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Arquimandrita Gabriel Bunge – A Ortodoxia precisa de ordens monásticas? 

Padre Gabriel (Bunge) fala sobre as reformas católicas, a tradição ortodoxa e o objetivo mais importante do monasticismo

– No Catolicismo, há um grande número de ordens monásticas e cada uma delas possui uma certa missão, enquanto na Ortodoxia temos apenas vários votos monásticos ou mosteiros com vários estatutos. Por exemplo, temos monges eruditos, monges administrativos etc. O Reverendíssimo Arquimandrita pensa que seria apropriado para a Igreja Ortodoxa criar ordens monásticas que estivessem envolvidas em diversos tipos de atividades, de modo que os graduados de estabelecimentos religiosos pudessem selecionar áreas específicas para servir a Igreja com base nas suas habilidades ou inclinações?

– O monasticismo não existe para nenhum propósito específico relacionado a este mundo. Para citar um autor anónimo de A História dos Monges Egípcios (século IV), “desde o início, o propósito do monasticismo era seguir Cristo no deserto, cantando hinos e salmos e esperando que o nosso Senhor viesse.” Essa aparente “inutilidade” torna o monasticismo livre de quaisquer serviços dentro da estrutura da Igreja. A Igreja Ortodoxa preservou esse traço original do monasticismo, assim como muitos outros aspetos.

Arquimandrita Vassilios Papavassiliou: O pecado original – doutrina ortodoxa ou heresia?

Como nós, ortodoxos, adotamos, fácil e indiscriminadamente, a linguagem da teologia ocidental!  Sim, é sempre uma grande tentação, para aqueles que se converteram à Ortodoxia,  vindos de denominações cristãs do Ocidente, trazer consigo a herança das suas crenças  anteriores, em vez de abraçar a Ortodoxia como algo totalmente diferente do Cristianismo que deixaram para trás. Pois, mesmo que possam ver a cristandade ocidental de hoje como um alienígena em relação à Igreja dos Padres, eles ainda são, muitas vezes, relutantes em aceitar que nem tudo o que havia no Ocidente, anteriormente ao Cisma, é parte integrante da Ortodoxia.

Essa  influência da teologia ocidental pode ser encontrada não somente entre os ortodoxos convertidos no Ocidente, mas também entre aqueles que foram educados na fé ortodoxa, em países tradicionalmente ortodoxos como a Grécia e a Rússia. Isso ocorre, muitas vezes, porque nós ortodoxos somos, infelizmente, demasiado ingénuos, ao considerar que as opiniões fundamentalistas entre os cristãos ocidentais devem ser, também, aquelas mais “corretas” de um ponto de vista ortodoxo. Na realidade, isso é, raramente (ou mesmo nunca) a verdade.

As heresias tendem a encontrar-se, sempre, em polos opostos. Não é incomum que uma heresia surja como uma reação a outra.  Tanto é que, enquanto uns reivindicaram a defesa da heresia de que Cristo não é Deus, outros, para contestá-los, defendeu a heresia de que Ele não é homem. Uma heresia condena a veneração da Virgem Maria como Mãe de Deus, outra faz-lhe livre da queda por uma imaculada conceição. Uns alegam que o homem é salvo apenas pela graça, outros que é salvo apenas pelas obras.  Tais  extremos não são  abraçados pela Ortodoxia.

A verdadeira Ortodoxia tende a ser o meio-termo entre os dois extremos. Isso vale, também, para a doutrina do “pecado original”. “Mas, espera!”, vem, então, um protesto: “A Igreja Ortodoxa não acredita no pecado original!” Eu hesitaria em dizer isso, ao menos sem uma explicação mais séria.  Prefiro dizer que a Igreja Ortodoxa acredita no “pecado ancestral” (πρωπατορικό ἁμάρτημα)

