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Metropolita António Bloom- Entrevista na CBC- Sobre Sofrimento (1973)

Jornalista: Um dos conceitos que causa mais perplexidade da Fé Cristã para não- cristãos é a visão Cristã do Sofrimento. A ideia de que o sofrimento é redentor e o caminho para a Salvação. Até para muitos Cristãos a crença de que o sofrimento pode ser bom para ti é difícil de aceitar. Para nos ajudar a atingir uma melhor compreensão sobre o papel do sofrimento na vida espiritual dos Cristãos, eu visitei o Metropolita Anthony, da Igreja Ortodoxa Russa na Inglaterra.

Metropolita: Sempre que vamos desta preocupação sobre o homem, para a preocupação sobre coisas, nós tornamos as coisas, que podem ser ideais, ideologias, perspetivas de riqueza, num ídolo, e não existe nenhum ídolo que não reivindique sangue, e o sangue é sempre sangue humano, serão sempre homens, e mulheres, e crianças, que terão de pagar o custo.

Jornalista: Metropolita Anthony, que foi um convertido ao Cristianismo, começou a sua vida profissional como médico em França, ele serviu no exército Francês durante a Segunda Guerra Mundial, e enquanto homem não é um homem estranho ao sofrimento.

Jornalista: Nos seus serviços, existe a noção de que o sofrimento é redentor, único para a Fé Cristã.

Metropolita: Por si só, o sofrimento não é redentor, o sofrimento é redentor apenas se estiver ligado ao amor, e quando os sofrimento vem de dar a nossa própria vida, ou dar algo de si mesmo. Por si só, o sofrimento acontece no Inferno, sem trazer nada daí. Com isto dito, é verdade que o Sofrimento quando suportado em nome do amor, pelo amor, no final contas, por Deus e do Homem, de uma forma pessoal é redentor, e eu penso que é apenas no Cristianismo que tem toda esta plenitude porque eu acredito que em tudo no Cristianismo existe história no mundo físico, e verdadeiro significado.

Jornalista: Você acha que a Igreja sempre tornou isto claro?

Metropolita: Eu simplesmente acho que o tornou extremamente claro quando disse que se não sofrermos da forma certa, sofremos em vão. E também na Epístola aos Coríntios, quando ele fala de amor, e diz que mesmo que eu desse o meu corpo para ser queimado, se não tiver amor, seria em vão e vazio. Eu acho que é o amor que dá significado ao sofrimento, de outra forma é meramente um evento físico.

Jornalista: É só que parece-me que muitas pessoas perderam essa parte, e que sentem que podem atingir a salvação através do sofrimento.

Metropolita: Eu acho que você está certo. Eu acho que muitas pessoas não ligam a este ponto e a muitos outros pontos, de facto, no Evangelho, e em geral na vida, porque é muito mais fácil elaborar a perspetiva do mundo em que o sofrimento tem significado, do que dizer que suportar o sofrimento não é nada se eu não Amar, e o amor é infinitamente mais difícil de suportar. Suportar é um estado passivo. No sofrimento, quando é infligido, é necessária coragem, determinação para suportá-lo. Já amar não significa suportar, significa voluntariar-se, significa tomar sobre si mesmo, significa dar o que não é reivindicado, e isso é muito mais difícil.

Jornalista: Eu suponho que, no entanto, há pessoas que parecem apreciar o sofrimento, talvez elas sofram de complexos de inferioridade, ou de culpa, ou de …

Metropolita: Claro! Mas mais uma vez, isso não é Religião, muito menos Cristianismo. Está á beira de doença mental, sadismo, masoquismo, amamentar o sentido de culpa e remorso, claro que existe entre Cristãos, tal como entre outros, mas isto é patologia.

Jornalista: Sim.

Metropolita: Mas no coração do Evangelho, encontramos amor, e em pé de igualdade com o amor está tal negação de nós próprios, que permitirá livremente dar a própria vida, livremente suportar sofrimento, livremente substituir eventualmente a própria morte pela morte de outro. Teologicamente falamos mais de Cristo nesta conexão, mas na história do último século, temos tantos exemplos de pessoas que escolheram dar as próprias vidas, escolheram morrer, para salvar outra pessoa, e quando você escolhe morrer, você pode muito bem não morrer, e ficar um aleijado, ser inválido, sofrer muito, que de certa forma, é um risco muito mais doloroso do que aniquilação repentina.

