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EXORTAÇÃO DE SÃO PACÓMIO ACERCA DO RANCOR DUM MONGE

O venerável Pacómio, nascido em 292 d.C., de uma família pagã, converteu-se ao Cristianismo quando contava com 20 anos de idade, tendo recebido uma educação ascética. Em 320, fundou o seu primeiro mosteiro em Tabenesi, na Tebaida (Alto Egito), dando início ao vida monastica cenobita (comunitária), que perdura até os nossos dias. Morreu em 346, deixando como obras a Regra Monástica (com 194 artigos), diversas exortações aos seus monges e 11 cartas a abades e irmãos religiosos.

Nesta página, apresentaremos uma das suas exortações aos monges, que trata do perigo do rancor. Como é sabido, os primeiros monges isolavam-se no deserto. Com Pacómio, surgiram as primeiras comunidades de monges, as quais se caracterizavam pela partilha total dos bens, pela oração comum, pela observância à mesma Regra, pelo trabalho manual e pela obediência absoluta ao abade.

Agradeço ao nosso tradutor voluntário, José Carlos Romano, pela generosidade em traduzir este texto. Sem a sua valiosa colaboração, este maravilhoso texto não estaria disponível a todos nós. Que Deus o guarde e o proteja!

Exortação pronunciada pelo nosso, mui venerável, Santo Padre Pacómio, o santo arquimandrita, por motivo dum irmão que guardava rancor contra o outro. Nos tempos do abade Ebonh, que havia levado aquele irmão a Tabennesi, [Pacómio] dirigiu-lhe estas palavras, na presença de outros padres anciãos, para a sua grande alegria, na paz de Deus!

Desçam sobre nós as suas santas bênçãos e as de todos os santos! Que todos possamos ser salvos! Ámem.

Filho meu, escuta e sê sábio (Pv 23:19); recebe a verdadeira doutrina. Existem, com efeito, dois caminhos.

Sê obediente a Deus como Abraão, que deixou a sua terra, marchou rumo ao exílio e viveu sob uma tenda com Isaac na terra prometida, como em terra estrangeira; obedeceu, humilhou-se a si mesmo, recebeu uma herança; inclusive foi posto à prova com respeito ao seu filho; foi valente na prova e ofereceu Isaac em sacrifício a Deus. Por isso, Deus chamou-o de: “Meu amigo” (Tg 2:23).

Recebe aquele exemplo de bondade de Isaac, quando escutou o seu pai e lhe esteve submetido até o sacrifício, como cordeiro inocente.

Recebe, assim mesmo, o exemplo da humildade de Jacob, a sua obediência, a sua perseverança, até converter-se na luz que vê o Pai do universo; foi chamado Israel.

Recebe aquele exemplo da sabedoria de José e a sua submissão. Luta na castidade e neste serviço até reinar.

Filho meu, imita a vida dos santos e pratica as suas virtudes. Desperta, não sejas negligente, incita aos teus concidadãos, dos quais constituíste-te o garante (Pv 6:3); levanta-te dentre os mortos e Cristo iluminar-te-á (Ef 5:14), e a graça infundir-se-á dentro de ti.

A paciência, com efeito, revela-te todas as graças. Os santos foram pacientes e conseguiram as promessas. O orgulho dos santos é a paciência. Sê paciente, a fim de que sejas contado nas filas dos santos, e confia que receberás uma coroa incorruptível.

Um mau pensamento? Suporta-o com paciência, até que Deus te dê a calma. O jejum? Persevera com firmeza. A oração? Sem descanso, na tua habitação entre nós. Um só coração com o teu irmão; a virgindade em todos os membros, a virgindade nos teus pensamentos, a pureza do corpo e do coração; a cabeça inclinada e o coração humilde, a bondade no momento da cólera.

Se um pensamento te oprimir, não te desalentes; suporta-o com valor e diz: “Todos rodearam-me, eu, porém, em nome do Senhor, fi-los recuar” (Sl 117:11). De improviso, chega-te o auxílio de Deus; alija-os de ti; Deus protege-te e a glória divina caminha contigo, porque a coragem caminha com o que é humilde e tu serás saciado como deseja a tua alma (Is 58:11). Os caminhos de Deus são a humildade do coração e a bondade. Pois está escrito: “A quem cuidarei, senão ao humilde e ao pacífico?” (Is 66:2). Se caminhares pelas sendas do Senhor, ele guardar-te-á, dar-te-á força, acumular-te-á de ciência e de sabedoria, pensará em ti todo o tempo, libertar-te-á do diabo e, na tua morte, dar-te-á a graça na Sua paz.

Filho meu, rogo-te: vigia, sê sóbrio, para conhecer aqueles que instalam armadilhas contra ti. O espírito da maldade e da incredulidade teimam em caminhar juntos; o espírito da mentira e da fraude caminham juntos; o espírito da avareza, da cobiça e o do perjúrio, aquele da desonestidade e o da inveja caminham juntos; o espírito da vaidade e o da voracidade caminham juntos; o espírito da fornicação e o da impureza caminham juntos; o espírito da inimizade e o da tristeza caminham juntos. Desgraçada é a pobre alma na qual habitam (estes vícios) e a dominam! A essa alma, apartem-na de Deus, porque ela está no seu poder, vai daqui para ali até que cai no abismo do inferno.

Filho meu, obedece-me: não sejas negligente, não concedas o sonho aos teus olhos, nem o repouso às tuas pálpebras, para que possas escapar das armadilhas como uma gazela (Pv 6:4-5). Filho meu: muitas vezes, desde a minha juventude, quando eu estava no deserto, todos os espíritos molestavam-me, afligiam-me a ponto de o meu coração deprimir-se, ao extremo de pensar que não poderia resistir às ameaças do dragão. Atormentavam-me de todas as formas. Ao prosseguir, precipitavam-se contra mim (os seus espíritos) e faziam-me a guerra; sem motivo, retirava-me, afligia-me com a sua insolência; muitas vezes, o meu coração perturbou-se, indo de um lado paro outro sem encontrar a quietude. Sim, em troca, fugia para perto de Deus a derramar lágrimas com humildade, com jejuns e noites de vigílias; então, o adversário e todos os seus espíritos caíam impotentes à minha frente; o ardor divino vinha a mim e, de repente, eu reconhecia o auxílio de Deus, porque na sua clemência, Ele dá a conhecer aos filhos dos homens a Sua força e a Sua bondade.

