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Categoria: Teologia Ortodoxa

Bispo Kallistos Ware – O Escolasticismo e a Ortodoxia: O método teológico como um dos fatores do Cisma

“Uma fé sem milagres não é mais do que um sistema filosófico
e uma Igreja sem milagres não é mais do que uma organização de caridade
como a Cruz Vermelha” (Bispo Nicolau de Ochrid).

 “Entre o final do século XI e o final do XII,
tudo mudou no Ocidente”  (Padre Yves Congar).

 

A desintegração da nossa tradição comum

“As diferenças surgiram da desintegração de uma tradição comum e o problema é encontrar o parentesco original no passado comum”. Foi assim que o falecido Padre Bernard Leeming, ao parafrasear e tornar sua uma afirmação do Arcipreste George Florovskii, resumiu a relação essencial entre ortodoxos e católicos, entre o Oriente grego e o Ocidente latino[1]. É sob essa perspetiva que podemos abordar, de forma muito apropriada, a questão da “Ortodoxia e o Ocidente”, colocada de forma tão desafiadora pelo Dr. Yannaras no seu artigo original [2] e agora retomada pelo Sr. Bonner na sua resposta cuidadosamente argumentada: “O Cristianismo e a Cosmovisão Moderna”.

Pe. John Whiteford – Perguntas frequentes sobre os ícones

1. O que é um ícone?

Um ícone é uma imagem (normalmente bidimensional) de Cristo, dos santos, dos anjos, de importantes passagens bíblicas ou de eventos da história da Igreja.

São Gregório Dialogista (Papa de Roma, 590-604) dizia que os ícones são a Escritura para os iletrados:

“Pois aquilo que a escrita apresenta ao leitores, esta figura apresenta ao não esclarecido que a contempla, já que nela até mesmo os ignorantes vêem o que devem seguir, nela o iletrado lê” (Epístola ao Bispo Serenus de Marselha, NPNF 2, Vol. XIII, pág. 53).

A todos os que sugerem que isso já não é relevante na nossa era iluminada, considerem a taxa de analfabetismo funcional bastante grande que ainda temos e o facto de que, mesmo nas sociedades mais alfabetizadas, há sempre um segmento iletrado considerável … os seus filhos pequenos.

Os ícones fazem, também, com que as nossas mentes ascendam das coisas terrenas às celestiais. São João Damasceno escreveu: “somos levados por ícones visíveis à contemplação do divino e do espiritual” (PG 94:1261a). Ao guardar na nossa memória o que é representado no ícones, somos inspirados a imitar a santidade dos que neles são representados. São Gregório de Nissa (330-395) mencionou o facto de não conseguir passar diante do ícone em que Abraão oferece Isaque em sacrifício “sem derramar lágrimas” (PG 46:572). Sobre isto, observou-se no Sétimo Concílio Ecuménico: “Se até mesmo a tal Doutor a figura foi útil e o fez derramar lágrimas, quanto mais aos ignorantes e simples trará compunção e benefício” (NPNF 2, vol. 14, p. 539). 

Arquimandrita Justino Popovich: Homem e o Deus-Homem (fragmento)

Quando o homem desperta para a realidade material de que é apenas “pó da terra” (Gn 2:7) e passa a contemplar a realidade espiritual, sente que as duas realidades existem de facto e o seu espírito as reconhece como tal. Rapidamente, então, depara-se com um paradoxo: o homem, como uma espécie única, é capaz de conhecer a realidade do mundo material com a ajuda do espírito, que não possui as características da realidade física, ou seja, não se pode revelar materialmente como um objeto, ser percebido através dos sentidos ou se manifestar como uma realidade para além do que é subjetivo. No entanto, apesar de o espírito ser ininteligível enquanto realidade material, através da sua essência invisível, ele é o critério de toda a realidade visível no mundo da matéria. Então, cada vez mais, o homem sente e descobre que o pensamento do espírito – apesar de intangível, invisível e incorpóreo – é, ainda assim, mais real do que qualquer realidade material, o que significa dizer que toda a realidade tem como base os pensamentos do espírito, que é, em si, incorpóreo. É aí que residem a primazia, a perplexidade e a majestade do espírito humano. O homem, então, desperto e guiado pelo seu espírito incorpóreo através dos mistérios do mundo material, passa a compreender, gradualmente, que o espírito é a sua maior e mais imediata realidade e, consequentemente, o seu maior valor. Em tal estado de espírito, o homem acaba por sentir a verdade irresistível das palavras do Salvador a respeito de a alma do homem ser mais real do que todo o mundo visível e mais valiosa do que tudo o que há no mundo material: “Pois que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se perder a sua alma?” (Mt 16:26, Mc 8:36-37 e Lc 9:25). Em outras palavras: no mundo visível não existe valor equivalente ao da alma humana ou através do qual a alma possa ser avaliada e adquirida; a alma é o que há de mais valioso.

