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Arquimandrita Vassilios Papavassiliou – Moralidade vs Santidade

No cristianismo ortodoxo, não há “moralidade”. Eu sei que isso choca muitas pessoas, mas o digo por um bom motivo: porque a moralidade não é realmente uma ideia teológica, mas filosófica. A moralidade é normalmente compreendida como um senso de certo e errado, e acho que em certa medida todos o possuem, a despeito de cultura, religião ou época em que vive. Eu não acho que alguém já tenha considerado que o egoísmo ou a covardia sejam coisas boas. As pessoas não acham que seja bom ser horrível com quem foi bom com você, e é assim em qualquer religião que você creia, qualquer época em que viva, qualquer cultura de que participe. Existe um senso comum de certo e errado.

Mas há variações. Alguns diriam que é aceitável se vingar, e outros que não devemos fazê-lo de modo algum. Alguns diriam que um homem deve ter apenas uma esposa, outros diriam que ele pode ter várias. Alguns diriam que a gente deve ser bom com quem é bom connosco, outros diriam que devemos ser bons até com que não é bom connosco.

Então, se formos utilizar o termo “moralidade cristã”, poderíamos dizer que é simplesmente o princípio que governa o senso de certo e errado. Ele nos diz para não nos vingarmos, para sermos bons com os que nos odeiam, para amarmos nossos inimigos, para termos apenas uma esposa, e assim por diante. Mas isso ainda é apenas nada mais do que leis morais, as quais nadas nos dizem sobre porque essas coisas são certas ou erradas, e nem nos diz porque fazer as coisas certas é tão difícil, enquanto fazer as coisas erradas parecem tão fáceis. E isso porque nem chegamos ao cerne da questão, na essência do cristianismo, o qual é teologia, e não um conjunto de leis ou regras de conduta moral.

Cristo não veio para iniciar uma nova religião, nem simplesmente para nos ensinar princípios pelos quais viver. Ele não era nem um filósofo, nem um professor de moral. Ele veio para nos dar a verdadeira vida, Sua Vida. E enquanto não entendermos que o cristianismo é sobre a verdadeira vida e não sobre moralidade, é sobre teologia e não filosofia, nunca entenderemos as noções de pecado e santidade, porque o cristianismo está enraizado não em um senso de certo e errado, que é compartilhado com pessoas de outras fés (e mesmo sem fé), mas no conhecimento de Deus e nosso relacionamento com Ele.

O erro de entendimento sobre o cristianismo fica bem claro quando as pessoas dizem coisas como: “Por que eu preciso de religião, ou por que eu preciso ir na igreja para ser uma pessoa boa?” E isso sempre me lembra a passagem na qual o jovem rico vai até Cristo e pergunta, “Bom mestre, o que devo fazer para ter a vida eterna?” E Cristo responde, “Por que Me chamais de ‘bom’? Só Deus é bom”. Esse é o princípio daquilo que muitos chamariam de moral cristã.

Nós medimos a bondade não por algum padrão de comportamento social, ou por algum tipo de lei ou princípio ético, mas por Deus, que é o único bom. Não precisamos de religião ou de igreja para sermos o que muitos chamam de “bom”, quer dizer, alguém que mantém as regras sociais, que não mata nem rouba. Mas Cristo não está nos pedindo para simplesmente cumprirmos essas leis. Ele diz, “Sede perfeitos, como vosso Pai no céu é perfeito. Sede santos, pois Eu sou santo”.

A perfeição implica em sermos inteiro, e é notável que Cristo nos pede isso, que sejamos perfeitos, no contexto do seu sermão do monte, quando Ele nos dá os mandamentos: “Ame os seus inimigos. Abençoe os que te amaldiçoam. Faça o bem aos que te odeiam. Se alguém tomar teu manto, dá-lhe também teu casaco. Se alguém te forçar a caminhar um quilômetro, acompanhe-o por dois. Se alguém te bater em uma face, dê-lhe a outra.” E Cristo nos dá o motivo pelo qual devemos fazer isso: “Pois Deus faz o sol brilhar sobre o justo e o injusto, e é gentil tanto com os bons quanto com os maus.” Isso não é moralidade, e continuo a repetir para as pessoas que se formos encontrar algum tipo de ética, de regra moral, no Cristianismo, nas Escrituras, seria nos Dez Mandamentos, que são uma lista de “não faça isso, não faça aquilo”, com alguns mandamentos afirmativos, claro. E muitas pessoas diriam, “Eu sou uma pessoa boa porque eu não mato, não roubo”. Ninguém lista um monte de mandamentos.