Filho meu: não condenes nenhum homem; se vês que algum é elogiado, não digas: “Este já recebeu a sua recompensa”. Resguarda-te deste pensamento, pois é muito malvado. Deus não ama a quem louva a si mesmo e odeia o seu irmão. Pois quem diz a si mesmo: “Eu sou”, quando nada é, engana-se a si mesmo (Gl 6:3). Quem poderá ajudá-lo, se é orgulhoso ao apresentar-se do mesmo modo que se põe na presença de Deus e diz: “Nada é como eu” (Ex 9:14)? Ouvirás, em seguida, a tua própria reprovação: descerás aos infernos, serás arrojado com os mortos; debaixo de ti estará a podridão e cobrir-te-ão os vermes (Is 14:11 e 15:19). Enquanto o homem, que adquiriu a humildade, julga-se somente a si próprio, dizendo: “Os meus pecados ultrapassam os dos demais”, tu não julgues nada, não condenes nada. Quem és tu para julgar a um servo que não é teu? Ao que está caído, com efeito, o seu Senhor tem o poder de fazê-lo levantar (Rm 14:4). Vigia sobre ti mesmo, filho meu, não condenes nenhum homem, gosta de todas as virtudes e guarda-as com muito cuidado.

Se és estrangeiro, põe-te de parte, não busques refúgio próximo de alguém e não te metas nos seus assuntos. Se és pobre, não desanimes por coisa alguma, para que não sejas reprovado: “A pobreza é má na boca do ímpio” (Sl 13:24-30). Nem deves ouvir o que te dizem: “Ao padecerem de fome, entristecerão e amaldiçoarão o chefe e os anciãos” (Is 8:21). Cuida para que não te façam a guerra, porque te falta qualquer coisa no que se refere às necessidades do corpo, por causa da comida. Não desanimes, sê paciente.

Certamente, Deus trabalha em segredo. Pensa em Habacuc, na Judeia, e em Daniel, na Caldeia. A distância que os separava era de quarenta e cinco estádios. Daniel estava entregue como alimento às feras, no fundo da fosso. Não obstante, o profeta proveu-o com comida. Pensa em Elias, no deserto, e na viúva de Sarepta, que estava oprimida pelo flagelo da escassez e o tormento da fome; contudo, em tal indigência, não foi pusilânime; lutou, venceu e obteve o que Deus lhe havia prometido; a sua casa desfrutou da abundância em tempos de escassez. Não é, certamente, uma prodigalidade dar-se o pão em tempo de abundância e não é pobreza estar-se desalentado na indigência. Com efeito, está escrito sobre os santos: “Estavam necessitados, atribulados e afligidos” (Hb 11:37), porém, davam glória nas suas atribulações. Se és perseverante na luta, segundo as Escrituras, não sofrerás nenhuma escravidão, porque está escrito: “Que nada os engane em questão da comida e da bebida ou a respeito das festas, novilúnios ou sábados. Estas coisas são as sombras daquelas futuras” (Cl 2:16-17).

Medita, a todo o momento, nas palavras de Deus; persevera na fadiga; dá graças em todas as coisas; foge dos aplausos dos homens; ama a quem te corrige no temor de Deus. Que todos te tragam proveito, a fim de que também tu tragas proveito a todos. Persevera na tua obra e nas palavras de bondade. Não dês um passo adiante e outro atrás, de modo que Deus deixe de te amar. A coroa, com efeito, pertencerá àquele que tiver perseverado. Obedece, cada vez mais, a Deus e Ele te salvará.

Quando te encontrares no meio dos teus irmãos, não provoques a brincadeira. Sadrac, Mesac e Abed-Negó repeliram as diversões de Nabucodonosor. Por isso, este não pôde convencê-los com as melodias dos seus instrumentos, nem enganá-los com as comidas da sua mesa. Assim, eles sufocaram aquela chama que havia se elevado a uma altura de quarenta e nove cotovelos; não foram dissolutos com quem era dissoluto mas, sim, foram retos com quem era reto, quer dizer, com Deus. Por isso, Deus constituiu-os senhores dos seus inimigos. Também Daniel, da sua parte, não obedeceu ao malvado pensamento dos caldeus. Por isso, converteu-se num grande eleito, foi considerado vigilante e sábio e fechou as bocas dos leões selvagens (Hb 11:33).

Agora, filho meu, se puseres Deus como a tua esperança, Ele será o teu auxílio na hora da angústia. Quem se acerca de Deus deve crer que Ele existe e que recompensa aqueles que O buscam (Hb 11:6). Estas palavras foram escritas para que creiamos em Deus; para que nós, jovens e anciãos, lutemos com jejuns, orações e outras obras religiosas. Nem sequer a saliva, que seca na tua boca durante o jejum, esquecerá de Deus e, certamente, encontrarás tudo isto na hora da angústia. Humilha-te em tudo, controla-te ao falar, inclusive se tiveres compreendido todas as coisas; não te habitues a insultar e, sim, suporta com alegria toda a prova. Se conhecesses a honra que resulta das provas, não rezarias para delas ser livrado, porque é bom para ti orar, chorar, suspirar, até ser salvo, antes de relaxar o teu coração e cair prisioneiro. Ó homem, o que fazes na Babilónia? Envelheceste em terra estrangeira (Br 3:10), porque não te submeteste à prova e não trabalhas com retidão diante de Deus. Por isso, irmão, não relaxes o teu coração.

Talvez, sejas um pouco negligente. Os teus inimigos, porém, não costumam dormir, nem são negligentes ao colocarem armadilhas noite e dia. Por isso, não busques as coisas grandes, para não seres humilhado e, assim, alegrar os teus inimigos. Busca a humildade, porque quem se gaba será humilhado e quem se humilha será exaltado (Mt 23:12 e Lc 18:14). E se não estiveres em condições de bastar-te a ti mesmo, une-te a outro que trabalhe segundo o Evangelho de Cristo e, assim, avançarás com ele. Escuta o bem, submete-te a quem escuta; sê forte, a fim de ser chamado Elias. O bem obedece a quem é forte, a fim de ser chamado Eliseu, que, por haver obedecido a Elias, recebeu a dupla parte do seu espírito.

Se quiseres viver no meio dos homens, imita a Abraão, Lot, Moisés e Samuel. Se desejas viver no deserto, eis aqui todos os profetas que te precederam. Imita aqueles que vagaram pelo deserto, pelos vales e nas cavernas da terra (2Hb, 38:37), pobres, atribulados e aflitos. Também está escrito: “A sombra de quem está sedento e o Espírito dos homens que suportaram a violência abençoar-te-ão” (Is 25:4). Ademais, o ladrão, que estava na cruz, proferiu uma palavra e o Senhor perdoou todos os seus pecados e o recebeu no paraíso. Então, que grande honra receberás se fores paciente na prova ou diante do espírito de fornicação, de orgulho, ou mesmo diante de qualquer outra paixão! Tu lutas contra as paixões diabólicas, não segue-as; faz isso e Jesus te dará o que foi prometido. Cuida-te da negligência, porque ela é a mãe de todos os vícios.

