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Categoria: Teologia Ortodoxa

Padre Jerónimo Thomaz: OS TEÓLOGOS ORTODOXOS E O DOGMA CATÓLICO DA IMACULADA CONCEIÇÃO

O estudo do padre Jerónimo Thomaz sobre OS DOGMAS CATÓLICOS DA IMACULADA CONCEIÇÃO E DO PECADO ORIGINAL (PDF).
A maioria dos estudos e artigos ortodoxos sobre este tema é escrita sem grande conhecimento da teologia católica romana e sem entender o fundamento filosófico dos dogmas ocidentais.
O padre Jerónimo, com a sua erudição única, vem completar esta carência e dar uma perspetiva mais complexa sobre o tema e as suas implicações.

 

Dormição da Mãe de Deus – 15 (28) de agosto

Foi através da Santa Mãe de Deus que Cristo veio ao mundo. Ela é o portão para o mundo, pelo qual o Verbo encarnado – da maior pureza – entrou, sujeito, no entanto, ao sofrimento e à morte, com o objetivo de conquistar o diabo, o pecado e a morte. Os acontecimentos da vida do Senhor estão, portanto, estreitamente ligados aos da Mãe de Deus. Essa é a razão pela qual todos os santos que estão unidos a Cristo e que são membros do seu Corpo amam, também, a Mãe de Deus.

Quando aprouve a Cristo, nosso Deus, chamar a Sua mãe para junto Dele, enviou um anjo, três dias antes, para comunicar-lhe essa notícia. Ao aproximar-se, o anjo disse-lhe, a ela que é cheia de graça: “Isto é o que diz o teu Filho: ‘Chegou o tempo de chamar a Minha mãe para junto de Mim’. Não te assustes com esta notícia; antes, regozija-te, porque vais para a vida eterna”. Ao receber essa mensagem com grande alegria, a Mãe de Deus, tomada por um ardente desejo de juntar-se ao seu Filho, foi até ao Monte das Oliveiras para ali rezar com tranquilidade, como habitualmente fazia. Deu-se, então, um grande milagre: no momento em que a Toda-Santa chegou ao topo da colina, as árvores ali plantadas curvaram os seus ramos, inclinando-se e glorificando a Rainha do mundo, tal como servos dotados de razão.

Depois de ter rezado, a Toda-Santa retornou à sua casa, no Monte Sião. Ao entrar em casa, esta começou, subitamente, a tremer. Dando graças a Deus, ela acendeu as lâmpadas da casa e chamou para junto de si os seus familiares e amigos. Ela própria deixou tudo preparado, arranjou o seu leito de morte e deu ordens para que tudo estivesse pronto para o seu funeral. Ela revelou a notícia da sua partida para o Céu às mulheres que vieram ter com ela e, como prova, deu-lhes um ramo de palmeira, símbolo da vitória e da incorruptibilidade, que o anjo lhe havia entregado. Presas, ainda, às fronteiras deste mundo, as suas companheiras receberam a notícia com lágrimas copiosas e gemidos, implorando à Mãe de Deus que não as deixasse órfãs. Ela, ao dizer-lhes que ia, de facto, para o Céu, assegurou-lhes que, independentemente disso, continuaria a protegê-las – e não só a elas, mas ao mundo inteiro, através das suas orações. Ao ouvir tais palavras, as mulheres pararam de chorar e apressaram-se a realizar os preparativos. A Toda-Santa disse-lhes, também, para darem os seus dois únicos trajes a duas viúvas pobres, que eram as suas constantes companheiras e amigas.

Arquimandrita Aimilianos – A Espiritualidade Ortodoxa e a Revolução Tecnológica

A posição da Igreja no que se refere a este particular problema

A Igreja de Cristo detém uma forma inalterada de Tradição Ortodoxa, uma força real única, da qual retira a sua vida e experiência, assim como uma primavera infindável de ascetismo e a voz do tesouro da sua tradição monástica, sempre profundo e vital.

A tradição monástica pode fornecer critérios adequados de comportamento aos membros da Igreja no que diz respeito à tecnologia. A Igreja e o monasticismo não se posicionam de forma hostil em relação ao progresso tecnológico. Pelo contrário, ao longo dos séculos, os monges comprovaram ser poderosos agentes de invenções científicas e técnicas.

No Ocidente Medieval, os monges restauraram a civilização, que tinha sido destruída pelas invasões bárbaras. Os mosteiros tornaram-se pontos focais para as ciências naturais, onde se desenvolveram a matemática, a zoologia, a química e a medicina, entre outros. As demais importantes invenções dos mosteiros formaram as bases da indústria. Da mesma forma, através das suas recuperações de extensas porções de terra, os monges criaram a oportunidade para o desenvolvimento agrícola.

Para que não houvesse a necessidade de os monges faltarem aos serviços, o nosso próprio Santo Atanásio, o Atonita, construiu (na Montanha Sagrada) um aparelho mecânico de amassar, o qual era conduzido por bois. Este instrumento, lê-se na Vida do santo, “foi o melhor, tanto em termos atrativos quanto na arte da manufatura”. De facto, o mesmo ocorreu em todas as terras onde os mosteiros ortodoxos foram estabelecidos.