Mas quando você lê o sermão de Cristo no monte, quando você lê o Evangelho de Mateus, e escutamos que tudo que importa é o coração humano, que devemos amar quem nos odeia, abençoar e orar por quem nos persegue, dar a outra face, e também quando Jesus nos diz que é possível que estejamos fazendo o que parecem ser boas ações, mas pelos motivos errados, “Não reze ou dê esmolas para ser admirado pelos outros, ou não terás recompensa nos céus”, então isso nos leva muito além da moralidade. Isso não tem nada a ver com moralidade. É sobre o coração. É sobre nossa relação com Deus, que ocorre principalmente através de nossa relação com os outros.

Já que a moralidade cristão está enraizada no nosso relacionamento com Deus, a espiritualidade cristã utiliza uma linguagem diferente da utilizada pela sociedade quando falamos de certo e errado. O secularista tende a falar de valores ao invés de virtudes, de vícios ou crimes ao invés de paixões ou pecados. E a palavra “pecado” parece ser quase um palavrão hoje em dia, embora seja tão comum nas Escrituras e nos escritos da Igreja. Apesar disso muitos a desprezam e abandonam como um anacronismo. Ainda assim, é importante que preservemos nossa linguagem porque não estamos falando simplesmente de crimes, mas do homem interior.

Claro, também é notável que a palavra grega para “pecado”, “amartiya” significa “errar o alvo”. Não é simplesmente uma transgressão, uma quebra de regras, mas um fracasso em alcançar um ideal cristão: “Sede perfeitos como vosso Pai no céu é perfeito.”

Agora, por que achamos tão difícil fazer o que é certo ou termos motivos puros? S. Paulo resume o problema muito bem em sua epístola aos Romanos. Ele diz:

“Sabemos que a Lei é espiritual, mas eu sou da carne, vendido como escravo ao pecado. Não entendo o que faço, pois tenho o desejo de fazer o que é bom, mas não consigo realiza-lo. O que faço não é o bem que desejo. Ao invés, o mal que não desejo, este eu continuo a fazer. E se faço o que não quero fazer, não sou mais eu quem o faz, mas o pecado vivendo em mim que o faz. Então, eu encontro esta lei em funcionamento: quando desejo fazer o bem, o mal está bem ali comigo. Pois em meu ser interior, alegro-me com a lei de Deus, mas vejo outra lei funcionando nos membros do meu corpo, fazendo guerra contra a lei de minha mente e fazendo-me prisioneiro da lei do pecado que atua em meus membros.”

Então, em outras palavras, temos este conflito entre o que sabemos ser correto e nossa natureza caída e nossos instintos. Por exemplo, se eu escutasse uma pessoa gritando por socorro, eu provavelmente sentiria duas coisas conflituantes: por um lado, um desejo de ajudar a pessoa, porque sabemos que isso é o certo e porque somos fundamentalmente bons e temos um impulso de querer ajudar as outras pessoas quando precisam. Mas também temos um instinto de auto-preservação, de cuidar de nós mesmos ao invés de ajudar outra pessoa. Então o que temos aqui é um conflito entre o que sabemos ser correto e nossos instintos.

Nossa vida espiritual, nossa vida ascética, servem exatamente para aprendermos a superarmos essas paixões e instintos que na prática costumam interferir com o que sabemos ser correto. É muito belo dizer, “amo a humanidade”, mas se firo as pessoas quando estou de mau-humor, e digo algo que realmente magoa, a despeito de quais sejam minhas intenções, então eu realmente não superei minha raiva e vou continuar machucando as pessoas concretas. De forma similar, seu não superar minha ganância, outros irão ficar sem, pois eu tenho mais do que preciso. Porque eu não controlo essas paixões, eu não consigo amar plenamente. Nossa batalha com o pecado é na prática uma aventura em busca do amor divino, de adquirir aquele amor perfeito, “sede perfeitos como vosso Pai no céu é perfeito”.

Existem duas coisas em particular sobre as quais quero falar hoje. Quero falar sobre a relação a pecado e a santidade, uma paixão ou pecado e uma virtude. A paixão sobre a qual quero falar hoje tem sido descrita pelos autores e pensadores cristãos ao longo dos séculos como o pior pecado de todos, e é o pecado do orgulho. E isso pode surpreender a vários. Por que é o pior pecado do mundo. Certamente o assassinato deveria ser pior, até a raiva e o ódio deveriam ser piores. Mas temos que entender que essa paixão é, na verdade, a raiz de muitos outros pecados, mesmo quando não vemos a relação.

O orgulho foi descrito por C.S. Lewis como o “estado mental completamente anti-Deus”, o que é uma afirmação interessante, mas acho que não é inteiramente precisa. De acordo com a tradição cristã, o orgulho foi de fato o pecado do demônio. Então, em um certo sentido, é o mais demoníaco dos pecados. Para um não-cristão, ou para pelo menos um ateu, pode parecer inofensivo, e ele pode achar que chamar isso de um grande pecado é um exagero. Porém, mesmo entre os anti-religiosos, não há pecado que perturbe as pessoas mais do que o orgulho. O tempo todo escuto as pessoas reclamarem que fulano é “tão cheio de si”, que certa pessoa é “tão metida”, que uma terceira “acha que é melhor do que os outros”, e assim por diante. As mesmas pessoas que dizem “Não importa o que você faz e acredita, desde que não machuque ninguém”, não aguentam o pecado do orgulho quando é visto nos outros. Se este orgulho e presunção não estão machucando ninguém, é difícil entender, desde o ponto de vista citado, qual seria o problema. Acho que bem no fundo, todos realmente entendem que existe um diferença entre pecado e virtude.