Filho meu, foge da concupiscência, porque ela escurece a mente e não te permite conhecer o mistério de Deus. Faz-te estranho à linguagem do espírito: esta impede-te de levar a cruz de Cristo e não deixa que o teu coração esteja sóbrio para louvar a Deus. Cuida-te dos apetites do ventre, que te fazem alheio aos bens do paraíso. Cuida-te da impureza: ela provoca a ira de Deus e a dos seus anjos.

Filho meu, volta-te a Deus e ama-o; foge do inimigo e odeia-o; assim as bênçãos de Deus descerão sobre ti e poderás herdar a bênção de Judá, filho de Jacob. Com efeito, está escrito: “Judá, os teus irmãos abençoar-te-ão, as tuas mãos estarão sobre a espada dos teus inimigos e os filhos do teu pai servir-te-ão” (Gn 49:8). Cuida-te do orgulho, porque ele é o princípio de todo o mal. O começo do orgulho é afastar-se de Deus e o que se lhe segue é o endurecimento do coração. Se te cuidares em relação a isto, o teu lugar de repouso será a Jerusalém celestial. Se o Senhor te ama e te dá glória, resguarda-te de exaltar o teu coração; antes, persevera na humildade e habitarás na glória que Deus te deu. Vigia sobre ti, porque “ditoso é aquele que é encontrado a velar; será constituído sobre os bens do seu Senhor” (Mt 24:46-47) e entrará repleto de alegria no Reino. Os amigos do esposo amaram-no porque o encontraram a cuidar da vinha.

Filho meu, sê misericordioso em todas as coisas, porque está escrito: “Esforça-te por apresentar-te diante de Deus como um homem aprovado, um trabalhador irrepreensível” (2Tm. 2:15). Volta-te a Deus como o que semeia e colhe e armazenarás no teu silo os bens de Deus. Não ores ostensivamente como aqueles hipócritas mas, sim, renuncia aos teus desejos e trabalha para Deus de forma a obrar pela tua própria salvação. Se uma paixão te ferir: o amor pelo dinheiro, a inveja, o ódio e outras paixões, vela sobre ti, tem um coração de leão, um coração valente, combate as paixões, destrói-as como a Sijón, Hog e todos os reis dos amorreus. O Filho amado, o Unigénito, o rei Jesus combate por ti a fim de que possas herdar as cidades inimigas. Afasta todo o orgulho para longe de ti e sê valente. Olha: quando Jesus, o filho de Navé, foi valoroso, Deus entregou-lhe nas suas mãos os seus inimigos. Se és pusilânime, fazes-te estranho à lei de Deus; a pusilanimidade abarrota-te de pretextos para ceder à preguiça, à incredulidade e à negligência, até que pereças. Tem um coração de leão, grita tu também: “Quem nos separará do amor de Deus?” (Rm 8:35), e “Ainda que o meu homem exterior se desmorone, o interior renovar-se-á dia a dia” (2Cor 4:16).

Se habitares no deserto, luta com orações, jejuns e mortificações. Se viveres no meio dos homens, sê prudente como as serpentes e singelo como as pombas (Mt 10:16). Se alguém te maldisser, suporta-o de bom ânimo, espera em Deus, que ele realizará o que for bom para ti. Não maldigas a imagem de Deus, pois Deus te disse: “A quem me glorifica, eu o glorificarei, a quem me maldisser, eu o maldirei” (1Sm 2:30). E se te louvam, não te alegres, porque está escrito: “Pobres de vós, se todos os homens vos louvarem” (Lc 6:26). Também foi dito: “Ditosos sejam vós quando vos insultarem, perseguirem e rejeitarem o vosso nome como maldito” (Lc 6:22). Do mesmo modo, os nossos padres Barnabé e Paulo, depois de serem louvados, rasgaram as suas vestes e se entristeceram, porque aborreceram a glória dos homens. Também Pedro e João, depois de haverem sofrido ultrajes no Sinédrio, saíram plenos de alegria porque tiram merecido ser ultrajados pelo santo nome do Senhor. Eles tinham a sua esperança na glória dos céus.

Porém, tu, filho meu, foge das comodidades deste mundo, a fim de estares na alegria do mundo futuro; não sejas negligente ao desejar passar dia após dia, não aconteça que te venham buscar antes de que tu estejas pronto e conheças a angústia e os servidores do anjo da morte te rodeiem, raptem-te cruelmente e levem-te às suas moradas de trevas, plenas de terror e angústia. Não te aflijas quando fores ultrajado pelos homens, mas aflige-te, sim, e suspira quando pecares – este é o verdadeiro ultraje – e quando fores persuadido pelos teus pecados.

Rogo-te, insistentemente, a odiar a vaidade. A vaidade é a arma do diabo. Deste modo, Eva foi enganada. (O maligno) disse-lhe: “Comam do fruto da árvore, abrir-se-ão os vossos olhos e serão como deuses” (Gn 3:5). Ela escutou-o, pensando ser verdade; buscou ter a glória da divindade, mas foi-lhe tirada, inclusive, a glória humana. O mesmo ocorrerá a ti, se seguires a vaidade; ela far-te-á alheio à glória divina. Porém, para Eva, antes que o diabo a tivesse tentado, não havia nada escrito a fim de adverti-la sobre esta guerra; para isso é que veio o Verbo de Deus e tomou a carne da Virgem Maria: para libertar a estirpe de Eva. Tu, em troca, em respeito a esta guerra, instruíste-te nas Santas Escrituras, através dos santos que te precederam. Por isso, irmão meu, não digas: “De nada tinha ouvido falar, não me tinham informado, nem ontem, nem anteontem”. Pois está escrito: “O clamor da sua voz difundiu-se por toda a terra, as suas palavras chegaram até os confins do mundo” (Sl 18:15 e Rm. 10:18). Pois, agora, se fores louvado, refreia o teu coração e dá glória a Deus. E se, em troca, fores insultado, dá glória a Deus e agradece-lhe ser digno da sorte do Seu Filho e dos Seus santos. Se chamaram de “impostor” ao teu Senhor, de “loucos” aos profetas, de “tolos” aos outros, quanto mais a nós, (que somos) terra e cinza; não devemos nos entristecer quando somos caluniados. Este é o caminho para que tenhas a vida. Se, ao contrário, é à negligência que te precipitas, então chora e geme. Com efeito: “Aqueles que se criavam entre a púrpura, agora estão cobertos de sujidade” (Lam 4:5), porque descuidaram da lei de Deus e seguiram os seus caprichos. Agora, filho meu, chora diante de Deus em todo o tempo, porque está escrito: “Ditoso é o que elegeste e tomaste contigo!” (Sl 64,5). “Puseste o teu coração e os teus pensamentos no vale do pranto, o lugar que tu preparaste” (Sl 83:6-7).