O mosteiro ortodoxo sempre viveu como uma realidade escatológica e uma amostra do Reino dos Céus e, portanto, era também um modelo para uma sociedade organizada segundo um caminho de vida fiel ao Evangelho, que abraça a dignidade humana, a liberdade e o serviço para com o próximo.

Dito isso, os santos Padres submeteram a tecnologia nos mosteiros a dois critérios, como caracteristicamente referido por São Basílio Magno, sendo que um se refere ao emprego e o outro à escolha das aplicações tecnológicas.

Pe. Dumitru Staniloae: Conhecimento catafático e apofático de Deus

Segundo a tradição patrística, o conhecimento de Deus pode ser catafático (racional) ou apofático (inefável). Este último é superior ao primeiro porque o completa. No entanto, nenhum deles permite conhecer Deus na Sua essência. Através do conhecimento catafático, podemos conhecer Deus apenas como o criador e causa sustentadora do mundo, ao passo que, através do conhecimento apofático, obtemos uma espécie de experiência direta da Sua presença mística, que ultrapassa o simples conhecimento de Deus como causa investida de certos atributos similares aos do mundo. Este último conhecimento é denominado apofático porque a experiência da presença mística de Deus transcende a possibilidade de O definirmos em palavras. Tal conhecimento sobre Deus é, portanto, mais adequado do que o conhecimento catafático.

Contudo, não podemos simplesmente renunciar ao conhecimento racional, pois ainda que o que diga sobre Deus possa não ser inteiramente adequado, nada diz que lhe seja contrário. O que se deve fazer é aprofundar o conhecimento racional por meio do conhecimento apofático. Além disso, mesmo o conhecimento apofático, ao procurar oferecer qualquer explicação de si mesmo, deve recorrer aos termos do conhecimento do intelecto, embora os preencha continuamente com um significado mais profundo do que as noções da mente podem fornecer.

Bispo Kallistos Ware – O Escolasticismo e a Ortodoxia: O método teológico como um dos fatores do Cisma

“Uma fé sem milagres não é mais do que um sistema filosófico
e uma Igreja sem milagres não é mais do que uma organização de caridade
como a Cruz Vermelha” (Bispo Nicolau de Ochrid).

 “Entre o final do século XI e o final do XII,
tudo mudou no Ocidente”  (Padre Yves Congar).

 

A desintegração da nossa tradição comum

“As diferenças surgiram da desintegração de uma tradição comum e o problema é encontrar o parentesco original no passado comum”. Foi assim que o falecido Padre Bernard Leeming, ao parafrasear e tornar sua uma afirmação do Arcipreste George Florovskii, resumiu a relação essencial entre ortodoxos e católicos, entre o Oriente grego e o Ocidente latino[1]. É sob essa perspetiva que podemos abordar, de forma muito apropriada, a questão da “Ortodoxia e o Ocidente”, colocada de forma tão desafiadora pelo Dr. Yannaras no seu artigo original [2] e agora retomada pelo Sr. Bonner na sua resposta cuidadosamente argumentada: “O Cristianismo e a Cosmovisão Moderna”.

Pe. John Whiteford – Perguntas frequentes sobre os ícones

1. O que é um ícone?

Um ícone é uma imagem (normalmente bidimensional) de Cristo, dos santos, dos anjos, de importantes passagens bíblicas ou de eventos da história da Igreja.

São Gregório Dialogista (Papa de Roma, 590-604) dizia que os ícones são a Escritura para os iletrados:

“Pois aquilo que a escrita apresenta ao leitores, esta figura apresenta ao não esclarecido que a contempla, já que nela até mesmo os ignorantes vêem o que devem seguir, nela o iletrado lê” (Epístola ao Bispo Serenus de Marselha, NPNF 2, Vol. XIII, pág. 53).

A todos os que sugerem que isso já não é relevante na nossa era iluminada, considerem a taxa de analfabetismo funcional bastante grande que ainda temos e o facto de que, mesmo nas sociedades mais alfabetizadas, há sempre um segmento iletrado considerável … os seus filhos pequenos.

Os ícones fazem, também, com que as nossas mentes ascendam das coisas terrenas às celestiais. São João Damasceno escreveu: “somos levados por ícones visíveis à contemplação do divino e do espiritual” (PG 94:1261a). Ao guardar na nossa memória o que é representado no ícones, somos inspirados a imitar a santidade dos que neles são representados. São Gregório de Nissa (330-395) mencionou o facto de não conseguir passar diante do ícone em que Abraão oferece Isaque em sacrifício “sem derramar lágrimas” (PG 46:572). Sobre isto, observou-se no Sétimo Concílio Ecuménico: “Se até mesmo a tal Doutor a figura foi útil e o fez derramar lágrimas, quanto mais aos ignorantes e simples trará compunção e benefício” (NPNF 2, vol. 14, p. 539). 

