Menu Fechar

Mensagem Pascal do Arcebispo Nestor de Madrid e Lisboa

Amados Padres, Irmãos e Irmãs no Senhor!

Nesta noite santa e redentora, gostaria de dirigir a todos vós as palavras dum dos estiqueros das laudes da Ressurreição: “Radiantes de alegria e em festa, abracemo-nos uns aos outros! Chamemos irmãos mesmo aos que nos odeiam! Perdoemos tudo pela Ressurreição!”.

Encontramo-nos nesta Páscoa no meio de duras provações como nunca antes nos sucedeu nesta vida. Ondas de sofrimento humano, desespero e ansiedade sobre o futuro esmagam-nos.

Claro que, rezamos e persistimos para que O Senhor encurte estes dias (Mateus 24:22). Dir-se-ia que nada mais poderíamos fazer, mas não é assim: com a nossa atenção espiritual, com o esforço da nossa vontade, com a bravura de nosso coração podemos impedir que o espírito de guerra, de ódio, de devastação, seja admitido em nossos corações, em nossas famílias e em nossas comunidades paroquiais.

Lembremo-nos que de acordo com as palavras do Apóstolo, “Esta é a vitória que supera o mundo: a nossa fé” (1 João 5:4), que o nosso Deus, que não é Deus dos mortos, mas dos vivos, que a Páscoa do Cristo, a qual celebramos, seja o triunfo do bem absoluto sobre o mal absoluto, da vida sobre a morte, da luz sobre as trevas. E ninguém poderá jamais arrebatar-nos a nossa alegria nela.

Meus queridos, como eu gostaria de poder trocar a saudação pascal com cada um de vós, encorajar cada um de vós, falar-vos as palavras certas, fitar os vossos olhos, e talvez apenas ficarmos em silêncio.
Que O Cristo ressuscitado do túmulo, abençoe, apoie e conforte cada um de vós.

Cristo ressuscitou! Em verdade ressuscitou!

​† Nestor, arcebispo de Madrid e de Lisboa.
Páscoa de 2022.

Ajuda para os refugiados e vítimas do conflito armado na Ucrânia

Solicitamos o apoio de todos para juntar meios financeiros para ajudar os refugiados e as vítimas do conflito armado na Ucrânia.
As transferências bancárias podem ser efetuadas para a conta da Igreja Ortodoxa em Portugal  / LusOrtodoxia.

IBAN: PT 50 0007 0000 0074 9198 61023

BIC/SWIFT: BESCPTPL

Se possível, peço que indiquem na descrição da operação “ajuda refugiados”.
Agradeço cordialmente a Vossa prontidão em ajudar os irmãos que se encontram nesta situação difícil!

Padre Jerónimo Thomaz: OS TEÓLOGOS ORTODOXOS E O DOGMA CATÓLICO DA IMACULADA CONCEIÇÃO

O estudo do padre Jerónimo Thomaz sobre OS DOGMAS CATÓLICOS DA IMACULADA CONCEIÇÃO E DO PECADO ORIGINAL (PDF).
A maioria dos estudos e artigos ortodoxos sobre este tema é escrita sem grande conhecimento da teologia católica romana e sem entender o fundamento filosófico dos dogmas ocidentais.
O padre Jerónimo, com a sua erudição única, vem completar esta carência e dar uma perspetiva mais complexa sobre o tema e as suas implicações.

 

Dormição da Mãe de Deus – 15 (28) de agosto

Foi através da Santa Mãe de Deus que Cristo veio ao mundo. Ela é o portão para o mundo, pelo qual o Verbo encarnado – da maior pureza – entrou, sujeito, no entanto, ao sofrimento e à morte, com o objetivo de conquistar o diabo, o pecado e a morte. Os acontecimentos da vida do Senhor estão, portanto, estreitamente ligados aos da Mãe de Deus. Essa é a razão pela qual todos os santos que estão unidos a Cristo e que são membros do seu Corpo amam, também, a Mãe de Deus.

