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Pe. Dumitru Staniloae: Conhecimento catafático e apofático de Deus

Segundo a tradição patrística, o conhecimento de Deus pode ser catafático (racional) ou apofático (inefável). Este último é superior ao primeiro porque o completa. No entanto, nenhum deles permite conhecer Deus na Sua essência. Através do conhecimento catafático, podemos conhecer Deus apenas como o criador e causa sustentadora do mundo, ao passo que, através do conhecimento apofático, obtemos uma espécie de experiência direta da Sua presença mística, que ultrapassa o simples conhecimento de Deus como causa investida de certos atributos similares aos do mundo. Este último conhecimento é denominado apofático porque a experiência da presença mística de Deus transcende a possibilidade de O definirmos em palavras. Tal conhecimento sobre Deus é, portanto, mais adequado do que o conhecimento catafático.

Contudo, não podemos simplesmente renunciar ao conhecimento racional, pois ainda que o que diga sobre Deus possa não ser inteiramente adequado, nada diz que lhe seja contrário. O que se deve fazer é aprofundar o conhecimento racional por meio do conhecimento apofático. Além disso, mesmo o conhecimento apofático, ao procurar oferecer qualquer explicação de si mesmo, deve recorrer aos termos do conhecimento do intelecto, embora os preencha continuamente com um significado mais profundo do que as noções da mente podem fornecer.

Bispo Kallistos Ware – O Escolasticismo e a Ortodoxia: O método teológico como um dos fatores do Cisma

“Uma fé sem milagres não é mais do que um sistema filosófico
e uma Igreja sem milagres não é mais do que uma organização de caridade
como a Cruz Vermelha” (Bispo Nicolau de Ochrid).

 “Entre o final do século XI e o final do XII,
tudo mudou no Ocidente”  (Padre Yves Congar).

 

A desintegração da nossa tradição comum

“As diferenças surgiram da desintegração de uma tradição comum e o problema é encontrar o parentesco original no passado comum”. Foi assim que o falecido Padre Bernard Leeming, ao parafrasear e tornar sua uma afirmação do Arcipreste George Florovskii, resumiu a relação essencial entre ortodoxos e católicos, entre o Oriente grego e o Ocidente latino[1]. É sob essa perspetiva que podemos abordar, de forma muito apropriada, a questão da “Ortodoxia e o Ocidente”, colocada de forma tão desafiadora pelo Dr. Yannaras no seu artigo original [2] e agora retomada pelo Sr. Bonner na sua resposta cuidadosamente argumentada: “O Cristianismo e a Cosmovisão Moderna”.

Pe. Alexander Schmemann – O conceito cristão de morte

“Ele sofreu e foi enterrado. E ressuscitou …” Depois da cruz, da descida à morte, houve a ressurreição dos mortos: a confirmação principal, fundamental e decisiva do Símbolo da Fé, uma confirmação do próprio coração do Cristianismo. De facto, “se Cristo não ressuscitou, então a vossa fé é vã”. Essas foram as palavras do Apóstolo Paulo, as quais permanecem fundamentais para o Cristianismo até hoje. O Cristianismo é uma crença, em primeiro lugar e acima de tudo, no facto de que Cristo não permaneceu na sepultura, que a vida brilhou da morte e que, na Ressurreição de Cristo de entre os mortos, a absoluta e abrangente lei da morte, que não tolerava exceções, foi, de alguma forma, dilacerada e superada.

Arquimandrita Emilianos – CATEQUESE SOBRE A ORAÇÃO

Primeiramente, quando nos referimos à oração, é necessário dizer que ela não pode ser independente. Não posso afirmar que oro se, no entanto, a minha oração não está em união com o seu complemento. Existem coisas que, de facto, estão sempre juntas e não podemos separar uma da outra. Como, por exemplo: Porque o Apóstolo Paulo, ao falar da fé, não mencionou as obras (Rm 4:5)? Porque ao dizer “fé”, ele compreendeu uma fé que existe e que se manifesta por meio das obras. São Tiago, ao falar das obras (Tg 2:14-26), disse que a fé não tem sentido algum sem elas. Ele falava constantemente das obras, mas porquê? Porque as obras demonstram a fé. Essas duas realidades formam, então, um todo indissolúvel.

Da mesma forma, a oração está intimamente associada a uma outra realidade. Está ligada à Liturgia e, mais profundamente, à Santa Comunhão. Sem a Liturgia e sem o Sacramento da Comunhão, a existência da oração é quase impossível. Toda a oração seria, então, uma farsa. De igual modo, estejamos certos de que o culto que rendemos a Deus, tal como a nossa comunhão, são vãos diante de uma vida litúrgica marcada pela ausência de oração espiritual (falo de uma oração interior forte, consolidada). Eles não passam de lama, lançada aos olhos de Deus, para Lhe fazer crer que O amamos, quando, na realidade, não temos relação alguma com Ele e eis que, um dia, Ele nos dirá: “Em verdade vos digo que não vos conheço” (Mt 2:12 e Lc 13:25). A vida litúrgica e a oração formam um todo. Elas constituem os dois ramos da vida espiritual. A primeira é a vida sacramental – condição fundamental da vida mística – e a segunda (a oração, que hoje analisamos), é a raiz, o tronco, o ponto central da vida mística, que jorra da vida sacramental. A Santa Comunhão vem, então, em primeiro lugar no seio do culto. E por qual razão? Porquê é ela o preâmbulo indispensável?

