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O dogma católico-romano da Imaculada Conceição

Nenhum dos antigos Santos Padres disse que Deus, miraculosamente, purificou a Virgem Maria enquanto esta ainda estava no ventre da sua mãe e muitos indicaram, diretamente, que ela, assim como todos os homens, suportou uma batalha contra o pecado, mas foi vitoriosa sobre as tentações e salva pelo Seu Divino Filho (São João Maximovitch, A Veneração Ortodoxa à Mãe de Deus). A Igreja Ortodoxa, que exalta, imensamente, a Mãe de Deus nos seus hinos de louvor, não se atreve a atribuir-lhe aquilo que não foi mencionado pela Sagrada Escritura ou pela Tradição.

O ensinamento de que a Mãe de Deus foi purificada antes do Seu nascimento, para que dela pudesse nascer o Puro Cristo, não faz sentido; porque se o Puro Cristo pudesse nascer somente se a Virgem tivesse nascido pura, seria então necessário que os pais desta também fossem puros do pecado original, sendo que eles também teriam que nascer de pais purificados e, ao ir mais longe nesse raciocínio, alguém chegaria à conclusão de que Cristo não se poderia ter encarnado, a menos que todos os Seus antepassados na carne, até chegar a Adão, tivessem sido previamente purificados do pecado original. Assim, não teria havido a necessidade da própria encarnação de Cristo, uma vez que Ele desceu à terra para aniquilar o pecado (São João Maximovitch, A Veneração Ortodoxa à Mãe de Deus).

A doutrina sobre a ausência do pecado, que teria sido concedida, por graça, à Virgem Maria, nega a Sua vitória sobre as tentações (uma vitória que é digna de ser adornada com coroas de glória), fazendo d’Ela um instrumento cego da Providência Divina (São João Maximovitch, A Veneração Ortodoxa à Mãe de Deus). Esse dom, que lhe foi concedido pelo Papa Pio IX e por todos aqueles que pensam na possibilidade de glorificar a Mãe de Deus ao buscar novas verdades, não promove a Sua exaltação ou uma glória maior, mas sim a Sua depreciação. A Santíssima Virgem Maria foi muito glorificada pelo próprio Deus. A Sua vida na terra é tão exaltada quanto a Sua glória no céu, de modo que nenhuma invenção humana poderá acrescentar-lhe mais honra e glória. O que as pessoas inventam apenas faz com que Ela se obscureça diante dos Seus próprios olhos. Vede que ninguém vos faça presa por meio de filosofias e vãs sutilezas, segundo a tradição dos homens, segundo os rudimentos do mundo e não segundo Cristo, escreveu o apóstolo Paulo, através do Espírito Santo, em Cl 2:8 (São João Maximovitch, A Veneração Ortodoxa à Mãe de Deus).

“De todos os nascidos de mulheres, não há um único que seja perfeitamente santo, para além do Senhor Jesus Cristo que, através de um novo modo especial de nascimento imaculado, não experimentou a mácula terrena” (Santo Ambrósio, Comentário sobre Lucas, cap. 2). “Somente um homem, o Intermediário entre Deus e os homens, está livre dos laços do nascimento pecaminoso, porque nasceu duma virgem e porque, ao nascer, não experimentou o toque do pecado” (Santo Ambrósio, Contra Juliano, Livro 2).

“Agora estou temeroso, ao ver que alguns de vós desejastes mudar o caráter de tão importante tema, ao introduzir um novo e desconhecido festival na Igreja, não aprovado pela razão e injustificado pela antiga tradição. Seremos nós, realmente, mais instruídos e pios que os nossos padres? Vós direis: ‘Deve-se glorificar a Mãe de Deus tanto quanto possível’. Isso é verdade, mas a glorificação oferecida à Rainha do Céu exige discernimento. Essa Virgem Real não precisa de falsas glorificações, uma vez que já possui as verdadeiras coroas de glória e sinais de dignidade. Glorifiqueis a pureza do Seu corpo e a santidade da Sua vida. Maravilhai-vos com a abundância de dons dessa Virgem, venerai o Seu Divino Filho; exaltai-a, por ter concebido sem conhecer a concupiscência e ter dado à luz sem conhecer a dor. O que é necessário adicionar a essas dignidades? O povo diz que se deve reverenciar a conceição que precedeu o Seu nascimento glorioso; porque se a conceição não o houvesse precedido, o nascimento também não teria sido glorioso. Mas o que aconteceria se alguém dissesse que, pelo mesmo motivo, deveria haver idêntica veneração ao pai e à mãe da Santa Maria? Alguém poderia, igualmente, desejar o mesmo para os Seus avós e bisavós, até o infinito. Além disso, como não haveria pecado num ato em que houve concupiscência? Como pode alguém dizer que a Santa Virgem foi concebida pelo Espírito Santo e não por um homem? Digo, decisivamente, que o Espírito Santo desceu sobre Ela, mas não veio com Ela”(Bernardo de Claraval – Santo Católico Romano pós-cisma). 