Quando aprouve a Cristo, nosso Deus, chamar a Sua mãe para junto Dele, enviou um anjo, três dias antes, para comunicar-lhe essa notícia. Ao aproximar-se, o anjo disse-lhe, a ela que é cheia de graça: “Isto é o que diz o teu Filho: ‘Chegou o tempo de chamar a Minha mãe para junto de Mim’. Não te assustes com esta notícia; antes, regozija-te, porque vais para a vida eterna”. Ao receber essa mensagem com grande alegria, a Mãe de Deus, tomada por um ardente desejo de juntar-se ao seu Filho, foi até ao Monte das Oliveiras para ali rezar com tranquilidade, como habitualmente fazia. Deu-se, então, um grande milagre: no momento em que a Toda-Santa chegou ao topo da colina, as árvores ali plantadas curvaram os seus ramos, inclinando-se e glorificando a Rainha do mundo, tal como servos dotados de razão.

Depois de ter rezado, a Toda-Santa retornou à sua casa, no Monte Sião. Ao entrar em casa, esta começou, subitamente, a tremer. Dando graças a Deus, ela acendeu as lâmpadas da casa e chamou para junto de si os seus familiares e amigos. Ela própria deixou tudo preparado, arranjou o seu leito de morte e deu ordens para que tudo estivesse pronto para o seu funeral. Ela revelou a notícia da sua partida para o Céu às mulheres que vieram ter com ela e, como prova, deu-lhes um ramo de palmeira, símbolo da vitória e da incorruptibilidade, que o anjo lhe havia entregado. Presas, ainda, às fronteiras deste mundo, as suas companheiras receberam a notícia com lágrimas copiosas e gemidos, implorando à Mãe de Deus que não as deixasse órfãs. Ela, ao dizer-lhes que ia, de facto, para o Céu, assegurou-lhes que, independentemente disso, continuaria a protegê-las – e não só a elas, mas ao mundo inteiro, através das suas orações. Ao ouvir tais palavras, as mulheres pararam de chorar e apressaram-se a realizar os preparativos. A Toda-Santa disse-lhes, também, para darem os seus dois únicos trajes a duas viúvas pobres, que eram as suas constantes companheiras e amigas.

Arquimandrita Aimilianos – A Espiritualidade Ortodoxa e a Revolução Tecnológica

A posição da Igreja no que se refere a este particular problema

A Igreja de Cristo detém uma forma inalterada de Tradição Ortodoxa, uma força real única, da qual retira a sua vida e experiência, assim como uma primavera infindável de ascetismo e a voz do tesouro da sua tradição monástica, sempre profundo e vital.

A tradição monástica pode fornecer critérios adequados de comportamento aos membros da Igreja no que diz respeito à tecnologia. A Igreja e o monasticismo não se posicionam de forma hostil em relação ao progresso tecnológico. Pelo contrário, ao longo dos séculos, os monges comprovaram ser poderosos agentes de invenções científicas e técnicas.

No Ocidente Medieval, os monges restauraram a civilização, que tinha sido destruída pelas invasões bárbaras. Os mosteiros tornaram-se pontos focais para as ciências naturais, onde se desenvolveram a matemática, a zoologia, a química e a medicina, entre outros. As demais importantes invenções dos mosteiros formaram as bases da indústria. Da mesma forma, através das suas recuperações de extensas porções de terra, os monges criaram a oportunidade para o desenvolvimento agrícola.

Para que não houvesse a necessidade de os monges faltarem aos serviços, o nosso próprio Santo Atanásio, o Atonita, construiu (na Montanha Sagrada) um aparelho mecânico de amassar, o qual era conduzido por bois. Este instrumento, lê-se na Vida do santo, “foi o melhor, tanto em termos atrativos quanto na arte da manufatura”. De facto, o mesmo ocorreu em todas as terras onde os mosteiros ortodoxos foram estabelecidos.

O mosteiro ortodoxo sempre viveu como uma realidade escatológica e uma amostra do Reino dos Céus e, portanto, era também um modelo para uma sociedade organizada segundo um caminho de vida fiel ao Evangelho, que abraça a dignidade humana, a liberdade e o serviço para com o próximo.