Mas claro, odiamos o pecado quando o vemos nos outros, mas normalmente não o vemos em nós mesmos, porque essa é a natureza do orgulho. É amor-próprio. Fico chateado que *outra* pessoa seja o centro das atenções, porque *eu* queria ser o centro das atenções. Fico chateado que alguém seja bem-sucedido, porque eu acho que eu mereço mais que aquela pessoa. O orgulho é essencialmente competitivo. Está sempre te fazendo sentir-se melhor que os outros, ou que merece mais que os outros. Quando reconhecemos este pecado em nós mesmos, ou quando o apontam em nós, deixamos passar, na melhor das hipóteses, tentamos nos justificar, mas assim que o vemos nos outros, não temos nenhuma piedade.

O orgulho, portanto, contradiz o segundo grande mandamento, “Amarás ao teu próximo como a ti mesmo”, porque se realmente amássemos nossos próximos como a nós mesmos, então ninguém ficaria chateado pelo outro ser mais bem sucedido ou mais feliz, ou estar mais bem de vida do que nós, porque nós os amaríamos como a nós mesmos. Além disso, em sua forma mais pura, o orgulho também se opõe ao primeiro grande mandamento, “Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma, com toda a tua força e com toda a tua mente”, porque, como disse C.S. Lewis, “ o orgulhoso está sempre as coisas e as pessoas de cima para baixo, e quando você olha para baixo, você não consegue ver nada acima de si.” Em outras palavras, uma pessoa orgulhosa não consegue erguer os olhos para Deus. Na sua forma mais pura, é uma forma de negar a Deus, e, de fato, é o porquê este ser o pecado do demônio: ele queria ser maior do que Deus. Ele é, de fato, o estado de mente anti-Deus.

E a virtude oposta do orgulho é a humildade. E se o orgulho é o estado mental anti-Deus, se o orgulho é o pecado mais demoníaco, o pecado que nos faz mais semelhantes ao demônio, então a humildade é a virtude que mais nos torna semelhantes a Deus. Se o orgulho é o pecado que nos cega para a verdade, que torna impossível vermos as coisas como realmente são, ver nossas faltas, então a humildade é a virtude que vê a verdade, que vê as coisas como elas realmente são. Não deveria nos surpreender que ser humilde é ser como Deus, porque Deus é Ele mesmo humilde, e acho que talvez essa seja uma ideia que as pessoas não consigam entender, mas se você realmente olhar em volta para qualquer coisa que seja realmente bela, e maravilhosa, e nobre, e boa, ela também será, por natureza, humilde. Uma criança, rindo e brincando, é verdadeiramente humilde, belamente humilde. Um cisne no lago é realmente humilde e ainda assim, verdadeiramente belo. E não existe nada de pose sobre esses tipos de beleza.

O próprio Deus é humilde. Deus disse, “Aprendem comigo, pois sou meigo e humilde de coração.” Ele entrou no mundo como um bebê. Ele veio até nós como um homem humilde. Então humildade é realmente a virtude de Deus, porque o que é verdadeiramente bom e puro e belo não tem necessidade de se afirmar, não tem necessidade de provar algo a si mesmo. É o que é por natureza, e não precisa ser comparado a outra coisa para ser o que é. Da mesma forma, Deus não é Deus porque comparado a nós, Ele é maior do que nós; Ele é Deus porque é naturalmente Deus.

Então Deus é humilde por natureza, e essa é também a virtude que torna o amor possível. Se o orgulho é o amor de si, a humildade é o que permite negar a nós mesmos pelo nosso próximo. É por isso que essa paixão e essa virtude são tão fundamentais na espiritualidade cristã. O orgulho é o que nos torna semelhantes ao demônio; a humildade é o que nos torna semelhantes a Deus. Nossa batalha com as paixões trata de dominarmos, superarmos o orgulho, e adquirir a humildade. Apenas quando fizermos isso, poderemos progredir em nossa vida espiritual. Apenas quando aprendermos a superarmos nossa raiva, nossa inveja, nossa preguiça, nossa fofoca, nossa calúnia dos outros, e apenas quando realmente aprendermos a amar nosso próximo como a nós mesmos. Apenas então, eu poderei ser perfeito como meu Pai no céu é perfeito. Apenas então serei santo como Deus é santo.

Em inglêsTradução: Leitor Fabio L. Leite

Posted in Espiritualidade, Igreja Ortodoxa

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