Quando falamos da oração interior, não utilizamos a palavra proseuche mas, simplesmente, o vocábulo euche, pois o prefixo “pros” (“em direção a”) indica-nos seguidamente que a oração é um caminho direcionado a alguém, com o desígnio de nos unirmos a essa Pessoa. A oração interior (euche) é uma pausa – se assim o podemos exprimir – um ato de júbilo que tem lugar num certo ponto onde Deus Se encontra. Como vedes, é necessário fazer uma distinção.

Arquimandrita Zacarias de Essex – “Abri largamente os vossos corações”

1ª Pergunta: Poderia expandir sobre o que disse de que como a última geração viverá a fé?

 1ª Resposta: Existem muitas profecias sobre o fim dos tempos nos nossos Padres e o ditado que mencionei anteriormente é apenas um deles. Dizia que as tribulações serão tantas que os Cristãos dos últimos tempos mal conseguirão manter a fé e que receberão mais glória no céu do que os Padres que poderiam ressuscitar até os mortos. Em outro ditado dos Padres do Deserto, há a seguinte história: Um noviço vai a um ancião e pergunta-lhe: “O que pensa de um certo grande ancião, um grande asceta?” E o ancião responde: “Em comparação com a sua geração, ele é grande.” Depois de alguns momentos, o discípulo perguntou novamente, “O que pensa deste Padre?” e o ancião responde-lhe, “eu te disse, comparado à sua geração, ele é grande.” Então ele pergunta-lhe uma terceira vez: “O que acha desse Padre?” E o ancião diz: “Comparado à sua geração, ele é grande”, e continua, “mas eu conhecia alguns Padres em Alta Tebas que podiam fazer parar o Sol no meio do céu”. Ou seja, Deus julga-nos sempre em comparação com a grande árvore da humanidade, da qual somos apenas umas folhas. Não podemos deixar de ser influenciados por esta grande árvore da humanidade, por isso somos como uma gota de água tentando fluir contra a corrente do grande rio. É impossível para os homens, mas para Deus é possível (Mt 19:26). Ele já o fez: nós precisamos apenas de O seguir, e herdaremos o cumprimento das Suas promessas. Não obstante, Deus tem em consideração a situação geral do mundo. Isso é um consolação para nós, não para que relaxemos, mas para nos ajudar a não perder o rumo. Deus sempre julga-nos em comparação com a nossa geração, o nosso ambiente. Ele mesmo declara-nos: “Assim como é, o Pai não julga ninguém, mas Ele deu todo o julgamento ao Filho” (João 5:22), e o Pai “Ele também lhe dera autoridade para executar julgamento, pois Ele é o Filho do homem” (João 5:27). Cristo, o Filho do Homem, por Ele se tornar homem e viver nas condições de vida que nós vivêramos, já é um grande juízo. Mas mesmo Ele não julgará ninguém: Ele dará todos os julgamentos aos seus santos. “Os santos”, diz São Paulo, “julgarão o mundo” (1 Cor 6: 2). Mas eu penso que os santos de todas as gerações julgarão os da sua própria geração. Não creio que os apóstolos nos julguem, seremos julgados pelos santos da nossa geração e do nosso ambiente, que viveram a mesma vida connosco e ainda assim encontraram o caminho. Então Deus permanece verdadeiro nestes julgamentos podendo ir mais além: eu não serei julgado por um santo Americano; serei julgado por um santo do meu mosteiro, porque quem pode entrar em julgamento com Deus? (Sal. 143: 2). Ele julgará em comparação com os da nossa geração.

Prof. Luís Filipe Thomaz – REFLEXÕES SOBRE A PESTE DE 2020 (Coronavirus)

A epidemia que neste momento grassa pelo mundo é, para a quase totalidade das pessoas vivas, um fenómeno novo, pois raríssimos devem ser os centenários que recordem ainda a pneumónica de 1918, conhecida em Portugal por a espanhola, por aqui ter chegado através da Espanha. Em tempos mais antigos, porém, foi a Europa muitas vezes varrida pela peste, nome aplicado a diversas epidemias, nem sempre identificáveis, com especial destaque para a Peste Negra de 1347-52, que matou cerca de um terço da população do continente, causando cerca de 25 milhões de vítimas. É esse o primeiro tema sobre que quero hoje refletir convosco.

