
A Parábola do Filho Pródigo (Lc 15, 11–32) é um daqueles textos evangélicos que não podem ser esgotados nem por uma única leitura, nem por uma única chave hermenêutica. Ela é, ao mesmo tempo, uma história possível, uma profecia velada, um drama teológico e um espelho da alma humana. A Tradição da Igreja sempre a leu em vários níveis, não os opondo entre si, mas deixando que se iluminem mutuamente.
No plano literal, a parábola fala da relação entre pais e filhos, da liberdade, do erro, da espera e do perdão. Ela diz algo essencial sobre o amor paterno: o verdadeiro amor não constrange nem salva pela força. No plano messiânico e histórico, muitos Padres da Igreja viram no filho mais velho uma imagem do povo judeu, que permaneceu “em casa”, guardião da Lei, e no filho mais novo – os gentios, que dissiparam o tesouro da revelação primordial, mas são readmitidos na casa do Pai por meio de Cristo. A indignação do filho mais velho torna-se, assim, o eco da recusa em aceitar que os pagãos são chamados à mesma herança. Contudo, acima de tudo, a parábola deve ser lida de modo soteriológico e filocálico, como a história interior de cada um de nós, como o drama da alma em sua relação com Deus. Nesse sentido, não há personagens exteriores: cada um de nós se encontra, em momentos diferentes, em ambos os filhos.
O texto é construído com notável inteligência narrativa, como um verdadeiro drama em três atos. Tudo começa com uma situação de plenitude: “Um homem tinha dois filhos”. O Evangelho não começa com o pecado, mas com a comunhão. A ruptura surge quando o filho mais novo pede: “Pai, dá-me a parte da herança que me cabe”. Esse pedido não é apenas uma reivindicação jurídica, mas a expressão de uma autonomia sem relação, de uma vida vivida como se o pai já estivesse morto. Deus passa a ser visto apenas como fonte de bens, não mais como Pessoa viva. Ainda assim, o pai não recusa. Ele permite a partida. Aqui se revela uma das mais profundas verdades sobre Deus: Ele respeita a liberdade humana até o fim, mesmo quando essa liberdade é usada contra Ele. Deus deixa o homem partir para que o retorno seja livre e o amor, verdadeiro.
Segue-se o segundo ato: a dissipação. O Evangelho diz que o filho dissipou seus bens vivendo asṓtōs zōē, isto é, uma “vida sem salvação”, uma vida desordenada, sem direção. É importante notar que o filho não é chamado de “devasso” pelo pai nem pelo narrador evangélico, mas apenas pelo filho mais velho. O texto não moraliza: ele descreve um estado. A dissipação não é apresentada como uma enumeração de pecados escandalosos, mas como a desintegração da pessoa. Em linguagem filocálica, o pecado não é apenas a transgressão de um mandamento, mas a dispersão do intelecto, a perda da unidade interior. Quando a mente se afasta de Deus, ela se dispersa nas coisas e nas paixões, perdendo o seu centro. O rebaixamento até os porcos expressa o ponto extremo dessa queda: não apenas uma degradação social, mas uma queda ontológica, uma vida vivida abaixo da própria vocação.
O momento decisivo da parábola é expresso numa frase de densidade extraordinária: “caindo em si”. O arrependimento começa como um despertar da mente, como a recordação da verdade sobre si mesmo. O filho ainda não retorna por amor, mas por memória e fome: “na casa de meu pai…”. O arrependimento não é idealizado; ele pode começar a partir do fracasso, da carência, da desilusão. Deus não despreza esses começos frágeis.
O verdadeiro escândalo da parábola, porém, não é o arrependimento do filho, mas a reação do Pai. “E, vendo-o ainda longe, compadeceu-se, e correndo…”. Na cultura oriental, um patriarca não corre. A corrida do Pai é uma kénosis, um abaixamento da dignidade, uma antecipação da Encarnação. Deus não espera explicações completas, não exige provas, não negocia. Ele sai ao encontro. Eis o amor “escandaloso” do Pai: um amor que desafia a lógica do mérito e da proporcionalidade humana. A túnica primeira, o anel e as sandálias não são apenas sinais de perdão, mas da restauração plena da dignidade filial. O filho não é recebido como servo, mas restituído como filho.
O final da parábola aprofunda ainda mais o drama. O filho mais velho nunca partiu, mas também nunca entrou verdadeiramente na alegria do pai. Ele vive na casa, mas como um escravo. Sua obediência é desprovida de comunhão. Seu pecado é sutil e perigoso: a justiça sem amor, a fidelidade sem alegria, a virtude transformada em acusação. Ele não diz “meu irmão”, mas “teu filho”. A recusa em entrar no banquete é a recusa em aceitar a lógica da graça. Não apenas o pecado manifesto perde o homem, mas também o orgulho escondido sob a aparência de justiça.
A arte cristã captou de modo admirável essa tensão. A iconografia bizantina não insiste no psicologismo, mas na restauração da relação: o filho aparece diminuído, quase sem rosto, enquanto o Pai permanece ereto, luminoso, estável. No célebre quadro de Rembrandt, as mãos do Pai – uma forte, outra delicada – exprimem visualmente aquilo que a teologia formula conceitualmente: Deus é justo e misericordioso, e o Seu juízo é penetrado pelo amor. Não é por acaso que esse quadro foi chamado de “Evangelho pintado”.
A Parábola do Filho Pródigo não nos pergunta se pecámos – pois todos dissipámos algo –, mas onde nos encontramos agora: longe, mas famintos da verdade; a caminho, voltando a nós mesmos; ou “em casa”, porém com o coração fechado à alegria do Pai. O Triódio chama-nos não apenas ao arrependimento, mas à entrada nessa alegria, que é a vida da Igreja, o banquete eucarístico, a comunhão restaurada. “Filho, tu estás sempre comigo.” Deus não nos chama apenas a ser perdoados, mas a sermos novamente filhos, vivendo do amor – por vezes escandalosamente grande – do Pai.