Dito isso, os santos Padres submeteram a tecnologia nos mosteiros a dois critérios, como caracteristicamente referido por São Basílio Magno, sendo que um se refere ao emprego e o outro à escolha das aplicações tecnológicas.

Sermão de Páscoa de São João Crisóstomo

Que todo o homem pio e amante de Deus goze desta esplendorosa e bela festa! Que todo o servo fiel entre jubiloso no gáudio de seu Senhor!  Que aquele que se afadigou a jejuar goze agora o seu estipêndio! Que o que trabalhou desde a primeira hora receba agora o salário prometido! Que o que veio após a terceira festeje agradecido! Que o que chegou após a sexta em nada hesite: não sofrerá qualquer dano! Que o que tardou até à nona se aproxime, de nada duvidando! Que o que apenas chegou à undécima não tema pela tardança! É generoso o Patrão, e acolhe o último como o primeiro! Dá descanso ao obreiro da undécima como ao que laborou desde a primeira! Apieda-se do derradeiro e ocupa-se do primeiro: a este dá, àquele perdoa! Tanto recebe a obra como aceita o julgamento! Tanto honra a ação como aprova a intenção! Entrai, portanto, todos na graça de nosso Senhor! Primeiros e segundos, gozai de vosso salário! Ricos e pobres, cantai juntamente em coro! Observantes ou indolentes, honrai esta jornada! Que tenhais jejuado ou não, rejubilai no dia de hoje! Está repleta a mesa, deliciai-vos todos! O vitelo é pingue, ninguém sairá com fome. Inebriai-vos todos no beberete da fé! Gozai todos da riqueza da bondade. Ninguém chore sua pobreza, pois chegou a hora de em comum reinar. Que ninguém deplore as suas quedas, pois do sepulcro jorrou perdão. Que ninguém receie a morte, pois libertou-nos a morte do Salvador! Extinguiu-a Aquele que ela abraçara! Espoliou os Infernos O que aos Infernos desceu. Tornou-se-lhe amargo Aquele de quem provou a carne. Predissera-o Isaías ao clamar: “O Inferno, disse, encheu-se de amargor, quando lá em baixo se encontrou conTigo”. Encheu-se de amargor pois foi abolido; encheu-se de amargor pois foi iludido; encheu-se de amargor pois foi morto; encheu-se de amargor, pois foi abatido; encheu-se de amargor pois foi aprisionado. Tomou um corpo e coube-lhe em sorte um Deus; tomou terra e achou céu; tomou o que via e caiu no que não via. Onde está, ó morte, o teu aguilhão? onde está, inferno, o teu triunfo?”. Ressurgiu Cristo, e tu és precipitado; ressurgiu Cristo e caíram os demónios; ressurgiu Cristo e alegram-se os anjos; ressurgiu Cristo e reina a vida; ressurgiu Cristo e nem mais um morto nos sepulcros. Ressurgiu dos mortos Cristo, primícias dos adormecidos: a Ele a glória e o poder nos séculos dos séculos. Ámen.

O “Devocionário Ortodoxo” – primeiro livro de orações ortodoxas em português

Graças a Deus, a Quem tudo devemos, mas graças também à boa vontade e empenhamento da Editora Paulus, a quem exprimimos a nossa gratidão, acaba de sair dos prelos o nosso Devocionário Ortodoxo em língua portuguesa. Traduzimo-lo e editámo-lo pensando sobretudo nos filhos de imigrantes romenos, moldavos, ucranianos, etc., que nascidos e educados em Portugal, falam quiçá melhor o português que a língua materna de seus antepassados. Pode, no entanto, ser utilizado para devoção privada por cristãos de outras confissões, sobretudo pelas mais próximas da Ortodoxia, como o Catolicismo, o Anglicanismo, etc.