I

Nos nossos dias há uma forte tendência para considerar a nossa época como qualitativamente diferente das que a precederam, como uma espécie de éschaton ou meta dos tempos, para além da qual nada de substancialmente diferente se virá a produzir. É a teoria do fim da história, de que houve uma versão marxista-leninista, hoje inteiramente desacreditada mas bem viva ainda há apenas meio século: depois de passar, materialmente falando, pelos modos de produção escravista, feudal e capitalista, a humanidade acharia no modo de produção comunista a sua etapa final, correspondente à perfeição. O regímen comunista constituiria assim o último estádio da evolução do Homem, para além da qual nada se poderia conceber de mais perfeito.

Quando em 1974-75 em Portugal, contra as predições da ideologia, falhou a instauração de um regímen comunista, recorda-me ter visto escrito numa parede, com tanto de verdade como de ironia: “não vos preocupeis: é a realidade que se engana…”

Aquela concepção coaduna-se, em certos aspetos, com a que fora anteriormente exposta por Augusto Comte (1798-1857), que contemplava mais a evolução mental que a material, mas chegava na prática a uma conclusão idêntica. Comte via a história universal como uma sucessão progressiva de três estados ou estádios: o estádio teológico ou fictício, em que os fenómenos da natureza eram explicados pelo recurso a divindades imaginárias que os causariam, o estádio metafísico ou abstrato, em que eram explicados por misteriosas forças invisíveis, e, finalmente, o estádio positivo, o definitivo, em que os fenómenos eram racionalmente explicados pela ciência. Nesse estádio, o derradeiro, não haveria já mais lugar para a religião, que perpetuava os estádios já ultrapassados e impedia o progresso.

Pe. John Whiteford – Perguntas frequentes sobre os ícones

1. O que é um ícone?

Um ícone é uma imagem (normalmente bidimensional) de Cristo, dos santos, dos anjos, de importantes passagens bíblicas ou de eventos da história da Igreja.

São Gregório Dialogista (Papa de Roma, 590-604) dizia que os ícones são a Escritura para os iletrados:

“Pois aquilo que a escrita apresenta ao leitores, esta figura apresenta ao não esclarecido que a contempla, já que nela até mesmo os ignorantes vêem o que devem seguir, nela o iletrado lê” (Epístola ao Bispo Serenus de Marselha, NPNF 2, Vol. XIII, pág. 53).

A todos os que sugerem que isso já não é relevante na nossa era iluminada, considerem a taxa de analfabetismo funcional bastante grande que ainda temos e o facto de que, mesmo nas sociedades mais alfabetizadas, há sempre um segmento iletrado considerável … os seus filhos pequenos.

Os ícones fazem, também, com que as nossas mentes ascendam das coisas terrenas às celestiais. São João Damasceno escreveu: “somos levados por ícones visíveis à contemplação do divino e do espiritual” (PG 94:1261a). Ao guardar na nossa memória o que é representado no ícones, somos inspirados a imitar a santidade dos que neles são representados. São Gregório de Nissa (330-395) mencionou o facto de não conseguir passar diante do ícone em que Abraão oferece Isaque em sacrifício “sem derramar lágrimas” (PG 46:572). Sobre isto, observou-se no Sétimo Concílio Ecuménico: “Se até mesmo a tal Doutor a figura foi útil e o fez derramar lágrimas, quanto mais aos ignorantes e simples trará compunção e benefício” (NPNF 2, vol. 14, p. 539). 

Harry Boosalis – Os frutos do sofrimento

O sofrimento e as lutas espirituais que dele advêm devem ser vistos sob uma luz positiva, uma vez que estas oferecem uma vasta variedade de virtudes e recompensas. As referências bíblicas e patrísticas sobre os benefícios do sofrimento são numerosas. Será suficiente citar apenas alguns exemplos isolados. O Apóstolo Paulo (c. 5-67) ensina que, “…mas nós também nos alegramos nos nossos sofrimentos, sabendo que o sofrimento produz perseverança; e perseverança, carácter; e carácter, esperança. A esperança não nos desilude…” (Rm 5:3-5).

BREVE INSTRUÇÃO SOBRE A CONFISSÃO

Recomenda-se ao cristão que antes de confessar os pecados leia este guia da confissão (em PDF) e ainda que, se disso sentir necessidade, note por escrito as faltas cometidas, para nada deixar por confessar. No caso de alguém ter de ajuntar alguma coisa, deve sem falta fazê-lo, pois que abaixo se tem um diretório geral, que não pode ser válido para todos os fiéis. Aqueles que não compreenderem o que significa um determinado pecado, ou quão grave seja, devem perguntá-lo ao sacerdote confessor. A primeira e a derradeira alínea de esta confissão deverão ser lidas por cada um, pois constituem uma introdução e uma conclusão geral válidas para todos.