Arquimandrita Justino Popovich: Homem e o Deus-Homem (fragmento)

Quando o homem desperta para a realidade material de que é apenas “pó da terra” (Gn 2:7) e passa a contemplar a realidade espiritual, sente que as duas realidades existem de facto e o seu espírito as reconhece como tal. Rapidamente, então, depara-se com um paradoxo: o homem, como uma espécie única, é capaz de conhecer a realidade do mundo material com a ajuda do espírito, que não possui as características da realidade física, ou seja, não se pode revelar materialmente como um objeto, ser percebido através dos sentidos ou se manifestar como uma realidade para além do que é subjetivo. No entanto, apesar de o espírito ser ininteligível enquanto realidade material, através da sua essência invisível, ele é o critério de toda a realidade visível no mundo da matéria. Então, cada vez mais, o homem sente e descobre que o pensamento do espírito – apesar de intangível, invisível e incorpóreo – é, ainda assim, mais real do que qualquer realidade material, o que significa dizer que toda a realidade tem como base os pensamentos do espírito, que é, em si, incorpóreo. É aí que residem a primazia, a perplexidade e a majestade do espírito humano. O homem, então, desperto e guiado pelo seu espírito incorpóreo através dos mistérios do mundo material, passa a compreender, gradualmente, que o espírito é a sua maior e mais imediata realidade e, consequentemente, o seu maior valor. Em tal estado de espírito, o homem acaba por sentir a verdade irresistível das palavras do Salvador a respeito de a alma do homem ser mais real do que todo o mundo visível e mais valiosa do que tudo o que há no mundo material: “Pois que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se perder a sua alma?” (Mt 16:26, Mc 8:36-37 e Lc 9:25). Em outras palavras: no mundo visível não existe valor equivalente ao da alma humana ou através do qual a alma possa ser avaliada e adquirida; a alma é o que há de mais valioso.

São João Maximovich – Sermão Natalício

“Cristo está nascendo, Glorificai-O!”

“Em mistério nasceste no presépio, Salvador, mas o céu,
como uma língua, a todos noticiou a Tua vinda, mostrando a estrela!»

O Filho de Deus desceu à terra e encarnou em silêncio e sem alarde. Tal como a gota de orvalho cai sobre o campo, assim o poder do Altíssimo fez a Virgem Santíssima conceber e dela nasceu o Salvador do mundo.

Mas o mundo não reconheceu a grandiosa obra de Deus. Casa um se ocupava de suas coisas, sua atenção estava presa às preocupações diárias e aos ruidosos sucessos do mundo.

Roma consolidava a sua dominação sobre os povos e o poder do seu estado. A Grécia fazia florescer as artes e começava a desenvolver uma subtil escravidão da carne. Os povos orientais esforçavam-se por encontrar nas manifestações da natureza resposta a todas as perguntas do espirito. Os judeus desejavam ardentemente a libertação do poder estrangeiro e esperavam o salvador na pessoa do Messias — um imperador terreno. Mas as coisas quotidianas não contentavam as pessoas, mesmo quando tinham sucesso. Sentia-se cada vez mais o «anseio do espirito» pela verdade, e que o mundo, atolado em vícios e futilidades, se dirigia à perdição.

Não apenas os judeus esperavam um salvador, mas também os mais justos de entre os pagãos aguardavam que alguém salvasse o mundo de se perder. Cada um porém imaginava a seu modo a chegada d’Aquele, pois sendo eles mesmos carnais, não podiam pensar em algo de espiritual. Os judeus pediam sinais e os gregos buscavam sabedoria  (I Cor. 1, 22).

Ninguém esperava um Salvador doce e humilde de coração, coberto não de glória mundana, mas da glória celeste. Tal foi contudo «Aquele Que queria que todos fossem salvos e chegassem ao conhecimento da verdade».

Prof. Dr. Luís Filipe Thomaz – O FENÓMENO DE FÁTIMA PARA UM ORTODOXO

      Quem quer que resida em Portugal ou visite o pais com um mínimo de demora não deixará de notar a importância que aí reveste o santuário de Fátima, que no espaço de um século se tornou de longe o maior centro de peregrinações do país, a que, sobretudo a 13 de Maio e a 13 de Outubro acorrem quase sempre centos de milhares de peregrinos. Visitado pelos papas pelo menos já cinco vezes, possui hoje, no mundo católico, renome mundial.

Na sua origem, que remonta a 1917, estão as aparições que a Santíssima Virgem no decurso desse ano aí terá feito mensalmente, durante seis meses, a três crianças que aí guardavam gado: Francisco, então de 9 anos, sua irmã Jacinta, de apenas 7, e sua prima Lúcia, já com 10. Embora haja testemunhos indiretos recolhidos desde logo, é sobretudo pelas sucessivas Memórias de Lúcia que os factos são conhecidos, já que os outros dois videntes faleceram no espaço de dois anos sem nada terem escrito. As Memórias de Lúcia são em número de quatro, datando as duas primeiras respetivamente de 1935 e 1937, e as duas últimas de 1941. São, por conseguinte, pelo menos 18 anos posteriores aos factos que reportam. Há que notar, de qualquer modo, que as recordações da Irmã Lúcia se afiguram um tanto confusas, de modo que certos factos — como a aparição de um anjo aos três pastores em 1916, antes portanto das da Senhora — apenas são referidos nas últimas Memórias