São João Maximovich – Sermão Natalício

“Cristo está nascendo, Glorificai-O!”

“Em mistério nasceste no presépio, Salvador, mas o céu,
como uma língua, a todos noticiou a Tua vinda, mostrando a estrela!»

O Filho de Deus desceu à terra e encarnou em silêncio e sem alarde. Tal como a gota de orvalho cai sobre o campo, assim o poder do Altíssimo fez a Virgem Santíssima conceber e dela nasceu o Salvador do mundo.

Mas o mundo não reconheceu a grandiosa obra de Deus. Casa um se ocupava de suas coisas, sua atenção estava presa às preocupações diárias e aos ruidosos sucessos do mundo.

Roma consolidava a sua dominação sobre os povos e o poder do seu estado. A Grécia fazia florescer as artes e começava a desenvolver uma subtil escravidão da carne. Os povos orientais esforçavam-se por encontrar nas manifestações da natureza resposta a todas as perguntas do espirito. Os judeus desejavam ardentemente a libertação do poder estrangeiro e esperavam o salvador na pessoa do Messias — um imperador terreno. Mas as coisas quotidianas não contentavam as pessoas, mesmo quando tinham sucesso. Sentia-se cada vez mais o «anseio do espirito» pela verdade, e que o mundo, atolado em vícios e futilidades, se dirigia à perdição.

Não apenas os judeus esperavam um salvador, mas também os mais justos de entre os pagãos aguardavam que alguém salvasse o mundo de se perder. Cada um porém imaginava a seu modo a chegada d’Aquele, pois sendo eles mesmos carnais, não podiam pensar em algo de espiritual. Os judeus pediam sinais e os gregos buscavam sabedoria  (I Cor. 1, 22).

Ninguém esperava um Salvador doce e humilde de coração, coberto não de glória mundana, mas da glória celeste. Tal foi contudo «Aquele Que queria que todos fossem salvos e chegassem ao conhecimento da verdade».

Prof. Dr. Luís Filipe Thomaz – O FENÓMENO DE FÁTIMA PARA UM ORTODOXO

      Quem quer que resida em Portugal ou visite o pais com um mínimo de demora não deixará de notar a importância que aí reveste o santuário de Fátima, que no espaço de um século se tornou de longe o maior centro de peregrinações do país, a que, sobretudo a 13 de Maio e a 13 de Outubro acorrem quase sempre centos de milhares de peregrinos. Visitado pelos papas pelo menos já cinco vezes, possui hoje, no mundo católico, renome mundial.

Na sua origem, que remonta a 1917, estão as aparições que a Santíssima Virgem no decurso desse ano aí terá feito mensalmente, durante seis meses, a três crianças que aí guardavam gado: Francisco, então de 9 anos, sua irmã Jacinta, de apenas 7, e sua prima Lúcia, já com 10. Embora haja testemunhos indiretos recolhidos desde logo, é sobretudo pelas sucessivas Memórias de Lúcia que os factos são conhecidos, já que os outros dois videntes faleceram no espaço de dois anos sem nada terem escrito. As Memórias de Lúcia são em número de quatro, datando as duas primeiras respetivamente de 1935 e 1937, e as duas últimas de 1941. São, por conseguinte, pelo menos 18 anos posteriores aos factos que reportam. Há que notar, de qualquer modo, que as recordações da Irmã Lúcia se afiguram um tanto confusas, de modo que certos factos — como a aparição de um anjo aos três pastores em 1916, antes portanto das da Senhora — apenas são referidos nas últimas Memórias