“Afirmo que a Virgem Maria não pode ter sido santificada antes da Sua conceição, uma vez que Ela não existia. Além disso, Ela não pode ter sido santificada no momento da Sua conceição, devido ao facto de o pecado ser inseparável da conceição. Então, só nos restaria acreditar que Ela foi santificada depois de ter sido concebida no ventre da Sua mãe. Mas essa santificação, ao aniquilar o pecado, tornaria santo o Seu nascimento, não a Sua conceição. A ninguém é dado o direito de ser concebido em santidade, pois somente o Senhor Cristo foi concebido pelo Espírito Santo e apenas Ele é santo desde a Sua exata conceição. Faz-se necessário reiterar a todos os descendentes de Adão o que um deles afirmou sobre si mesmo, em reconhecimento da verdade e pleno dum espírito de humildade: “eis que em iniquidades fui concebido” (Sl 50:7). Como pode alguém exigir que essa conceição seja santa, quando não foi obra do Espírito Santo, mas sim o resultado de um ato de concupiscência? Não há dúvida de que a Santa Virgem rejeita qualquer glória que, evidentemente, glorifica o pecado. Não se pode, de modo algum, justificar uma novidade inventada, que não reflete a doutrina da igreja, uma novidade que é a mãe da imprudência, a irmã da descrença e a filha da irreflexão” (Bernardo de Claraval – Santo Católico Romano pós-cisma, Epístola 174).

“Não há ninguém sem mácula perante Ti, nem que a sua vida tenha durado apenas um dia. Tu, sozinho, salvas, Jesus Cristo, nosso Deus; Tu, que apareceste na terra sem pecado e em quem todos nós confiamos obter a misericórdia e a remissão dos pecados” (São Basílio, o Grande – Terceira Oração das Vésperas de Pentecostes).

“A Virgem Maria não está excluída da generalidade dos homens no que se refere à excelente dignidade de Cristo (pois somente Ele é o Redentor e Salvador de todos, é Ele quem abre a porta para todos e somente Ele morreu por todos)… Assim, a mãe atesta o desejo de que o Filho seja mais exaltado e honrado do que ela própria, ou seja, deve-se exaltar o Criador ao invés da criatura” (Boaventura – Santo Católico Romano pós-cisma).

Não é por acaso que a Igreja Ortodoxa, nos seus textos litúrgicos, dá a David a denominação de “o ancestral de Deus” e a Joaquim e Ana o de “ancestrais santos e justos de Deus”. Já o dogma católico romano da Imaculada Conceição parece romper essa sucessão ininterrupta de santidade do Antigo Testamento, a qual atingiu o seu cumprimento no momento da Anunciação, quando o Espírito Santo desceu sobre a Virgem de modo a torná-la apta a receber a Palavra do Pai no Seu ventre. A Igreja Ortodoxa não admite a exclusão da Santíssima Virgem do restante da humanidade caída, ou seja, a ideia de um “privilégio”, que a teria tornado um ser resgatado antes da obra redentora, em virtude dos futuros méritos do Seu Filho (Vladimir Lossky – Panagia: a Toda-Santa).

A doutrina da Imaculada Conceição, proclamada pelos católicos romanos em 1854, é rejeitada pela Igreja Ortodoxa, mas isso, de modo algum, faz com que a dignidade da Mãe de Deus seja diminuída. De facto, de acordo com os Padres, a herança de Adão não consiste numa responsabilidade pessoal de todos os homens pelo pecado original, mas, simplesmente, na herança das consequências desse pecado: a morte, a corrupção e as paixões… Portanto, os ortodoxos não têm dificuldade em reconhecer que a Mãe de Deus foi herdeira, como nós, das consequências do pecado de Adão – do qual somente Cristo foi livre – mas, ao mesmo tempo, reconhecem que ela sempre foi pura e sem pecado pessoal, pois se manteve, de livre vontade, afastada de toda a atração pelo mundo e pelas paixões, tendo cooperado, voluntariamente, no desígnio de Deus, ao obedecer a Sua vontade com docilidade: “Eis aqui a serva do Senhor; cumpra-se em mim segundo a Tua palavra”, foi o que ela respondeu ao anjo Gabriel, de acordo com Lc 1:38 (Sinaxário, Vol. II, p. 361).