Jornalista: Eu conduzi uma entrevista o ano passado com um autor Judeu, e ele contradisse a noção Cristã de sofrimento. Ele disse, por exemplo, que na Fé Judia a vida de sofrimento é completamente estranha áquilo que eles acreditam. A vida deve ser uma celebração, uma alegria. E, para ele, o sofrimento não tinha nenhum poder redentor.

Metropolita: Bem, eu penso que é difícil apoiar esta visão completamente, em face da imagem do, por exemplo, servo sofredor no livro de Isaías, e de mais algumas passagens do Antigo Testamento. Eu penso que ele está certo quando ele diz que a vida deve ser uma celebração, mas, no entanto, a vida não deve ser estragada pela condição de Homem em que vivemos. Idealmente, sim, deve ser uma celebração, mas em face de um mundo de desarmonia, de ódio, de antagonismo mútuo, de contraste de posições, então o sofrimento é inevitável enquanto facto, e pode ser transformado numa experiência redentora.

Jornalista: Arcebispo, eu gostaria de saber um pouco sobre a sua vida antiga, como era a sua antiga vida familiar, alguma indicação que se tornaria um Padre?

Metropolita: Não, nenhuma, eu passei a minha infância na Rússia e Pérsia, porque era aí que o meu pai servia, e depois, com emigração viemos para o Ocidente. Eu não era um crente na altura, no sentido em que, crescendo para as circunstâncias, eu não havia tido nenhum outro contacto com o Evangelho ou Cristo de forma pessoal, e talvez menos ainda com a Igreja, e para todos os efeitos, eu era um descrente no que toca a acreditar, e muito anti- Igreja no que toca a ir á Igreja.

Jornalista: Quando é que você se tornou Cristão?

Metropolita: Quando eu tinha cerca de 15 anos, eu era na altura um membro de uma organização juvenil, e era extremamente religiosa, porque fazia parte de ser Russo, e um dia eu fui submetido a um discurso de um Padre sobre o Evangelho, a Igreja, e Cristo, e revoltou-me de tal forma, que eu decidi descobrir se havia alguma verdade sobre o que ele havia dito. Eu fui para casa e decidi verificar. Então eu pedi á minha Mãe o livro do Evangelho dela, mas não é verdadeiramente o ler o Evangelho que me convenceu. É algo que provavelmente os Evangélicos chamariam de experiência de conversão. Eu estava a ler o início do Evangelho segundo São Marcos, e senti completamente a presença de Cristo estando do outro lado da mesa, e era tão claro e tão certo, que eu olhei da forma como alguém olha na rua quando se têm uma impressão que alguém que está a olhar para nós. Eu não vi nada, não distingui nada com os meus sentidos, mas a certeza era tão grande que eu sabia que havia conhecido Cristo vivo, e se eu havia conhecido Cristo vivo, então todo o Evangelho era verdade.

Jornalista: Você não encontrou nenhum conflito entre o seu estudo de ciência médica e de Teologia?

Metropolita: Não, sabe, eu nunca tentei tornar a Bíblia num livro de História Nacional, e nunca tentei verificar conhecimento científico por pressupostos Religiosos que seriam formais, e, verdadeiramente, externos para o propósito. Eu sempre senti que mesmo que nós não possamos sempre ver a forma como as coisas se relacionam, o conhecimento do mundo em que vivemos é Teologia, o conhecimento de Deus e da sua obra, mas, á priori, eles não podem entrar em conflito. E se alguém tem integridade intelectual e moral, devemos seguir cada linha como ela é. Se tivesse havido conflito, eu o teria enfrentado, mas eu nunca o encontrei. A minha vida espiritual ia por uma linha, a minha vida intelectual apenas enriquecia aquilo que eu sabia de Deus e do seu mundo, e, talvez fosse muito simples, mas ambas nunca entraram em conflito uma com a outra.

Jornalista: Você acha que Deus quer que nós soframos?

Metropolita: Eu vou dizer, eu peço desculpa ser tão teimoso, eu direi que ele quer que nós amemos, não que soframos, mas o sofrimento está sempre inerente ao amor, num mundo que é desarmonioso, feio, violento, agressivo, e assim por diante. Ele não quer que nós soframos, ele quer que nós amemos, no entanto, o amor significa morte! Derramamento de sangue, sangue de coração, ou sangue físico.