O dogma católico-romano da Imaculada Conceição

Nenhum dos antigos Santos Padres disse que Deus, miraculosamente, purificou a Virgem Maria enquanto esta ainda estava no ventre da sua mãe e muitos indicaram, diretamente, que ela, assim como todos os homens, suportou uma batalha contra o pecado, mas foi vitoriosa sobre as tentações e salva pelo Seu Divino Filho (São João Maximovitch, A Veneração Ortodoxa à Mãe de Deus). A Igreja Ortodoxa, que exalta, imensamente, a Mãe de Deus nos seus hinos de louvor, não se atreve a atribuir-lhe aquilo que não foi mencionado pela Sagrada Escritura ou pela Tradição.

Arquimandrita Vassilios Papavassiliou: O pecado original – doutrina ortodoxa ou heresia?

Como nós, ortodoxos, adotamos, fácil e indiscriminadamente, a linguagem da teologia ocidental!  Sim, é sempre uma grande tentação, para aqueles que se converteram à Ortodoxia,  vindos de denominações cristãs do Ocidente, trazer consigo a herança das suas crenças  anteriores, em vez de abraçar a Ortodoxia como algo totalmente diferente do Cristianismo que deixaram para trás. Pois, mesmo que possam ver a cristandade ocidental de hoje como um alienígena em relação à Igreja dos Padres, eles ainda são, muitas vezes, relutantes em aceitar que nem tudo o que havia no Ocidente, anteriormente ao Cisma, é parte integrante da Ortodoxia.

Essa  influência da teologia ocidental pode ser encontrada não somente entre os ortodoxos convertidos no Ocidente, mas também entre aqueles que foram educados na fé ortodoxa, em países tradicionalmente ortodoxos como a Grécia e a Rússia. Isso ocorre, muitas vezes, porque nós ortodoxos somos, infelizmente, demasiado ingénuos, ao considerar que as opiniões fundamentalistas entre os cristãos ocidentais devem ser, também, aquelas mais “corretas” de um ponto de vista ortodoxo. Na realidade, isso é, raramente (ou mesmo nunca) a verdade.

As heresias tendem a encontrar-se, sempre, em polos opostos. Não é incomum que uma heresia surja como uma reação a outra.  Tanto é que, enquanto uns reivindicaram a defesa da heresia de que Cristo não é Deus, outros, para contestá-los, defendeu a heresia de que Ele não é homem. Uma heresia condena a veneração da Virgem Maria como Mãe de Deus, outra faz-lhe livre da queda por uma imaculada conceição. Uns alegam que o homem é salvo apenas pela graça, outros que é salvo apenas pelas obras.  Tais  extremos não são  abraçados pela Ortodoxia.

A verdadeira Ortodoxia tende a ser o meio-termo entre os dois extremos. Isso vale, também, para a doutrina do “pecado original”. “Mas, espera!”, vem, então, um protesto: “A Igreja Ortodoxa não acredita no pecado original!” Eu hesitaria em dizer isso, ao menos sem uma explicação mais séria.  Prefiro dizer que a Igreja Ortodoxa acredita no “pecado ancestral” (πρωπατορικό ἁμάρτημα)

A ENCÍCLICA PATRIARCAL DE 1848

Em 6 de janeiro de 1848, o Papa Pio IX enviou uma encíclica “aos cristãos do Oriente”, os Uniatas, a fim de os encorajar e felicitar “por terem regressado à comunhão católica da Igreja única de Jesus Cristo (…), enquanto tantos outros dos seus compatriotas erraram até o presente, fora do redil de Jesus Cristo”, e a todos os outros, ortodoxos, coptas, arménios e nestorianos, a fim de os “exortar” e suplicar para “voltarem, sem muito divergir, à comunhão desta Santa Sé de Pedro, que é o fundamento da verdadeira Igreja de Jesus Cristo”. Ao longo da encíclica, todas as divergências propriamente teológicas entre Roma e os ortodoxos foram negadas, para além do único problema do primado. Este, pelo contrário, foi mencionado nos termos anunciados pelas definições doutrinárias de 1870. Eis algumas passagens características:

