelo qual devemos ser salvos” (Atos dos Apóstolos 4:10-12). Consequentemente, a Igreja e os seus membros não somente estão certos ao elevarem as suas orações ao Senhor Jesus, Aquele que salva, mas também são exortados a assim o fazer. O mesmo fez o primeiro mártir e diácono, Estevão (Atos dos Apóstolos 7:59). Perguntamos às “testemunhas” por que Estevão não rezou a Javé (assim como dizem eles que faziam os primeiros cristãos)? Perguntamos a eles também: Estevão rezou a Deus ou a uma criatura? Se rezou a uma criatura, então Estevão era pagão? E se foi pagão, porque a Bíblia não condena isso, mas apresenta Estevão como confessor da verdadeira fé?

Além disso, desde o início, os cristãos invocavam “o nome do Senhor Jesus Cristo” e os próprios judeus entendiam o “perigo” da pregação deste nome, pelo que proibiram-na (Atos dos Apóstolos 5:28,41). Também Saulo, inicialmente, perseguiu “todos os que invocavam o Seu nome” [ou seja, o do Senhor Jesus] (Atos 9:14); logo, o mesmo Saulo iria “levar o Seu nome perante os pagãos” e até “sofrer por este nome” (Atos 9:15-16). Mas, em momento algum, trata-se do nome Javé, mas somente do nome do Senhor Jesus Cristo.

Um dos “argumentos” que as “testemunhas” defendem, a respeito do “nome de Deus”, é baseado no texto de João 17:6, o qual, segundo o seu entendimento, demonstra que Deus tem um nome, que deve ser conhecido por todos. Vejamos o que diz O Salvador na Sua oração do Getsémani: “Manifestei o Teu nome aos homens que do mundo Me deste; eram teus e Tu Mos deste e guardaram a Tua palavra” (João 17:6). Desta vez, também temos que dececionar as “testemunhas”, ao formular duas perguntas a fim de que as próprias constatem que o texto, na verdade, está contra elas.

a) Quem mostrou o nome de Deus aos homens: Cristo (no Novo Testamento) ou Moisés (no Antigo Testamento)? Será que se trata do mesmo “nome”, descoberto pelos dois?
b) Não terá sido Cristo quem revelou o nome Javé a Moisés, uma vez que Ele existe desde antes de Moisés e de Abraão, como O próprio Jesus disse? Por sabermos que as “testemunhas” não podem responder a estas perguntas, sobretudo porque qualquer opção de resposta vai contra si próprias, só nos resta constatar que, se falamos Daquele que revelou a Moisés “o misterioso nome” (Êxodo 4), devemos reconhecer que Ele foi o Filho e A Palavra de Deus (ainda não encarnado), que disse sobre Si próprio: “Eu sou Aquele que sou”. É Ele “O Anjo do grande Conselho [da Trindade] ” (Isaías 9:5), o qual Se mostrou e falou com Abraão, Moisés, etc. (Génesis 18:1 e seguintes, comparados a João 8:56, 21:17-18; 22:11-12,14-18 e Êxodo 3:2 e seguintes). Ressalte-se, ainda, que, a cada vez que O Logos Divino “cumpria uma missão”, na forma do Anjo (Mensageiro) de Deus, fazia isso como se Ele mesmo fosse Deus (vejam os versículos bíblicos acima). Em consequência, os textos que mencionamos não tratam do Arcanjo Miguel (com natureza angélica), como dizem “as testemunhas”, pois “com efeito, a qual dos anjos disse Deus alguma vez: Tu és meu Filho, Eu hoje te gerei? E ainda: Eu serei para Ele um Pai e Ele será para mim um Filho?” (Hebreus 1:5; e Mateus 3:17; 17:5).

Retornemos ao texto de João 17:6, onde devemos acrescentar que “o nome” que Cristo nos revelou no que se refere a Deus-Pai é o apelativo de “Pai”. É esse “nome” que somos exortados a chamar a cada vez que rezamos – vejam a oração: “Pai Nosso…” (e não “Jeová Nosso”). Também a Escritura nos diz que a invocação de Deus como Pai não é algo (puramente) humano e sim do Espírito Santo nos nossos corações (Gálatas 4:6). É por isso que a Igreja reza, na Liturgia, para que “tenhamos a honra” de chamar Deus de Pai, “com atrevimento e sem condenação”. Parece que “as testemunhas de Jeová” ainda não conseguiram a honra deste grande presente: chamar Deus de Pai.