Adquire a inocência: sê como as ovelhas inocentes, que se lhes tosquiam a lã e elas, porém, não dizem qualquer palavra. Não vás de um lugar a outro, dizendo: “Aqui ou ali encontrarei Deus”. Ele disse-nos: “Eu sou pleno no céu, sou pleno na terra” (Jr 23:24), “se passardes através da água, Eu estarei contigo” (Is 4:2) e “os rios não te submergirão” (Is 43:2). Deves saber, filho meu, que Deus vive dentro de ti, para que permaneças na Sua lei e nos Seus mandamentos. O ladrão estava na cruz e entrou no paraíso. Judas, ao contrário, era um dos Apóstolos e traiu ao seu Senhor. Rajab nasceu na prostituição e foi contada entre os santos; Eva, por sua vez, foi enganada no paraíso. Job, sobre a sujidade, foi comparado ao seu Senhor; Adão, no paraíso, desviou-se do preceito. Os anjos estavam no céu e foram precipitados ao abismo; Elias e Henoc foram conduzidos ao reino dos céus. Em todo o lugar, portanto, buscai Deus, buscai, em todo o tempo, a Sua força (1 Cr 16:11 e Sl 104:4). Buscai-O, como Abraão, que obedeceu a Deus, ofereceu em sacrifício o seu filho e, por isto, foi chamado de o “Meu amigo”. Buscai-O como José, que lutou contra a impureza até reinar sobre os seus inimigos. Buscai-O como Moisés, que seguiu o seu Senhor; Ele constituiu-o legislador e fez-lhe conhecer a sua imagem. Buscai-O como Daniel; (Deus) deu-lhe a conhecer grandes mistérios e salvou-o das bocas dos leões. Buscaram-n’O os três santos e encontraram-No no forno ardente. Nele se refugiou Job e teve as suas feridas curadas. Também Susana foi à Sua busca e (Deus) a salvou das mãos dos ímpios. Da mesma forma ocorreu com Judite, que O encontrou no toldo de Holofernes. Todos estes buscaram Deus e por Ele foram salvos, assim também como outros.

E quanto a ti, filho meu, até quando serás negligente? Qual é o limite da tua negligência? Este ano é como o ano passado e hoje é como ontem. Enquanto fores negligente, não farás nenhum progresso para ti. Sê sóbrio, eleva o teu coração. Deverás comparecer diante do tribunal de Deus e prestar-Lhe contas do que tiveres feito em segredo e, também, do que fizeste publicamente. Se fores a um lugar onde se combate a guerra, a guerra de Deus, e, se o Espírito de Deus te exortar: “não adormeças neste lugar, porque existem insídias”, e o diabo, por sua parte, sussurrar-te: “qualquer coisa que te aconteça, será a primeira vez ou, se vires isto ou aquilo, não te aflijas”; não escutes os seus astutos discursos. Não aconteça que o Espírito de Deus se retire de ti e te desanime, que percas a força como Sansão, que os estrangeiros te atem com cadeias e te levem à roda de moer, quer dizer, ao ranger de dentes, e te convertas, para eles, num objeto irrisório. Significa dizer: que te enganem e que já não conheças mais o caminho até a tua cidade, porque te tiraram os olhos por teres aberto o teu coração a Dalila ou, vale dizer, ao diabo, que te capturou com o engano, porque não escutaste os conselhos do Espírito. Vê, também, o que aconteceu a um homem valente como David; felizmente, depois, ele se arrependeu a respeito da mulher de Urias. Assim está escrito: “Vistes a minha ferida, atemorizai-vos” (Job 6:21).

Foi aqui que aprendeste que Deus não poupou (as provas) aos santos. Vigia, então, sabes as promessas que fizestes, foge da arrogância, arranca de ti mesmo o diabo, para que ele não te arranque os olhos da tua inteligência e te deixe cego, de modo que não conheças mais o caminho da cidade, o lugar onde vives. Reconhece, novamente, a cidade de Cristo, dá-lhe glória, porque morreu por ti.

Porquê quando um irmão te fere com uma palavra, enojas-te e portas-te como uma hera? Acaso não te recordas de que Cristo morreu por ti? E quando o teu inimigo, isto é, o diabo, te sussurra alguma coisa, inclinas o teu ouvido até ele a fim de ele derrame sobre ti a sua maldade, abres-lhe o teu coração e absorves o veneno que ele te deu. Desditoso! Este é o momento de te transformar numa fera ou de ser como o fogo, para queimar toda a sua maldade! Devias ter náuseas e vomitar a fétida iniquidade; que o veneno não penetre dentro de ti e pereças! Ó homem, não suportaste uma pequena palavra dita pelo teu irmão. Quando o inimigo, porém, buscou devorar a tua alma, então, o que fizeste? Tiveste paciência com ele?

Não, querido meu, não lamentes a tua situação, posto que, ao invés de se colocar um ornamento de ouro sobre a tua cabeça, esta será rapada por causa das tuas obras (Is 3:24). Vigia sobre ti, suporta, alegremente, a quem te despreza, sê misericordioso com o teu irmão, não temas os sofrimentos do corpo.

Filho meu, presta atenção às palavras do sábio Paulo, que disse: “aguardam-me cadeias e tribulações em Jerusalém; eu, porém, não justifico a minha alma com nenhuma palavra sobre o modo de acabar a minha carreira” (At 20:23-24) e, ainda: “estou disposto a morrer em Jerusalém por Ele, em nome do meu Senhor Jesus Cristo” (At 21:13). Com efeito, nem o sofrimento, nem a prova impedirão os santos de alcançar o Senhor. Tem confiança! Sê valente! Acaba com a covardia diabólica! Corre melhor depois da coragem dos santos. Filho meu, porquê foges de Adonai, o Senhor Sabaoth, e recais na escravidão dos caldeus? Porquê dás de comer ao teu coração na companhia dos demónios?

Filho meu, cuida-te da fornicação, não corrompas os membros de Cristo. Não obedeças aos demónios. Não faças dos membros de Cristo, membros duma prostituta (1Cor 6:15). Pensa na angústia do castigo, põe diante de ti o juízo de Deus, foge de toda a concupiscência, despoja-te do homem velho e das suas obras e reveste-te do homem novo (Cl 3:9). Pensa na angústia (a qual experimentarás) no momento em que sair deste corpo.

Filho meu, refugia-te aos pés de Deus! Foi Ele quem te criou e por ti padeceu todos os sofrimentos. Ele disse, com efeito: “Ofereci as minhas costas aos que me feriam e a minha face aos que me golpeavam, não retirei a minha cara à ignomínia dos que me cuspiam” (Is 50:6). “Ó homem, de que te serve fazer o caminho até o Egito para beber a água de Geón, que está contaminada?” (Jr 2:18). Em que te beneficiam estes pensamentos turbulentos, até o extremo de sofrer tais penas? Converte-te e chora sobre os teus pecados. Está escrito: “se fazem uma oferta pelos seus pecados, as suas almas terão uma descendência que viverá por muito tempo” (Is 53:10).

