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Frederica Mathewes-Green: Porquê os homens gostam da Igreja Ortodoxa

Num tempo como o nosso, onde encontramos todo o tipo de “igrejas” a desvalorizar os homens, estes voltam-se para o Cristianismo Ortodoxo, se não em elevadas, porém em intrigantes proporções. Dentre os três ramos do Cristianismo, este é o único que atrai, para a conversão, homens e mulheres, em igual número. Leon Podle, autor da obra The Church Impotent, escreveu: “Os ortodoxos são os únicos cristãos que usam basso profondo como música sacra ou precisam fazê-lo”.

Ao invés de tentar adivinhar a razão disso, enviei diversos e-mails para centenas de homens ortodoxos, os quais, na sua maioria, converteram-se já na idade adulta. Perguntei-lhes o que, na prática, torna a Igreja Ortodoxa tão atrativa. As respostas, a seguir apresentadas, podem contradizer as ideias de muitos líderes religiosos, os quais se utilizam das mais diversas formas para manter os rapazes dentro das suas “igrejas”.

DESAFIO

Este foi o termo mais comum que encontrei nas respostas. O Cristianismo Ortodoxo é ativo e não passivo. É a única forma de Cristianismo na qual a pessoa é desafiada a adaptar-se a ele e não adaptá-lo a si próprio. Quanto mais a pessoa se encontra comprometida, mais ela se sente satisfeita.

POSTURA AUSTERA E ASCÉTICA DA LITURGIA ORTODOXA

Esta foi, também, uma das respostas. Os períodos regulares de jejuns, o facto de permanecer de pé por muitas horas em oração, de realizar as prostrações, tudo isso já em jejum… Ao terminar, a pessoa sente que venceu um desafio. A Ortodoxia apela para os desejos de autodomínio do homem, o que é alcançado pela disciplina.

Na Ortodoxia, a ideia de “batalha espiritual” é praticamente omnipresente. Os santos (aí incluídas as santas) são guerreiros e para as batalhas e as guerras é necessário coragem, força e heroísmo. Somos chamados a combater o pecado, somos convocados como “atletas”, como diria São Paulo. E a recompensa é dada ao vencedor. O simples facto de se permanecer horas em pé durante as liturgias é, por si só, um exemplo do desafio que os homens e as mulheres são convidados a fazer.

Um recém-convertido disse-me: “A Ortodoxia é séria e profunda. É difícil, exigente. Ensina-nos acerca da misericórdia, mas também nos transmite a ideia de superarmo-nos a nós próprios. Sou desafiado duma forma extremamente profunda, não para sentir-me bem comigo mesmo, mas para ser santo. É rigorosa, mas é nesse rigor que encontro a liberdade. E, quer saber, assim também o é para a minha esposa.”

DISCIPLINAS SIMPLES

Foi mencionado, por diversas vezes, que os homens apreciam a clareza sobre o conteúdo dos desafios. Muitos homens sentem-se mais confortáveis quando sabem o que se espera deles. A Ortodoxia apresenta um razoável conjunto de limites. É fácil para os rapazes expressarem-se na Liturgia quando existem orientações de como isso deve ser feito. Principalmente, quando tudo é tão simples, ao ponto de, simplesmente, poder-se chegar e fazer o que deve ser feito.

As orações e as liturgias que a Igreja nos oferece (as orações matinais, as vespertinas, as orações para antes e depois das refeições, e por aí fora) dão aos homens uma forma de se envolver espiritualmente, sem que se sintam um peixe fora d’água, que fiquem preocupados por estar a fazer algo errado ou por não saber o que deve ser feito.

Os homens apreciam aprender com clareza, sem rodeios, para formar o caráter e o entendimento sobre algo. Na Ortodoxia, as pessoas começam por aprender, de imediato, os sinais, rituais e símbolos, como, por exemplo, fazer o sinal-da-cruz. Essa praticidade dos rituais aproxima os homens do Senhor, da Trindade (o sinal da cruz ensina-nos isso), aproximando-os da vida na Igreja e de todos ao seu redor.

OBJETIVO

Os homens com os quais entrámos em contato disseram-nos, também, que gostavam da ideia dum objetivo neste desafio: a união com Deus.

Um deles disse: “Frequentava uma «igreja», mas sentia que não estava a ir a lugar algum na minha vida espiritual. Algo faltava, apesar de não saber o que era. Então, perguntava a mim mesmo se não havia alguma coisa que eu deveria estar a fazer”.

O Cristianismo Ortodoxo preserva e transmite a antiga sabedoria cristã de como realizar essa união com Deus, chamada de theosis. Todo o sacramento ou exercício espiritual faz com que, a cada vez mais e de forma contínua, a pessoa (através da sua alma e do seu corpo) aproxime-se de Deus e, também, dos outros seres humanos. Assim como o imã atrai lentamente o metal, nós, também, somos atraídos pelas energias de Deus através da theosis. A nossa alma, sem o Batismo e a conversão, é como a madeira, a qual o ímã não atrai, mas Cristo pode mudar o nosso ser, transformando-o em “metal”. Assim, o ímã poderá atrair-nos, se assim o permitirmos e nos esforçarmos.