Para concluir, ressaltamos que Deus (O Pai, O Filho e O Espírito Santo), no Antigo Testamento, não era conhecido como Trindade e falava “como uma única voz”, mesmo que, profeticamente, várias vezes tenha-Se revelado como uma comunhão de Pessoas (Génesis 1:26; 11:7 etc). O “mensageiro” de Deus era, e é, A Palavra de Deus (João 1:1-5), ou seja, o Filho, que existe desde antes dos tempos. Foi Ele quem Se revelou a Moisés com o “nome”: Eu sou Aquele que sou (Javé), sendo que, sobretudo a partir do Novo Testamento, este nome aparecerá exclusivamente na forma Κύριος, ou seja, O Senhor. Nem Javé nem O Senhor são nomes próprios do Salvador (ou de Deus-Pai), mas nomes dos Seus atributos mais característicos. Outra importante revelação que Cristo e o Seu Evangelho nos fizeram foi o conhecimento sobre o Pai, o qual podemos invocar através do Filho, no Espírito Santo.

Após tudo o que foi dito acima, observemos que as verdadeiras “testemunhas de Jeová”, ou seja, de Cristo, somos nós, e os membros da Sociedade Torre de Vigia” são as “testemunhas” dum deus imaginário, que não é Javé – O Filho -, tampouco o Pai, porque não pode haver um Deus Pai, sem que Ele tenha um Filho que seja também Deus, da mesma natureza que Ele, porque aquele que nasce dum ser divino não pode ter outra natureza, assim como também é o caso dos homens ou até dos animais. Resta-nos somente exortar a todas as “testemunhas de Jeová” a se arrependerem da sua perdição e a receberem a verdadeira fé e que os ortodoxos tenham muito cuidado e que nela estejam sempre firmes.

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NOTAS:

[1] Barbara Harrison, Visions of Glory, p. 253, citado em J. Elliot, Language and Identity at the Kingdom Hall, em http://www.watchtowerinformationservice.org

[2] Este nome pode ser lido de várias maneiras: Javé, Jeová etc. Nós preferimos a versão Javé.  Veja também o livro de Nathan Stone, Name of God, http://www.ldolphin.org/nathanstone/. O livro deve ser lido com algumas reservas. Na internet existem muitos outros materiais sobre o tema, mas eles devem ser lidos de forma seletiva, porque alguns são escritos mesmo por “testemunhas” ou por simpatizantes das suas ideias.

[3] A Sentinela, 1 de Maio, 1998, p.5.

[4] Ibid, pp 7-8.

[5] Diácono Andrei Kuraev, Lição áudio sobre as Testemunhas de Jeová, em 2 partes, http://www.predanie.ru. É desta lição (em russo) que temos expostos mais argumentos e informações, mas de uma maneira diferente.

[6] Detalhes e análise minuciosa da história e do significado do tetragrama, Dr. Petre Semen, em Valenţele teologice ale tetragramei divine, revista „Pleroma”, nr. 3/2006, pp. 61-82.

[7] Os especialistas não chegaram a um consenso sobre esta leitura. Nós damos preferência à versão de Dr. Petre Semen (ver obra citada), que foi nosso professor de Antigo Testamento e Língua Hebraica na Faculdade de Teologia Ortodoxa em Iasi, Roménia.

[8] Ver Rev. David Pestroiu, A Ortodoxia contra o proselitismo das “Testemunhas de Jeová”, Bucareste, 2005, p 63.

[9] Ver A Sentinela, 15 de setembro de 1995, p. 28, 1 de outubro de 1997, p 14.

[10] Rev. David Pestroiu, op. cit., p 65.

[11] Uma das mais chocantes afirmações das “testemunhas” é que os que usam o nome “Elohim” (que está no plural) seriam culpados de politeísmo (A Sociedade Torre de Vigia, Há de crer na Trindade? p. 13). Então, de forma indireta, eles acusam Moisés de politeísmo. Vejam a que aberrações pode levar a obsessão anti-trinitária.

[12] A Sociedade Torre de Vigia, Trazer argumentos das Escrituras, p 171.

[13] Ver A Sentinela, 01 de março de 1996, p.7

[14] De passagem, perguntamos às “testemunhas” se Cristo mentia ou não, ao dizer isso. Se Ele mentia, então todo o Evangelho é mentiroso e se dizia a verdade, significa que Ele é Deus.

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