Nele encontrará o fiel devoto uma seleção de orações da tradição ortodoxa para diversos momentos do dia e circunstâncias da vida, bem como as partes fixas dos ofícios de Vésperas, Completas e Matinas segundo o rito bizantino, e ainda os ofícios de preparação e ação da graças pela Sagrada Comunhão, já traduzidas do original e editados no nosso Missal Ortodoxo. Juntámos-lhe o texto das Horas Menores do Ofício Divino, cujo formulário é breve e praticamente fixo, o que o torna particularmente adequado para a devoção pessoal do fiel cristão mesmo em viagem.

Arquimandrita Placide Deseille (1926-2018) – estágios de uma peregrinação

I. Os primeiros estágios (1926-1942)

 Anos de formação

Lembro-me de todos os que contribuíram para a minha educação humana e espiritual com profunda gratidão; a começar pela minha família. Fui formado na escola da grande tradição litúrgica e patrística da Igreja. A minha avó e as minhas duas tias paternas, que muito me influenciaram, tinham como leituras de cabeceira o Livro de Oração Antigo de Dom Cabrol e o Ano Litúrgico de Dom Guéranger, livros que continham textos esplêndidos das antigas liturgias do Ocidente e do Oriente.

Essas três mulheres eram animadas por uma fé viva e uma profunda piedade, desprezando quaisquer devoções sentimentais. Desde muito cedo, souberam dar-me um sentimento e um apreço pela riqueza da Tradição. Elas também amavam a vida monástica e as obras de Dom Marmion; sendo que as grandes abadias de Beuron, Maredsous e Solemnes [1] eram os lugares elevados do seu Cristianismo. Na escola secundária, os meus professores jesuítas – homens de oração e inteligência, de uma grande nobreza de coração – despertaram em mim o amor pela Antiguidade Clássica, pelo cavalheirismo da Idade Média, e também pelo século XVII em França. Eles não se opuseram, de forma alguma, à influência da minha família.

Eu devia ter uns doze anos quando li, numa revista já bastante antiga, um artigo sobre os mosteiros de Meteora, na Tessália, ilustrado com fotografias evocativas. Fiquei profundamente impressionado e senti que, naquelas regiões, existia uma tradição ainda mais venerável, mais autêntica, do que as grandes abadias beneditinas contemporâneas das quais a minha avó sempre me falava. Eu teria apreciado muito tornar-me um monge no Grande Meteora – mas, obviamente, essa era uma esperança impossível. Eu não podia sequer conceber que, um dia, fosse aceite num mosteiro católico, pois parecia-me sublime e inacessível o modo de vida que ali se praticava. Eu esperava por um outro futuro.

A guerra de 1939 e a ocupação alemã alteraram duramente toda a minha vida. Tive a oportunidade de ir muitas vezes à Abadia de Wisques, no Pas-de-Calais. Lá conheci um monge maravilhoso, Dom Pierre Doyere, um ex-oficial naval que tinha entrado nesse mosteiro e que, mais tarde, tornou-se o seu prior. Permaneci sempre muito afeiçoado a ele, assim como ao Padre Abade, Dom Augustin Savaton. Quinze anos depois fui convidado a colaborar com Dom Doyere na edição, para a série Sources Chrétiennes, das obras de Santa Gertrude de Helfta, uma grande mística beneditina do século XIV.

Encantou-me a figura de São Francisco de Assis e as dos seus primeiros companheiros, as quais descobri através das obras de Joergensen [2] e do Fioretti [3]. Contudo, mais tarde, o franciscanismo não exerceu nenhuma atração sobre mim. Visitei algumas abadias beneditinas, em particular a de Solemnes. A esta última voltei com frequência, sendo que ela permaneceu para mim, ao lado da Grande Trappe, como uma espécie de segunda pátria espiritual. No entanto, se por um lado, a vida beneditina me atraía por estar enraizada na tradição, por outro, não satisfazia uma certa necessidade do absoluto, um gosto por uma espécie de rudeza na existência e um primitivismo evangélico, qualidades que encontrei simbolizadas pelos eremitérios franciscanos da Úmbria e pelos mosteiros de Meteora.