Um catecúmeno disse-nos ter encontrado nos ícones uma fonte de apoio para resistir aos pensamentos indesejados: “Se concentrares o teu olhar em algo, a tua visão acabará por se encher de imagens que te causam problemas. O olho é a luz do corpo. Mas se tu te cercares de ícones, terás a possibilidade de olhar para algo santo, ao invés de algo que possa tentar-te”.

Um padre escreveu: “Os homens gostam de desafios, de objetivos, são diretos, alguns apreciam até uma caçada, se quisermos utilizar, para isso, termos primitivos. O cristianismo ocidental perdeu o ascetismo, isto é, o aspeto atlético da vida cristã. Esse é o objetivo do monasticismo que, no Oriente, expandiu-se, inicialmente, através dos homens e até hoje se mantém. As mulheres também ingressaram na vida monástica e os nossos antigos hinos ainda falam sobre as mártires a mostrar uma “extrema coragem e garra”.

A Ortodoxia destaca a ação… Os homens são ativos!

SEM SENTIMENTALISMOS

No livro The Church Impotent, por nós já citado e também recomendado pelos amigos que nos escreveram, Leon Podles oferece-nos uma teoria sobre como a piedade cristã no Ocidente tornou-se pura e extremamente feminina. Nos séculos XII e XIII, uma devoção particular, até erótica, convidava pessoalmente os fiéis a considerarem-se como “a Esposa de Cristo, membro da Igreja”.

Isso foi amplamente adotado pelas mulheres devotas e, de facto, houve menos sucesso entre os homens. Durante muitos séculos, no Ocidente, os homens que escolhiam a vida religiosa eram tratados com o estereótipo de afeminados. A Ortodoxia, pelo contrário, preservou a devoção de coragem e luta. Um senhor idoso, cristão ortodoxo, contou-nos que, visto de fora, o cristianismo ocidental é uma “história de mulher para mulher”.

Na Liturgia Ortodoxa, “os homens não rezam como da forma ocidental, com as mãos unidas, as bocas fechadas e uma expressão facial, por vezes forçada, de serenidade”. Um dos nossos amigos disse-nos: “São rapazes num acampamento de escuteiros, dão-se as mãos e cantam canções, com força, diante da fogueira.”

“Os homens também querem ser desafiados a lutar por uma causa gloriosa e honorável, como numa batalha. Mas o Cristianismo ocidental diz-nos para agirmos como cavalheiros e manter as mãos e as bocas sempre limpinhas”, troça um dos nossos escritores.

Outro homem disse-nos que, no culto pentecostal do qual participava, havia uma grande experiência emotiva. O sentimentalismo, as lágrimas, as canções e, até mesmo, a leitura da Escritura, eram propostos para causar alguma emoção. Ele disse-nos: “Nós, homens, queremos agir e não nos emocionar simplesmente. As emoções são uma consequência da vida espiritual, jamais devem ser a sua causa. Sou um homem de negócios, sei que tudo no meu trabalho é alcançado através do esforço, energia e investimento. Porque seria diferente na vida espiritual?”

Outro dos nossos amigos era católico romano e disse-nos: “Eles eram convencionais, acessíveis e modernos, enquanto eu e a minha esposa buscávamos algo tradicional, profundo e contra-cultural, algo antigo e original. A homilia dum presbítero ortodoxo provocou-nos sobre o real sentido do jejum, o de ensinar a amarmo-nos a nós próprios. Isso despertou-me para o facto do quão doente e anestesiado eu estava por conta desse “cristianismo à moda americana”.

Um convertido, hoje presbítero, disse que os homens estão “destinados” a perigosos elementos do Cristianismo Ortodoxo, os quais envolvem o “auto-sacrifício dum guerreiro, o terrível risco de ter compaixão dos inimigos, as obscuras fronteiras às quais a humildade pode-nos chamar. Se perdermos essas características essenciais da batalha espiritual cristã, as igrejas ocidentais tornar-se-ão um “buffet self-service”.

Os homens são muito críticos quando alguém tenta manipular as suas emoções, especialmente no âmbito religioso. Os homens apreciam a objetividade do Cristianismo Ortodoxo, o qual não propõe ao homem viver sentimentalismos religiosos mas, sim, realizar um objetivo simples. Sim, meus caros, existe um “romance masculino” na Ortodoxia. Sabe o que isso significa? Ao contrário do romance “feminino”, este romance é uma paixão por bravura e valentia. Um diácono disse-nos: “Algumas igrejas evangélicas ensinam os homens a serem passivos e legais. A Ortodoxia convoca os homens a serem corajosos e ativos”.