Jornalista: Então a morte está no centro do sofrimento.

Metropolita: Bem, a morte é a medida completa dele, a morte é, verdadeiramente, com a sua agudeza, e a sua finalidade, o teste da tua preparação para amar. Eu penso que o grande erro que um Cristão pode fazer, e eu digo Cristão, porque existe um fundo de fé agarrado á minha declaração, é permitir a ele próprio pensar, e, consequentemente, sentir, que com a morte da pessoa as coisas chegaram ao fim. Se nós verdadeiramente acreditamos no que é a nossa Fé Cristã, de que Deus é o Deus dos vivos, que por ele, e nele toda a gente está viva, que existe um futuro que é a eternidade, então a morte da pessoa é um momento trágico, doloroso, de separação. Eu não diria mais trágico ou doloroso do que a separação que acontece devido a uma cortina de ferro, ou de uma fronteira fechada, ou dos portões da prisão, de qualquer maneira de separação, mas com a diferença de que se a pessoa está verdadeiramente viva em Deus, e também tu, existe um presente e um futuro, e não apenas um passado. E ao invés de repetir o passado para tornar o presente mais obscuro, deve-se enfrentar o presente, que é uma separação transitória, na expetativa de um encontro futuro, e não simplesmente como pensamento desejoso, mas como preparação ativa para tal. Porque, em termos de amor, que eu tenho estado a usar talvez demasiado, em termos de amor, se você amou verdadeiramente uma pessoa, se esta vida teve sentido para ti, o resto da tua vida pode ser marcado pela vida da pessoa que está na guarda de Deus, poderás ser na terra uma continuação de tudo o que foi bom e louvável, poderás ser o desfazer de todo o erro que houve na vida desta pessoa, para que esta pessoa, de certa forma, possa continuar a ter um destino na terra, porque um dia virá em que o que havia sido feito por esta pessoa terá um cumprimento, tal como tudo o que foi feito de impróprio. E isso é uma participação ativa no destino eterno, e por outro, lado, sabe, onde está o nosso tesouro está o nosso coração. E se verdadeira e sinceramente acreditamos que esta pessoa está viva, que iremos conhecer a morte de uma pessoa amada, torna-nos já cidadãos do século vindouro, mais uma vez, não apenas pensamento desejoso, mas verdadeiramente.

Jornalista: O dito comum, é de que certa forma, o desespero está no centro das coisas, se nós estivermos preparados para passar por ele.

Metropolita: Sim!

Jornalista: O que é que você quer dizer com isso?

Metropolita: Eu quero dizer que, verdadeiramente, muitas vezes as pessoas tentam manter este lado de desespero enganando-se a eles mesmos, dizendo coisas como “isto não acontecerá a mim”, ou quando falamos com amigos, “não te preocupes, Deus nunca permitirá que isso aconteça”, o que é perfeitamente falso porque acontece a ti e acontecerá ao teu amigo, talvez inevitavelmente com uma certa quantia de probabilidade. Bem, nós devemos estar preparados para ir até ao fundo do nosso desespero para ter a consciência de que “eu não posso fazer nada sobre a situação, nenhum dos meus amigos me pode ajudar de nenhuma forma, e quando você descobriu isto, a única que permanece para um crente é dizer “no entanto há Deus, e ele é o único que pode ajudar”. Mas neste momento, desespero, de qualquer forma, deve permanecer intocado, porque nós não esperamos que Deus ponha as coisas de forma certa, que é desfazer a tragédia, ou mudar as coisas, não fazer algo aos eventos, mas a nós próprios, para que as coisas possam ser o que elas são, mas nós já não somos mais os mesmos e podemos enfrentá-las de uma forma relativamente diferente.

Jornalista: E sobre esta ideia de que o sofrimento torna uma pessoa melhor, é bom para construir carácter, talvez.