Ó homem, tens visto que a transgressão é uma coisa má e quanto sofrimento e angústia engendra o pecado. Pronto, foge, ó homem, do pecado; pensa, em seguida, na morte. Está escrito: “O homem sensato trata duramente o pecado” (Pv 29:8), e “o rosto dos ascetas resplandecerá como o sol” (Mt 13:43 e Dn 12:3). Lembra-te de Moisés que: “preferiu, antes, sofrer com o povo de Deus, do que gozar das delícias momentâneas do pecado” (Hb 11:25). Se amas o sofrimento dos santos, eles serão os teus amigos e intercessores diante de Deus e Ele te concederá todas as tuas justas petições, pois levaste a tua cruz e seguiste o teu Senhor.

Não busques um posto de honra entre os homens, para que Deus te proteja contra as tempestades que tu não conheces e te estabeleça na sua cidade, a Jerusalém celestial. “Examina tudo e permanece com o que é bom” (1Ts 5:21). Não sejas altaneiro frente à imagem de Deus. Vigia sobre a tua juventude, para velar sobre a tua velhice. Que não experimentes a vergonha ou as reprovações no vale de Josafá, ali onde todas as criaturas de Deus te verão e te repreenderão, dizendo: “Sempre havíamos pensado que eras uma ovelha e aqui, em troca, constatamos que és um lobo! Vês agora o abismo do inferno, arroja-te no seio da terra” (Is 14:15). Que grande vergonha! No mundo, eras louvado como um eleito, porém, quando chegaste ao vale de Josafá, ao lugar do juízo, viram-te desnudo e todos contemplaram os teus pecados e a tua imundície expostos diante de Deus e dos homens. Pobre de ti naquela hora! Para onde voltarás o teu rosto? Abrirás acaso a tua boca? O que dirás? Os teus pecados estão impressos na tua alma negra como um silício. O que farás então? Chorarás? As tuas lágrimas não serão recebidas. Suplicarás? As tuas súplicas não serão recebidas, porque tu não tens piedade daqueles aos quais te entregaram. Pobre de ti naquela hora, quando ouvir a voz severa e terrível: “Os pecadores vão ao inferno” (Sl 9:18) e também: “Afastai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno que foi preparado para o diabo e os seus anjos” (Mt 25:41). Mais ainda: “Aos que cometeram transgressões, eu os detestei” (Sl 100:3) e “Apagarei da cidade do Senhor a todos aqueles que fazem o mal” (Sl 100:8).

Filho meu, usa deste mundo com circunspecção, avança considerando-te nada, segue ao Senhor em todas as coisas para estar seguro no vale de Josafá. Que o mundo olhe para ti como a um daqueles que foram depreciados, a fim de que, no dia do juízo, em troca, sejas encontrado revestido de glória! E não confies a nada o teu coração no que toca ao descanso da tua alma, mas, sim, confia todos os teus desejos ao Rei e Ele te sustentará (Sl 54:23). Vê Elias. Ele confiou no Senhor, na torrente de Querit, e foi alimentado por um corvo.

Cuida-te, atentamente, no que diz respeito à fornicação. Ela feriu e fez cair a muitos. Não te faças amigo dum jovem. Não corras atrás das mulheres. Foge da complacência do corpo, porque as amizades inflamam como as chamas. Não corras atrás de nenhuma carne, porque se a pedra cai sobre o ferro, a chama se inflama e consome todas as substâncias. Refugia-te, sempre, no Senhor; senta-te à sua sombra, porque “quem vive sob a proteção do Altíssimo, habitará à sombra de Deus do céu” (Sl 90:1) e “não vacilará nunca” (Sl 124:1). Adere ao Senhor e que suba ao teu coração o pensamento da Jerusalém celestial; estarás sob a bênção do céu e a glória de Deus guardar-te-á.

Vigia, com toda a solicitude, o teu corpo e o teu coração. “Busca a paz e a pureza” (Hb 12:14), as quais estão unidas entre si, e verás Deus. Não tenhas disputas com nada, porque quem está nalguma disputa com o seu irmão, é inimigo de Deus e quem está em paz com o seu irmão, está em paz com Deus. Não aprendeste agora que nada é maior que a paz, que conduz ao amor mútuo? Inclusive, se estiveres livre de todo o pecado e, porém, fores inimigo do teu irmão, fazes-te estranho a Deus; porque está escrito: “busquem a paz e a pureza” (Hb 12:14), as quais estão unidas entre si. Está escrito assim mesmo: “Ainda que eu tivesse toda a fé para mover montanhas, se não tivesse a caridade do coração, isso de nada me serviria” (1Cor 13:2-3). A caridade edifica (1Cor 8:1). “Que coisa poderia ser purificada da impureza?” (Ec 34:4). Se sentes no teu coração ódio ou inimizade, onde está a tua pureza? O Senhor disse, através de Jeremias: “Diriges, ao teu próximo, palavras de paz, porém há inimizade no teu coração; falas, amavelmente, ao teu próximo, porém há inimizade no teu coração ou alimentas pensamentos de inimizade. Contra isto não deverei encolerizar-me?. Dum pagão como este, a minha alma não deverá vingar-se?” (Jr 9:5-9). É como se dissesse: “O que é inimigo do seu irmão, esse é um pagão, porque os pagãos caminham nas trevas, sem conhecer a luz”. Assim, quem odeia ao seu irmão caminha nas trevas e não conhece Deus. O ódio e a inimizade, com efeito, cegaram os seus olhos e ele não vê a imagem de Deus.

O Senhor mandou-nos amar os nossos inimigos, abençoar aos que nos maldizem e fazer o bem aos que nos perseguem. Em que perigo nos encontramos, então, se odiarmo-nos uns aos outros, (se odiarmos) os nossos membros-irmãos, unidos a nós, os filhos de Deus, renovados da verdadeira vida, ovelhas do rebanho espiritual, reunidas pelo verdadeiro pastor, o Unigénito de Deus, que se ofereceu em sacrifício por todos nós! Por esta obra grandiosa, o Verbo vivente padeceu esses sofrimentos. E tu, ó homem, a ela odeias, por inveja e vaidade, por avareza ou arrogância? Assim, o inimigo desencaminha-te para fazer-te estranho a Deus. Que defesa apresentarás diante de Cristo? Ele dir-te-á: “ao odiar o teu irmão, odiarás a mim”. Irás, pois, ao castigo eterno, porque alimentaste a inimizade até com o teu irmão; em troca, o teu irmão entrará na vida eterna, porque se humilhou diante de ti por causa de Jesus.