A ENCÍCLICA PATRIARCAL DE 1848

Em 6 de janeiro de 1848, o Papa Pio IX enviou uma encíclica “aos cristãos do Oriente”, os Uniatas, a fim de os encorajar e felicitar “por terem regressado à comunhão católica da Igreja única de Jesus Cristo (…), enquanto tantos outros dos seus compatriotas erraram até o presente, fora do redil de Jesus Cristo”, e a todos os outros, ortodoxos, coptas, arménios e nestorianos, a fim de os “exortar” e suplicar para “voltarem, sem muito divergir, à comunhão desta Santa Sé de Pedro, que é o fundamento da verdadeira Igreja de Jesus Cristo”. Ao longo da encíclica, todas as divergências propriamente teológicas entre Roma e os ortodoxos foram negadas, para além do único problema do primado. Este, pelo contrário, foi mencionado nos termos anunciados pelas definições doutrinárias de 1870. Eis algumas passagens características:

“Nosso Senhor Jesus Cristo, o autor da salvação dos homens, colocou em Pedro, o chefe dos Apóstolos, ao qual deu as chaves do Reino dos Céus (Mt 16:18-19), o fundamento da Sua única Igreja, sobre a qual as portas do inferno não prevalecerão. Além disso, orou para que a Sua fé não desfalecesse, acrescentando o mandamento de que ele fortalecesse os seus irmãos na fé (Lc 22:31-32). Por fim, encarregou-o de apascentar as suas ovelhas (Jo 2:15 ss) e, por consequência, confiou-lhe toda a Igreja, que consiste nas verdadeiras ovelhas e cordeiros de Jesus Cristo. Todas essas prerrogativas são devidas aos Soberanos Pontífices de Roma, sucessores de Pedro; porque, depois de Pedro, a Igreja não pode ser privada do fundamento sobre a qual, erguida por Jesus Cristo, deve permanecer até o fim dos séculos. Por isso, Santo Irineu, discípulo de Policarpo (que tinha escutado o apóstolo João), depois, Bispo de Lyon (…) ao querer referir, contra os hereges do seu século, a doutrina dos Apóstolos, julgou inútil enumerar a sucessão de todas as Igrejas que tiveram a sua origem nos Apóstolos, assegurando que basta citar, contra eles, a doutrina da Igreja romana: “É necessário que toda a Igreja, ou seja, que todos os fiéis, de todo o Universo, estejam de acordo com a Igreja de Roma, devido à sua preeminência, onde, para tudo o que crêem os fiéis, foi conservada a tradição transmitida pelos Apóstolos (Contr. Haer. I, III, 3) (…) os Bispos de Roma obtiveram o primeiro lugar nos Concílios e, sobretudo, antes e depois dos Concílios (…)

Essa encíclica papal teve a sua resposta através de uma encíclica patriarcal dirigida, nesse mesmo ano de 1848, a todos os ortodoxos, pelos Patriarcas de Constantinopla, Alexandria, Antioquia e Jerusalém. Eis os principais excertos desse importante documento doutrinário:

ENCÍCLICA DA SANTA IGREJA, UNA, CATÓLICA E APOSTÓLICA
AOS CRISTÃOS ORTODOXOS DE TODOS OS PAÍSES

A todos os nossos queridos e amados irmãos no Espírito Santo, os veneráveis Bispos, ao seu piedoso Clero e a todos os ortodoxos, filhos verdadeiros da Santa Igreja, Una, Católica e Apostólica, saudações fraternas no Espírito Santo e a bênção divina!

Frederica Mathewes-Green: Porquê os homens gostam da Igreja Ortodoxa

Num tempo como o nosso, onde encontramos todo o tipo de “igrejas” a desvalorizar os homens, estes voltam-se para o Cristianismo Ortodoxo, se não em elevadas, porém em intrigantes proporções. Dentre os três ramos do Cristianismo, este é o único que atrai, para a conversão, homens e mulheres, em igual número. Leon Podle, autor da obra The Church Impotent, escreveu: “Os ortodoxos são os únicos cristãos que usam basso profondo como música sacra ou precisam fazê-lo”.