Metropolita: Eu acho é verdade se nós enfrentarmos o sofrimento, se nós fugirmos dele, se nós permitirmos a nós mesmos ser esmagados por ele, não. E mais uma vez, neste processo, a educação poderia desempenhar um papel. Nós nunca devemos impedir uma pessoa de suportar aquilo que ela pode suportar, tirando dele uma hipótese de olhar de frente com coragem, como um homem, coisas que são difíceis, que fazemos a toda a hora. Mas mais uma vez, nos mesmos termos com que eu falei do amor, não é sofrimento por si mesmo, é a forma como nós o enfrentamos. Dor enquanto dor não pode construir carácter, uma ousadia, uma forma corajosa de enfrentar a dor, constrói. Por exemplo, na medicina atual eu discuti isso ultimamente num grupo médico, a forma de como as pessoas se viram para um médico para aliviar a menor dor, porque eles assumem que nunca devem sentir dor, leva a que eles cada vez menos consigam suportar a dor, e quando não existe dor, o que eles não conseguem suportar é o medo dela, para que, no final de contas, as pessoas vivam em dor, apesar de ainda não haver dor.

Jornalista: E no entanto a Religião parece pôr tanto ênfase no sofrimento, sofrer por sofrer, o que eu não percebo.

Metropolita: Sim, mas eu acho que isso vem do facto de que nós falamos de todas estas coisas com um sentimento rancoroso, de que se pudéssemos, evitá-las-íamos. Quando se ama alguém, não nos importamos de caminhar duas milhas em vez de uma. Digamos, uma Mãe tem uma criança doente, ela se senta durante a noite, e ela não se sente virtuosa, ela nada pode fazer. Se for uma enfermeira a fazer o mesmo, a enfermeira fá-lo por vezes com um esforço e sem qualquer tipo de prazer. A mesma coisa é verdade sobre carregar os fardos uns dos outros, e talvez o maior fardo seja a personalidade peculiar que se tem de carregar, a nossa própria, ou de outra pessoa. Se se ama a pessoa não é nenhum esforço, pode ser completamente sacrificial, pode ser como derramar o teu sangue, isso não se faz com ressentimento, e não se está a falar de sofrimento, mas de amor. E eu penso que quando Cristãos ou não- Cristãos começam a falar tão insistentemente sobre sofrimento, eles estão indiretamente a dizer que não têm amor suficiente para fazê-lo com alegria, não é celebração, é dor. Bem, a própria possibilidade que se pode ter para dar a própria vida, a própria energia, a nossa preocupação com outro, é ela própria uma celebração. Mesmo quando envolve dor física ou angústia moral.

Jornalista: O maior exemplo de sofrimento para os Cristãos é Jesus na Cruz, o que é que há sobre Jesus que tem mantido o nosso interesse por tanto tempo, mais do que outros Messias?

Metropolita: Bem, eu acho duas coisas, o facto de que ele era verdadeiramente O Messias, o que por si só fala, sabe, a forma como há convencimento interior em coisas que são verdade. E a segunda coisa é que a sua vida e morte foram uma tal demonstração de amor de auto- esquecimento, e um ato de Fé em nós, sendo ambos essenciais. Por um lado vemos nele um incrível ato de amor, tal como ele diz, “Ninguém me tira a vida, eu mesmo a dou”, e isto é algo que muito poucos farão. Mas por outro lado, o que nos atinge não é que tenha sido por ele mesmo, mas porque ele acredita absolutamente que a sua vida e morte não são em vão, e que existe o suficiente em nós para responder a tal. Esta Fé de Deus em nós demonstrada pela vida e morte de Jesus é algo que sempre me agarra com firmeza.

Jornalista: Qual a relevância do Calvário hoje em dia?

Metropolita: Bem, deixando de lado a relevância objetiva, o facto de que Deus tornou-se homem, o facto de que ele viveu e ensinou com ambas a autoridade de Deus e a perfeição do Homem, o facto de que a sua morte foi um ato supremo de amor e intercessão, que carrega peso nesse sentido. Mas além disto, no que toca a exemplos, é o maior desafio que eu posso imaginar, porque é um desafio de amor puro, é um desafio onde não há nenhum lugar, nenhuma pretensão, além da liberdade de resposta. Podes rejeitá-lo, podes deixá-lo morrer na Cruz, encolher os ombros e partir, mas por outro lado, és atingido no coração por aquilo que vês, e depois a tua resposta é completamente livre.

Jornalista: Resumindo, coronel, pode ser um teste para uma pessoa.

Metropolita: Pode, desde que você o enfrente criativamente, ousadamente, para que faça algo da vida dele na sua pessoa, se você o aprovar levemente, simplesmente fará de si um escravo, mais servil, e com mais medo, e esse não é o objetivo.

Original. Tradução em Português: Paulo Ferreira

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