Busquemos, então, os remédios para este mal antes de morrer. Queridíssimos, dirijamo-nos ao Evangelho da verdadeira Lei de Deus, o Cristo e, assim, ouviremo-lo dizer: “Não condenem para não ser condenados, perdoem e serão perdoados (Lc 6:37). Se não perdoares, tampouco serás perdoado. Se estiveres em guerra com o teu irmão, prepara-te para o castigo pelas tuas culpas, as tuas transgressões, as tuas fornicações realizadas ocultamente, as tuas mentiras, as tuas palavras obscenas, os teus maus pensamentos, a tua avareza, as tuas más ações, de todas elas prestarás conta no tribunal de Cristo, onde todas as criaturas de Deus contemplar-te-ão e todos os anjos do exército angélico ali estarão presentes com as suas espadas desembainhadas, obrigando-te a justificar-te e a confessar os teus pecados; e os teus vestidos estarão manchados e a tua boca permanecerá cerrada; estarás aterrado sem nada ter a dizer! Desventurado, de quantas coisas deverás prestar contas? Das impurezas inumeráveis, que são como um cancro para a tua alma, dos desejos dos olhos, dos maus pensamentos, que entristecem o Espírito e afligem a alma, das palavras inconvenientes, da língua fanfarrona, que mancha todo o corpo, das brincadeiras, das más diversões, das maledicências, dos ciúmes, dos ódios, das burlas, das ofensas contra a imagem de Deus, das condenações, dos desejos do ventre, que te excluíram dos bens do paraíso, das paixões, das blasfémias, que são vergonhosas de mencionar, dos maus pensamentos contra a imagem de Deus, da cólera, das disputas, das obscenidades, da arrogância dos olhos, dos desejos perversos, da falta de respeito e das vaidades. Serás, sobretudo, interrogado, porque lutaste com o teu irmão e não resolveste o pleito, como deverias, no amor de Deus. Nunca ouviste dizer que “a caridade cobre uma multidão de pecados” (Pv 4:8)? “E o teu Pai, que está nos céus, fará contigo o mesmo, se tu e o teu irmão não vos perdoardes, mutuamente, nos vossos corações” (Mt 18:35). O teu Pai, que está nos céus, não te perdoará os pecados.

Queridos meus, vós sabeis que estamos revestidos de Cristo, bom e amigo dos homens. Não nos despojemos de Cristo por causa das nossas más obras. Temos prometido a pureza a Deus. Temos prometido a vida monástica. Cumpramos, pois, as obras, que são: o jejum, a oração incessante, a pureza do corpo e a pureza do coração. Se temos prometido a Deus a pureza, não nos ocorra que sejamos surpreendidos na fornicação, a qual assume as mais variadas formas. Pois foi dito: “Prostituíram-se de múltiplas formas” (Ez 16:25). Meus irmãos, que não nos surpreendam em obras deste género, que não nos encontrem inferiores a todos os homens!

Temos prometido, a nós mesmos, ser discípulos de Cristo. Mortifiquemo-nos, porque a mortificação maltrata a impureza. Esta é a hora da luta. Não nos retiremos pelo temor de cairmos escravos do pecado. Temos sido constituídos como luz do mundo; que ninguém se escandalize pela nossa obra. Revistamo-nos do silêncio, pois muitos, com efeito, devem a ele a sua salvação.

Velais sobre vós mesmos, irmãos! Não sejamos exigentes entre nós, por temor a que o sejam connosco, na hora do castigo. A nós, virgens, monges, anacoretas, certamente, nos dirão: “Dá-me o meu com os interesses”. Repreender-nos-ão, ao dizer-nos: “Onde está o vestido das bodas? Onde está a luz das lâmpadas? Se és o meu filho, onde está a minha glória? Se és o meu servo, onde está o temor a mim? (Ml 1:6). Se me odiaste neste mundo, aparta-te, agora, de mim porque não te conheço (Mt. 7:23). Se odiaste ao teu irmão, fizeste-te como um estranho no meu reino. Se estiveste em lutas com o teu irmão e não o perdoaste, ataram-te as mãos atrás das costas, ataram-te os pés e arremessaram-te às trevas exteriores, onde haverá prantos e ranger de dentes (Mt 22:13). Se golpeaste o teu irmão, serás entregue aos anjos, sem piedade, e serás, eternamente, fustigado com o flagelo das chamas. Não tivestes respeito pela Minha imagem, insultaste-Me, depreciaste-Me e desonraste-Me; por isso, Eu não terei respeito por ti na aflição da tua angústia. Não fizestes as pazes com o teu irmão neste mundo; Eu não estarei contigo no dia do grande juízo. Insultastes o pobre; é a Mim a quem insultastes. Golpeastes ao desgraçado; assim te fizeste cúmplice de quem Me golpeou na Minha humilhação sobre a cruz. Acaso deixei-te faltar alguma coisa desde a Minha saída do mundo? Não te fiz o dom do Meu corpo e do Meu sangue como alimento da vida? Não padeci a morte por tua causa, a fim de te salvar? Não te manifestei o mistério celestial, a fim de fazer de ti o meu irmão e o meu amigo? Não te dei o poder de pisar serpentes e escorpiões e todo o poder sobre o inimigo (Lc 10:19)? Não te dei múltiplos remédios de vida com os quais podes salvar-te: os Meus prodígios, os Meus sinais, os Meus milagres, com os quais revesti-Me, no mundo, como se fosse uma armadura de guerra? Dei-tos a fim de que te cinjas e derrotes a Golias, quer dizer, o diabo. Que coisa falta-te, agora, porquê me converteste num estranho? Somente a tua negligência te precipita no abismo infernal!”

Filho meu, estas e outras coisas piores dir-nos-ão se formos negligentes e não obedecermos (o mandamento) de perdoar-nos mutuamente. Vigiemos sobre nós mesmos e as potestades de Deus virão, em nosso auxílio, no dia da morte; guiar-nos-ão no meio da dura e terrível guerra, farão com que ressurjam as nossas almas dentre os mortos.

Se deram-nos, antes de tudo, a fé e a ciência para expulsarmos, de nós mesmos, a incredulidade; se deram-nos, depois, a sabedoria e a prudência para discernirmos os pensamentos do diabo, deles fugir e detestá-los, se pregou-nos o jejum, a oração e a temperança, os quais dão-nos a calma ao corpo e a quietude às paixões; se deram-nos a pureza e a vigilância, graças às quais Deus habitará em nós, se deram-nos a paciência e a mansidão; se a tudo isso guardarmos com atenção, aí sim, herdaremos a glória de Deus.

Se deram-nos a caridade e a paz – poderosas na luta – o inimigo, com efeito, não se acerca do sítio onde elas se encontram. Se deram-nos a alegria, a fim de combater com ela a tristeza. Se deram-nos a generosidade e a disposição para o serviço; se deram-nos a santa oração e a perseverança, as quais cumulam de luz a alma; se deram-nos a modéstia e a simplicidade, as quais desarmam a maldade; foi escrito, para nós, que devemos abster-nos de julgar, para vencer a mentira, perverso vício que está no homem. Porque se não julgarmos, não seremos julgados no dia do juízo. Se deram-nos a paciência para afrontar o sofrimento e as injustiças, que não nos oprima o desalento.