Ao invés de tentar adivinhar a razão disso, enviei diversos e-mails para centenas de homens ortodoxos, os quais, na sua maioria, converteram-se já na idade adulta. Perguntei-lhes o que, na prática, torna a Igreja Ortodoxa tão atrativa. As respostas, a seguir apresentadas, podem contradizer as ideias de muitos líderes religiosos, os quais se utilizam das mais diversas formas para manter os rapazes dentro das suas “igrejas”.

DESAFIO

Este foi o termo mais comum que encontrei nas respostas. O Cristianismo Ortodoxo é ativo e não passivo. É a única forma de Cristianismo na qual a pessoa é desafiada a adaptar-se a ele e não adaptá-lo a si próprio. Quanto mais a pessoa se encontra comprometida, mais ela se sente satisfeita.

Arquipresbítero André Lemeshonok – A PLENITUDE DA VIDA É ALCANÇADA AO CONHECERMOS DEUS

Viemos para a Igreja a fim de nos libertarmos do cativeiro, das trevas, do abismo e começar uma nova vida onde tudo estará em Deus: os nossos problemas de saúde (ao invés da dependência dos médicos, remédios ou outros métodos de tratamento), o nosso ordenado (ao invés da constante preocupação com as taxas cambiais), todos os nossos relacionamentos (“Será que ele/ela me ama? Dar-me-á um beijo ou sentirá saudades de mim?”). Todas essas questões acabarão por tornar-se “não-questões” para nós, se adentrarmos numa nova vida. Quando a graça do Espírito Santo está no teu coração, quando o amor de Cristo está em ti, quando és compassivo com todas as criaturas, especialmente com as criaturas de Deus, quando és grato, de que mais precisas: de relacionamentos, de preocupações? Possuis a plenitude da vida porque começaste a conhecer Deus; inclinaste-te a Ele, serviste-O, puseste toda a tua vida nas Suas mãos e depositaste toda a tua confiança Nele.

O Jejum e a Grande Quaresma

O Triodion

A Grande Quaresma abrange o período de quarenta dias de preparação espiritual que antecede a festa mais importante do ano cristão, a Santa Pascha (que significa “passagem” e é comumente chamada de Páscoa). Esta é a parte central dum período maior de preparação chamado de Tempo do Triodion.

O Triodion tem o seu início dez semanas antes da Páscoa e é dividido em três partes principais: as três semanas da Pré-quaresma (a fim de preparar os nossos corações para a Páscoa), as seis semanas da Quaresma e a Semana Santa. O tema principal do Triodion é o arrependimento, ou seja, o retorno da humanidade a Deus, o nosso Pai amoroso.

Esse período anual de arrependimento é uma jornada espiritual partilhada com o nosso Salvador. O nosso objetivo é encontrar o Senhor Jesus ressuscitado, que assim nos reúne com o Deus-Pai, O qual está sempre à nossa espera de mãos estendidas. Devemos, então, nos perguntar: “Estamos dispostos a recorrer a Ele?”

Durante a Grande Quaresma, a Igreja ensina-nos como fazê-lo, utilizando, para isso, os dois grandes meios de arrependimento: a oração e o jejum. 

Padre Philotheos Zervakos – Ecumenismo, Ortodoxia e Heresia

“Levanta-te Crisóstomo, Gregório, Germano, Tarásio, Nicéforo, Fócio e o resto – os antigos e os recentes Santos Patriarcas de Constantinopla, que vos sacrificastes pelos vossos rebanhos, para ver quem está no vosso trono. Vocês, tal como os bons pastores sacrificaram as vossas almas pelas vossas ovelhas, enquanto os atuais sacrificam as ovelhas deles para eles próprios e eles abrem a porta convidam o lobo a entrar e destruir o rebanho.

Quando é que um Patriarca caiu em tal deslize, que ele voluntariamente esforça-se para entregar o seu rebanho aos lobos para serem dilacerados? A causa é o orgulho, a raiz de todos os pecados, de todo o mal, de todas as heresias, calamidades e tristezas e ainda mais do que calamidades e tristezas – a privação da graça de Deus.