JESUS CRISTO

Mas o que identifica os homens ortodoxos não são, simplesmente, os desafios ou os mistérios, meus caros. O que identifica um homem ortodoxo é o nosso Senhor, Jesus Cristo. Ele é o centro de tudo o que a Igreja diz e faz.

Em contraste com o Cristianismo ocidental, mais uma vez, a Ortodoxia oferece um “Cristo robusto” (Para as mulheres, uma robusta Virgem Maria ou, nas palavras dum hino, uma capitã, uma rainha da guerra). Não existe conquista sem batalha. Um presbítero escreve-nos: “Cristo, na Ortodoxia, é um militar, que faz o inferno estremecer. Jesus, segundo a Ortodoxia, vem para lançar o fogo na terra. Durante o Batismo, rezamos para que o recém-batizado, seja homem ou mulher, guarde a fé e seja um guerreiro invencível”.

CONTINUIDADE

Muitos dos convertidos, que já tinham uma vida intelectual, leem a história da Igreja e os escritos dos primeiros cristãos e veem como os mesmos são esclarecedores. Sabem que existe uma Igreja que Cristo instituiu, um corpo visível e presente, que forma a Igreja invisível, e buscam, na Igreja Ortodoxa, essa “igreja original ou primitiva”.

Um homem, ortodoxo já há muitos anos, disse que os homens gostam de estabilidade. Eles podem confiar no Cristianismo Ortodoxo porque este mantém viva a tradição da fé que os Apóstolos receberam. A Igreja Ortodoxa oferece o que ninguém mais pode oferecer: a continuidade dos primeiros seguidores de Cristo. Isso é continuidade, não arqueologia. A igreja primitiva ainda existe e é possível unir-se a ela.

“O que me convenceu, na Ortodoxia, foi a promessa de Cristo de que os portões do inferno não prevalecerão contra a Sua Igreja e que o Espírito Santo a guiará sempre na verdade e na doutrina correta. Isso é possível ver claramente na Ortodoxia: a unidade na fé, a adoração, a piedade e a doutrina com continuidade histórica, ou seja, desde os primeiros fiéis até hoje”.

TRADIÇÃO

Um catecúmeno contou-nos que tentou aprender tudo o que era necessário para interpretar as Escrituras corretamente, inclusive aprender línguas antigas, como o grego. “Tentei aprofundar-me para ter a certeza de onde pisava, mas, quanto mais ia por conta própria, mais me perdia. Se as Escrituras querem dizer-nos algo, é necessário que sejam ditas em comunidade, com uma tradição para guiar a leitura. Na Ortodoxia, encontrei o que procurava”.

HOMENS EQUILIBRADOS

Um padre disse-nos: “Existem dois tipos de homem: o forte, rude, cruel, macho e provavelmente abusivo e o sensível, querido, por vezes, reprimido e fraco. Mas, na Ortodoxia, o masculino é equilibrado com o feminino, há igualdade. Não existe o masculino e o feminino, mas Cristo, que une as coisas no céu e na terra. Por isso, os homens ortodoxos não são extremos, mas equilibrados”.

Outro padre comentou que, geralmente, a esposa é aquela que, originalmente, insiste em converter a família ao Cristianismo Ortodoxo. Mas, quando o casal torna-se ortodoxo e recebe os sacramentos, com o tempo, ambos tornam-se equilibrados e independentes, sem dominação espiritual por parte de nenhum deles.

HOMENS NO COMANDO

Goste-se ou não, os homens simplesmente preferem ser comandados por outros homens. Na Ortodoxia, os leigos, sejam homens ou mulheres, fazem tudo igualmente, inclusive palestrar, ensinar e fazer parte do conselho paroquial. Mas, atrás da iconostase, no altar, há somente homens. Um deles esclareceu isso ao dizer o que são os homens na Ortodoxia: “Barbas”!

A Igreja Ortodoxa é o último lugar no mundo onde os homens são tratados como maus, simplesmente por serem homens. Ao invés da negatividade, eles são cercados de bons exemplos e heróis, os santos, que, nos ícones e nos cânticos, mostram-nos a sua bravura de ter vivido em Cristo.

Este é outro elemento essencial que os homens apreciam: saber que existem outros homens para olhar, como exemplo, ao invés de apenas ouvir termos e palavras. Foi assim que outro fiel disse-nos: “A melhor forma de atrair um homem para o Cristianismo Ortodoxo é mostrar-lhe outros homens ortodoxos”.

CONCLUSÃO

De tudo o que foi dito, porém, não importa o quão boa seja toda a bravura, eis que ela jamais tomará o lugar daquilo que é o essencial. Uma vida perigosa não é o objetivo e, sim, Cristo. Um espírito livre não é o objetivo e, sim, Cristo.

Cristo é o arquétipo do qual os homens e as mulheres se aproximam, para que, ao Seu nome, “dobre-se todo o joelho dos que estão nos céus, e na terra, e debaixo da terra, e toda a língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor, para a glória de Deus Pai” (Flp 2:10-11).

Fonte / Redação final: Gabriela Mota

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