Os nossos pais passaram as suas vidas com fome, sede e em inumeráveis mortificações, até conquistar a pureza, sobretudo, ao fugir do hábito do vinho, que nos cumula de todos os males. As perturbações, os tumultos e as desordens nos nossos membros são causados pelo abuso do vinho. Esta é uma paixão cheia de pecados; é a esterilidade e a podridão dos frutos. A insaciável voluptuosidade escurece o entendimento, torna impudica a consciência e rompe o travão da língua. Há uma alegria plena quando não entristecemos o Espírito Santo e a vontade não está atordoada. “O sacerdote e o profeta” – está escrito – “foram atordoados pelo vinho” (Is 28:7). O vinho é licencioso e insolente é a ebriedade. Quem se abandona a ele não estará limpo do pecado (Pv 20:1). Coisa boa é o vinho, se bebido com moderação. “Se voltares os teus olhos às taças e aos cálices, caminharás desnudo como um néscio” (Pv 23:31). Aquele que tiver se preparado para ser um discípulo de Jesus, que se abstenha do vinho e da ebriedade.

O nossos pais, ao conhecer os males que provêm do vinho, dele se abstiveram. Bebiam pouquíssimo, em caso de enfermidade. E se foi concedido um pouco a Timóteo, este grande trabalhador, isso sucedeu porque o seu corpo estava cheio de enfermidades. Porém, a quem ferve de vícios na flor da juventude, em quem se acumulam as impurezas das paixões, o que lhe direi? Tenho medo de dizer-lhe que não beba (vinho), por temor de que algum, ao depreciar a sua própria salvação, murmure contra mim. Nos nossos dias, para muitos, esta linguagem é dura. Ademais, queridos meus, é bom vigiar e é útil mortificar-se, porque quem se mortificar colocará num lugar seguro a sua nave, no bom e santo porto da salvação e saciar-se-á dos bens do céu.

Porém, o que é, todavia, maior que tudo isto: foi-nos dada a humildade; ela vela sobre todas as outras virtudes, tal é a grande e santa força da qual se revestiu Deus quando veio ao mundo. A humildade é o baluarte das virtudes, o tesouro das obras, a armadura da salvação, o remédio para toda a ferida. Depois de ter fabricado as telas finas, os ornamentos preciosos e todos os adornos para o tabernáculo, revestiu-o com uma tela de silício. A humildade é uma coisa mínima diante dos homens, porém, preciosa e estimada diante de Deus. Ao adquiri-la, pisaremos todo o poder do inimigo (Lc 10:19). Porque está escrito: “a quem olharei, senão ao humilde e ao manso?” (Is 66:2).

Nestes tempos de escassez, não concedamos o repouso ao nosso coração porque, se multiplicadas a jactância e a vaidade, também multiplicada será a avidez e assim reinará a fornicação, por causa da fartura da carne, e prevalecerá o orgulho. Os jovens não mais obedecem aos anciãos; os anciãos não mais se preocupam pelos jovens; cada um caminha segundo os desejos do seu coração. Este é o tempo de gritar como o profeta: “ai de mim, ó alma minha! O homem que teme a Deus desapareceu da terra e o que é reto entre os homens não vive mais segundo o Cristo; cada um oprime o seu próximo” (Mq 7:1-2).

Queridíssimos meus, lutem, porque o tempo está próximo e os dias reduziram-se. Já não há um pai que ensine aos seus filhos; não há um filho que obedeça ao seu pai; desapareceram as virgens retas; os santos padres morreram. Desapareceram as mães e as viúvas. Chegamos a ser como órfãos; pisam-se os humildes e golpeia-se a cabeça dos pobres. Por isto, mais um pouco e poderá ser vista a ira de Deus, e estaremos na aflição, sem que nada haja para nos consolar. Tudo isto nos sucedeu porque não quisemos mortificar-nos.

Queridos meus, lutemos para receber a coroa que nos foi preparada. O trono está preparado, a porta do reino está aberta; ao vencedor darei o maná escondido. Se lutarmos e vencermos as paixões, reinaremos para sempre; porém, se formos vencidos, teremos remorsos e choraremos com lágrimas amargas. Combatamo-nos, a nós mesmos, enquanto ainda estiver ao nosso alcance a penitência. Revistamo-nos com a mortificação e, assim, renovaremo-nos na pureza. Amemos aos homens e seremos amigos de Jesus, o amigo dos homens.

Prometamos a Deus a vida monástica, a caridade, a virgindade; porém, não só a do corpo, mas, sim, a que é (escudo) contra todo o pecado. No Evangelho, com efeito, algumas virgens foram rechaçadas por causa da sua preguiça; as que, porém, em troca, vigiavam, valorosamente, entraram na sala das bodas. Que cada um de nós possa entrar nesse lugar para sempre!

O amor ao dinheiro: por sua causa enfrentamos o combate. Se quiseres misturar as riquezas, que são o isco para o anzol do pescador (sobretudo mediante a avareza ou o comércio ou a violência ou o engano ou, ainda, com um trabalho excessivo, ao extremo de não ter tempo para servir a Deus, ou por qualquer outro meio); se desejares misturar o ouro com a prata, recorda-te daquilo que se diz no Evangelho: “Insensato! Esta noite ser-te-á retirada a vida e o que acumulaste para quem será?” (Lc 12:20) e também: “Amontoam tesouros, sem saber para quem ficam” (Sl 38:7).

Luta, querido meu, combate as paixões e diz: “Farei como Abraão, levantarei as minhas mãos até o Deus Altíssimo, que criou o céu e a terra (para testemunhar) que não tomarei nada do que é teu, nem um filho, nem a correia de uma sandália” (Gn 14:22-23); eis que estes são bens essenciais para um humilde estrangeiro. E (diz também): “O Senhor ama o prosélito, para provê-lo de pão e vestimenta” (Dt 10:18). Igualmente, a propósito da preguiça, por causa da qual enfrentamos o combate: “Acumula riquezas com vistas à esmola e para os necessitados” (Ec 18:25). Recorda o que está escrito: “Serão malditos os teus celeiros e tudo o que eles contiverem” (Dt 28:17). A propósito do ouro e da prata, São Tiago disse: “Levantar-se-á a tua ferrugem em testemunho contra ti; a ferrugem devorará a tua carne como o fogo” (Tg 5:3) e ainda: “É superior o homem justo que não tem ídolos” (Br 6:72) e vê a sua ignomínia. Purifica-te da maldição, antes que o Senhor te chame. Põe a tua esperança em Deus, porque está escrito: “Que os seus corações sejam puros e perfeitos diante de Deus” (1Rm 8:61).