Os pastores lobo, falsos professores, falsos profetas e falsos cristos, foram expulsos do rebanho de Cristo e não se arrependendo, foram colocados sob perpétuos anátemas pelos Santos Pais, que são os verdadeiros imitadores do Pastor Chefe Cristo e dos seus seguidores – os bons, verdadeiros e divinos pastores, os preservadores dos decentes e santos sete Concílios Ecuménicos.

Padre John Meyendorff – O cisma entre o Oriente e o Ocidente (1054)

As controvérsias cristológicas do quinto século, como vimos, provocaram uma rutura final entre a cristandade bizantina e as outras antigas famílias espirituais do Oriente: siríaca, egípcia e armênia. Os gregos e os latinos permaneceram sozinhos, em sua fidelidade comum a Calcedônia, como as duas principais expressões culturais do cristianismo dentro do mundo romano. O cisma que finalmente os separou não pode ser identificado com nenhum evento em particular nem mesmo ser datado com precisão. A oposição política entre Bizâncio e o Império Franco, o distanciamento gradual no pensamento e na prática, desenvolvimentos divergentes tanto na teologia quanto na eclesiologia, desempenharam suas respetivas partes nesse processo. Mas, apesar dos fatores históricos que afastaram cada vez mais as duas metades da cristandade, havia forças políticas trabalhando a favor da união: os imperadores bizantinos, por exemplo, tentaram sistematicamente, do décimo terceiro ao décimo quinto séculos, restabelecer a comunhão eclesiástica com Roma e assim ganhar o apoio ocidental contra os turcos.

De fato, nem o cisma, nem o fracasso das tentativas de reunião podem ser explicados exclusivamente por fatores sociopolíticos ou culturais. As dificuldades criadas pela história poderiam ter sido resolvidas se houvesse um critério eclesiológico comum para resolver as questões teológicas, canônicas ou litúrgicas que separam o Oriente e o Ocidente. Mas o desenvolvimento medieval da primazia romana como referência última em questões doutrinais contrastava evidentemente com o conceito de Igreja prevalecente no Oriente. Assim, não poderia haver acordo sobre as questões em si, ou sobre a maneira de resolvê-las, desde que houvesse divergência sobre a noção de autoridade na Igreja.

Pe. John Meyendorff – São Pedro e sua “primazia” na Teologia Bizantina

Durante a Idade Média, tanto o Ocidente cristão quanto o Oriente produziram uma abundante literatura sobre São Pedro e sua sucessão. Eles geralmente tiravam do mesmo registro escriturístico e patrístico de textos. No entanto, esses textos, isolados primeiramente vez e depois reagrupados artificialmente por polemistas, só podem recuperar seu significado real se os considerarmos em uma perspectiva histórica e, mais especialmente, no contexto de uma eclesiologia consistente e equilibrada. É esse trabalho de “resourcement” e integração que o pensamento ecumênico enfrenta hoje para alcançar qualquer resultado concreto. Vamos tentar aqui, em um breve estudo dos textos bizantinos sobre São Pedro, descobrir se podemos discernir elementos permanentes de uma eclesiologia na atitude dos bizantinos em relação aos textos do Novo Testamento sobre Pedro, em relação à tradição no ministério específico do “Coryphaeus“, como Pedro é freqüentemente chamado em textos bizantinos, e finalmente em relação à concepção romana de sua sucessão.

Em nosso trabalho, nos limitaremos à literatura medieval subsequente ao cisma entre o Oriente e o Ocidente. À primeira vista, tal período de tempo, quando as posições já estavam claramente definidas, pode parecer desfavorável para o nosso propósito. Não estavam as mentes dos escritores então envolvidos em um conflito estéril? Eles ainda eram capazes de uma interpretação objetiva das Escrituras e da Tradição? Eles realmente contribuíram para uma solução real do problema de Petrino?