“Nosso Senhor Jesus Cristo, o autor da salvação dos homens, colocou em Pedro, o chefe dos Apóstolos, ao qual deu as chaves do Reino dos Céus (Mt 16:18-19), o fundamento da Sua única Igreja, sobre a qual as portas do inferno não prevalecerão. Além disso, orou para que a Sua fé não desfalecesse, acrescentando o mandamento de que ele fortalecesse os seus irmãos na fé (Lc 22:31-32). Por fim, encarregou-o de apascentar as suas ovelhas (Jo 2:15 ss) e, por consequência, confiou-lhe toda a Igreja, que consiste nas verdadeiras ovelhas e cordeiros de Jesus Cristo. Todas essas prerrogativas são devidas aos Soberanos Pontífices de Roma, sucessores de Pedro; porque, depois de Pedro, a Igreja não pode ser privada do fundamento sobre a qual, erguida por Jesus Cristo, deve permanecer até o fim dos séculos. Por isso, Santo Irineu, discípulo de Policarpo (que tinha escutado o apóstolo João), depois, Bispo de Lyon (…) ao querer referir, contra os hereges do seu século, a doutrina dos Apóstolos, julgou inútil enumerar a sucessão de todas as Igrejas que tiveram a sua origem nos Apóstolos, assegurando que basta citar, contra eles, a doutrina da Igreja romana: “É necessário que toda a Igreja, ou seja, que todos os fiéis, de todo o Universo, estejam de acordo com a Igreja de Roma, devido à sua preeminência, onde, para tudo o que crêem os fiéis, foi conservada a tradição transmitida pelos Apóstolos (Contr. Haer. I, III, 3) (…) os Bispos de Roma obtiveram o primeiro lugar nos Concílios e, sobretudo, antes e depois dos Concílios (…)

Essa encíclica papal teve a sua resposta através de uma encíclica patriarcal dirigida, nesse mesmo ano de 1848, a todos os ortodoxos, pelos Patriarcas de Constantinopla, Alexandria, Antioquia e Jerusalém. Eis os principais excertos desse importante documento doutrinário:

ENCÍCLICA DA SANTA IGREJA, UNA, CATÓLICA E APOSTÓLICA
AOS CRISTÃOS ORTODOXOS DE TODOS OS PAÍSES

A todos os nossos queridos e amados irmãos no Espírito Santo, os veneráveis Bispos, ao seu piedoso Clero e a todos os ortodoxos, filhos verdadeiros da Santa Igreja, Una, Católica e Apostólica, saudações fraternas no Espírito Santo e a bênção divina!

Padre Philotheos Zervakos – Ecumenismo, Ortodoxia e Heresia

“Levanta-te Crisóstomo, Gregório, Germano, Tarásio, Nicéforo, Fócio e o resto – os antigos e os recentes Santos Patriarcas de Constantinopla, que vos sacrificastes pelos vossos rebanhos, para ver quem está no vosso trono. Vocês, tal como os bons pastores sacrificaram as vossas almas pelas vossas ovelhas, enquanto os atuais sacrificam as ovelhas deles para eles próprios e eles abrem a porta convidam o lobo a entrar e destruir o rebanho.

Quando é que um Patriarca caiu em tal deslize, que ele voluntariamente esforça-se para entregar o seu rebanho aos lobos para serem dilacerados? A causa é o orgulho, a raiz de todos os pecados, de todo o mal, de todas as heresias, calamidades e tristezas e ainda mais do que calamidades e tristezas – a privação da graça de Deus.

Os pastores lobo, falsos professores, falsos profetas e falsos cristos, foram expulsos do rebanho de Cristo e não se arrependendo, foram colocados sob perpétuos anátemas pelos Santos Pais, que são os verdadeiros imitadores do Pastor Chefe Cristo e dos seus seguidores – os bons, verdadeiros e divinos pastores, os preservadores dos decentes e santos sete Concílios Ecuménicos.