Querido meu, saúdo-te no Senhor. Na verdade, puseste em Deus o teu auxílio. Ele ama-te. Caminhaste, com todo o coração, segundo os mandamentos de Deus. Que Deus te bendiga, que as tuas fontes se tornem rios e os teus rios, um mar! Verdadeiramente, és carro e auriga da temperança. A lâmpada de Deus arde diante de ti e reflete a luz secreta do Espírito, ao dispor as tuas palavras com juízo. Que Deus te conceda a graça da força atlética dos santos, que não sejam encontrados ídolos na tua cidade. Que possas pôr o teu pé sobre o colo do príncipe das trevas; ver o generalíssimo do exército do Senhor à tua direita; submergir o faraó e os seus exércitos e fazer o teu povo atravessar o mar salgado; que é esta vida. Assim seja!

Rogo-te, ainda, que não dês repouso ao teu coração! Essa é a alegria dos demónios: fazer com que o homem conceda repouso ao seu coração, arrastando-o à rede antes que, disso, possa ser advertido. Não sejas negligente em aprender o temor do Senhor; cresce como as jovens plantas e agradarás a Deus, como um jovem búfalo que levanta no alto os seus cornos. Sê um homem forte nas tuas obras e palavras; não receies como os hipócritas, a fim de que a tua sorte não seja como a deles. Não percas nem sequer um dia da tua existência, conhece o que dás a Deus a cada dia. Vive só, como um general prudente. Discerne o teu pensamento, seja ao viver na solidão ou entre os outros. Em suma, a cada dia, julga-te a ti mesmo. É melhor viver no meio dum milhar de homens com toda a humildade, do que só, numa guarida de hienas, mas com orgulho. De Lot, que vivia no meio de Sodoma, atesta-se que era um excelente homem de fé. Ouvimos dizer, porém, a respeito de Caim, com quem não havia, sobre a terra, senão três outros seres humanos, que foi um malvado.

Propõe-te, agora, à luta. Examina o que te acontece a cada dia, para saber se estás no número dos nossos ou no daqueles que nos combatem. Somente a ti os demónios costumam apresentar-se à direita, aos demais homens, se lhes aparecem pela esquerda. Também eu, na verdade, fui assaltado pela direita. Levaram-me ao diabo, atado como um asno selvagem. O Senhor, porém, socorreu-me. Não confiei neles e não lhes entreguei o meu coração. Muitas vezes, à minha direita, fui tentado por insídias diabólicas e (o diabo) pôs-se a caminhar diante de mim. Atreveu-se, inclusive, a tentar o Senhor. Este, porém, fê-lo desaparecer juntamente com os seus enganos.

Filho meu, reveste-te de humildade, toma como teus conselheiros a Cristo e ao Seu bom Pai. Sê amigo dum homem de Deus, que tenha a Sua lei no coração e que seja como um pobre, que leva a sua cruz e ama as lágrimas. Permanece tu, também, com lástima, com um sudário na cabeça. Que a tua cela seja para ti uma tumba, até que Deus te ressuscite e te dê a coroa da vitória.

Se, alguma vez, chegares a litigar com um irmão que te fez sofrer por meio duma  palavra ou se o teu coração ferir a um irmão, ao dizer-lhe “não mereces isto”, ou mesmo quando o inimigo te insinuar contra alguém ao dizer “não mereces estas louvações”; se receberes a sugestão ou o pensamento do diabo; se crescer a hostilidade do teu pensamento; se estiveres em disputa com o teu irmão, sabendo que não há bálsamo em Galaad, nem médico na velhice (Jr 8:22), refugia-te, em seguida, na solidão, com a consciência em Deus; chora a sós, com Cristo, e Ele, o Espírito de Jesus, falará com o teu entendimento e convencer-te-á da plenitude do andamento. Porquê deves lutar só, tal como uma fera selvagem, como se este veneno estivesse dentro de ti?

Pensa que tu, também, caíste amiúde. Não escutaste dizer o Cristo: “Perdoa ao teu irmão setenta vezes sete” (Mt 18:22)? Muitas vezes, não derramaste lágrimas e suplicaste: “Perdoa-me os meus inumeráveis pecados” (Sl 24,18)? Se tu exigires o pouco que o teu irmão te deve, em seguida, o Espírito de Deus porá diante de ti o juízo e o temor dos seus castigos. Recorda que os santos foram considerados dignos de serem ultrajados. Recorda que Cristo foi esbofeteado, insultado e crucificado por tua causa; e ele cumulará, imediatamente, o teu coração com a misericórdia e o temor; então, prostrar-te-ás em terra e dirás, em lágrimas: “Perdoa-me, Senhor, porque fiz sofrer a Tua imagem”. Imediatamente, levantar-te-ás com o consolo do arrependimento e arremessar-te-ás aos pés do teu irmão, com o coração aberto, o rosto radiante, o sorriso entre os lábios, a irradiar paz e, sorrindo, pedirás ao teu irmão: “Perdoa-me, irmão meu, por te ter feito sofrer”. Que abundem as tuas lágrimas; depois das lágrimas virá uma grande alegria. Que a paz exulte entre vós os dois e o Espírito de Deus, da sua parte, gozará e exclamará: “Bem-aventurados os pacíficos, porque serão chamados filhos de Deus” (Mt 5:9). Quando o inimigo ouvir o som desta voz, ficará confundido, Deus será glorificado e descerá sobre ti uma grande bênção.

Irmão meu, este é o tempo de fazermos a guerra contra nós mesmos; tu sabes que, em todo o lado, levantam-se as trevas. As Igrejas estão repletas de litigantes e excitados, as comunidades monásticas tornam-se ambiciosas e o orgulho reina. Não há ninguém que se ponha a servir ao próximo: pelo contrário, todos o oprimem (Mc 7:2). Estamos imersos na dor. Não há mais nenhum profeta ou sábio. Não há nenhum que possa convencer o outro, porque abunda a dureza dos corações. Quem compreende, permanece em silêncio, pois os tempos são maus. Cada um é senhor de si mesmo. Deprecia-se o que não se deveria depreciar.

Agora, irmão meu, vive em paz com o teu irmão e reza, também, por mim, porque eu não posso fazer nada, uma vez que estou atribulado pelos meus desejos. Vigia sobre ti em todas as coisas; esforça-te, cumpre a tua obra de pregador. Permanece firme na prova, leva a termo o combate da vida monástica com humildade, paciência e temor ante todas as palavras que escutarás. Guarda com atenção a virgindade, evita os excessos e essas abomináveis palavras pouco oportunas; não te afastes dos escritos dos Santos. Sê firme na fé de Cristo Jesus, o nosso Senhor. A ele seja dada a glória; ao seu bom Pai e ao Espírito Santo! Assim seja! Abençoa-nos.

Redação final: Gabriela Mota

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