Entrevista ao Patriarca Ecuménico Bartolomeu 

Em dezembro de 2004, o jornal Thirty Days, do Vaticano, publicou uma matéria sobre o 150º aniversário da proclamação romana da Imaculada Conceição como dogma. Nesse contexto, foi publicada uma entrevista feita ao Patriarca Ecuménico Bartolomeu sobre o Acatisto Ortodoxo para a Theotokos – Deípara (o qual se trata de uma oração/poema/canção verdadeiramente bela), onde, de passagem, foi-lhe perguntado sobre o dogma católico romano da Imaculada Conceição. O patriarca respondeu, educadamente, que o dogma está errado e identificou, corretamente, as suas raízes como uma noção ocidental do pecado original. O conteúdo da entrevista é uma breve apresentação da posição ortodoxa:

(Pergunta): A Igreja Católica celebra, este ano, os cento e cinquenta anos da proclamação do dogma da Imaculada Conceição. Como a Tradição Cristã Oriental e a Bizantina celebram a Conceição de Maria e a Sua plena e imaculada santidade?

Patriarca Bartolomeu: A Igreja Católica entendeu que precisava instituir um novo dogma para a cristandade cerca de mil e oitocentos anos após o aparecimento do Cristianismo, porque havia aceitado um entendimento – equivocado para nós, ortodoxos – de acordo com o qual o pecado original transmitiria uma mácula moral ou uma responsabilidade legal aos descendentes de Adão, ao invés do entendimento – reconhecido como correto pela fé ortodoxa – de que que o pecado transmitiu, como herança, a corrupção, causada pela separação da humanidade da graça incriada de Deus e que a fez viver na carne. Ora, se o homem, moldado à imagem de Deus, com a possibilidade e o destino de Lhe ser semelhante, escolher livremente amá-lo e obedecer os Seus mandamentos, poderá, até mesmo depois da queda de Adão e Eva, se assim o quiser, tornar-se Seu amigo. Então, Deus o santificará, assim como santificou muitos dos seus progenitores antes de Cristo, mesmo que a plena realização do resgate da corrupção, isto é, a sua salvação, tenha sido atingida depois da encarnação de Cristo e através d´Ele.

Consequentemente, de acordo com a fé ortodoxa, Maria, a Mãe Santíssima de Deus, não foi concebida isenta da corrupção do pecado original, mas por amar a Deus acima de todas as coisas e obedecer os Seus mandamentos, foi santificada por Deus, através de Jesus Cristo, que encarnou a partir Dela. Ela obedeceu Cristo como um dos Seus fiéis e dirigiu-se a Ele com a confiança de uma mãe. A Sua santidade e pureza não foram prejudicadas pela corrupção (a qual recebeu, através do pecado original, como todo o homem), precisamente porque ela renasceu em Cristo como todos os santos e foi santificada acima de todos eles.

A Sua restituição à condição anterior à queda não ocorreu, necessariamente, no momento da Sua conceição. Acreditamos que isso aconteceu depois, como consequência do progresso da ação da graça divina incriada, quando Jesus foi concebido pelo poder do Espírito Santo e Maria foi purificada de toda a mácula.

Como já foi dito, o pecado original pesa sobre os descendentes de Adão e Eva como uma corrupção hereditária e não como uma responsabilidade legal ou uma mácula moral. Em consequência, a Toda-Santa participou da corrupção hereditária, como toda a humanidade, mas devido ao Seu amor a Deus e à Sua pureza – compreendida como uma dedicação imperturbável e sem hesitação no amor por Deus – Ela conseguiu, através da graça divina, santificar-se em Cristo e tornar-se digna de ser a casa de Deus, como Ele quer que todos nós, seres humanos, nos tornemos.

Portanto, nós, na Igreja Ortodoxa, honramos a Santíssima Mãe de Deus acima de todos os santos, embora não aceitemos o novo dogma da Sua Imaculada Conceição. A não-aceitação deste dogma não diminui, de forma alguma, o nosso amor e veneração pela Mãe Santíssima de Deus

Notas:

[1] Essa exaltação exagerada da Mãe de Deus pelos católicos romanos pode levar a doutrinas problemáticas como, por exemplo, o título, atribuído à Mãe de Deus, de corredentora (Co-Redemptrix), que se refere ao papel de Maria na redenção de todos os povos, ou o título de Mediatrix (medianeira/intercessora de todas as graças), no sentido de que ela mediaria toda a Graça Divina. Mais absurdo ainda é o ensinamento do santo católico romano de origem polaca, Maximiliano Kolbe, segundo o qual Maria seria uma “quase-encarnação do Espírito Santo”. A esse respeito, escreveu Dwight Campbell: “Noutros textos, o frade polaco tentou descrever a profunda e íntima união de Maria com a Terceira Pessoa da Trindade, a partir da Sua conceição, ao denominar Maria de uma “quase-encarnação” do Espírito Santo. Ele teve o cuidado de enfatizar que essa união “não é da mesma ordem que a união hipostática entre as naturezas humana e divina em Cristo”; pois repetia, frequentemente, que o Espírito Santo não habita em Maria do mesmo modo como a Palavra Eterna está presente na sagrada humanidade de Jesus […] Ao utilizar o termo “quase-encarnação”, Kolbe quis dizer que Maria é tão semelhante ao Espírito Santo, que ela reflete a Terceira Pessoa da Trindade, especialmente no que se refere a duas qualidades ou atributos: a recetividade e a fecundidade. O Espírito Santo é o fruto do Pai e do Filho. Ele foi “eternamente concebido”, podemos assim dizer, como o fruto do amor puríssimo que sempre fluiu entre o Pai e o Filho. Ele recebe o amor mútuo do Pai e do Filho e frutifica-o, eternamente, na vida interior da Trindade. A impecabilidade de Maria, desde a Sua conceição, é o fruto do amor de Deus. Na conceição de Maria, o Espírito Santo conformou-a em Si mesmo. A Santíssima Virgem, por causa da singular graça da Sua Imaculada Conceição, foi totalmente recetiva ao amor de Deus. Na Anunciação, Ela recebeu o amor de Deus e, em cooperação com o Espírito Santo, tornou esse amor infinitamente frutífero na conceição do Verbo Encarnado”.

Note-se que o ensinamento de Kolbe está intimamente ligado à doutrina do Filioque: o da dupla-processão do Espírito Santo: “O Espírito Santo é o fruto do Pai e do Filho. Ele foi eternamente concebido como o fruto do amor puríssimo que sempre fluiu entre o Pai e o Filho.” Campbell citou Kolbe quando disse: “O Espírito Santo manifestou a Sua parte na palavra da Redenção através da Virgem Imaculada que, embora seja uma pessoa inteiramente distinta Dele, está-Lhe tão intimamente associada que a nossa mente não pode compreender. Assim, apesar de a Sua união não ser da mesma ordem que a união hipostática entre as naturezas humana e divina em Cristo, é verdadeiro dizer que a ação de Maria é a própria ação do Espírito Santo”.

Examinemos esta afirmação – a ação de Maria é a ação do Espírito Santo. Quão mais próximo de considerar Maria como uma quarta pessoa da Trindade poderíamos chegar? E ainda: “Quando refletimos sobre estas duas verdades: que todas as graças vêm do Pai pelo Filho e pelo Espírito Santo e que a nossa Santa Madre Maria é, por assim dizer, uma com o Espírito Santo, somos levados à conclusão de que a Santíssima Mãe é, de facto, a intermediária através da qual todas as graças vêm até nós”. Observemos como, nesse esquema, Jesus não é mais o mediador de todas as graças e sim Maria. Essa exaltação de Maria não vem somente às custas do Espírito Santo, mas também do Filho.

O Dr. Mark Miravalle, professor de teologia e mariologia, salientou o facto de Kolbe ter denominado o Espírito Santo de “Imaculada Conceição incriada”. Segundo Miravalle, Kolbe argumentou que o Espírito Santo e Maria seriam cônjuges (!). Além disso, a alegação é que Maria e o Espírito Santo trabalhariam juntos para “produzir as graças que conduzem à redenção e ao fruto da redenção”. Numa secção posterior, Miravalle explicou que a melhor analogia seria a união hipostática. Como vimos acima, Kolbe afirmou que o Espírito Santo, “em certo sentido, encarnou-se em Maria”. De acordo com Miravalle, Kolbe assumiu a posição de que “se o Espírito Santo se tornasse encarnado, Ele seria a própria Maria”. Mas o professor foi mais além, ao atribuir a Kolbe a ideia de que “o Espírito Santo agiria apenas através de Maria, a Sua esposa”. Isso, naturalmente, levaria à ideia de que Maria seria a “mediadora de todas as graças”. Todos os atos de Maria seriam atos do Espírito Santo e, agora, todos os atos do Espírito Santo seriam atos de Maria. Os dois ter-se-iam tornado, funcionalmente, indistinguíveis e novamente Jesus foi deixado de parte como mediador.

* O comentário sobre o ensinamento de Maximiliano Kolbe foi baseado no seguinte artigo.

[2] Algumas das citações mencionadas no início deste artigo foram retiradas do livro de São João Maximovitch – A Veneração Ortodoxa à Mãe de Deus – Editora Theotokos).

 

Fonte. / Redação atual: Gabriela Mota

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