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A Natividade de Jesus Cristo segundo os Santos Evanghelhos

Os Evangelhos segundo Mateus (caps. 1–2) e Lucas (caps. 1–3) apresentam-nos duas perspetivas absolutamente diferentes acerca do nascimento do Senhor e dos acontecimentos que precederam e sucederam este evento único na história.

Para Mateus, o nascimento integra-se na história do povo judeu, sem qualquer referência ao contexto da ocupação romana. A narrativa coloca no centro José, o noivo de Maria (e pai legal de Jesus, não biológico — embora tal facto fosse conhecido apenas por José e Maria), e, em oposição a esta “família”, Herodes, o assassino dos inocentes.

Segundo o Evangelho de Mateus, Jesus nasceu em Belém, mas não se fala de nenhuma gruta, nem se menciona o motivo pelo qual José e Maria, grávida, se encontravam em Belém (isto é, o recenseamento romano referido por Lucas).

A estrela, muito provavelmente, aparece apenas no momento do nascimento do Senhor. Os Magos — cujo número deduzimos a partir do número das oferendas, embora, teoricamente, pudessem ser tanto dois como dez — viajaram durante vários meses, ou talvez mesmo um ano, até Jerusalém e Belém, onde, “entrando na casa (οἰκία = habitação), viram o Menino com Maria, sua Mãe” (Mt 2,11a). Se correlacionarmos este dado com o Evangelho de Lucas, então o momento em que os Magos chegam a Herodes (Mt 2,1–10) ocorreu muito depois de Jesus ter sido circuncidado ao oitavo dia (Lc 2,21) e apresentado no Templo aos quarenta dias (Lc 2,22–38; cf. Lv 12), sem qualquer receio de perseguição. O que, porém, surpreende em Lucas (2,39) é o facto de, depois disso, a “família” ter regressado a Nazaré, sem qualquer menção à fuga para o Egito nem à perseguição de Herodes.

Lucas, de facto, negligencia quase por completo o contexto judaico, embora mencione o cumprimento da Lei mosaica por parte do Senhor e de Sua Mãe. Para Lucas, é muito mais importante o contexto romano (cf. Lc 2,1–2 e 3,1), a fim de mostrar que o que aconteceu na Palestina não devia ser percebido como algo estranho para todos os habitantes do Império, mas como parte da sua história comum. Inclusive a genealogia de Lucas não começa em Abraão, pai espiritual dos judeus, mas desce até Adão, pai de todos os homens (Lc 3,38; cf. Mt 1,1–2), e não apenas dos judeus.

Além disso, Lucas, “depois de ter investigado tudo cuidadosamente desde o princípio” (Lc 1,3), incluindo o que outros escreveram “acerca dos factos que entre nós se cumpriram” (Lc 1,1), atribui maior importância à mulher — tanto a Isabel como, sobretudo, a Maria. O anjo já não fala com José, mas com Maria (Lc 1,26–38), e José passa para um plano secundário, o que reflete uma teologia da inversão das expectativas sociais, e não da sua simples confirmação. Apenas Lucas fala da manjedoura, do cântico dos anjos e da alegria dos pastores (Lc 2,7–18), apresentando todo o acontecimento como ocasião de júbilo.

Voltando ao relato de Mateus, vemos que Herodes decide matar os meninos do sexo masculino com menos de dois anos de idade, “conforme o tempo que averiguara junto dos Magos” (Mt 2,16), o que confirma mais uma vez que a vinda dos Magos a Herodes e depois ao Menino “em Belém” ocorreu pelo menos alguns meses, ou talvez quase um ano, após o nascimento do Senhor. Herodes, para se assegurar — tendo em conta também uma eventual margem de erro no cálculo dos Magos —, mandou matar os meninos com dois anos de idade ou menos “que estavam em Belém e em todo o seu território” (Mt 2,16), embora Lucas (2,39) afirme que, após a apresentação do Menino no Templo, eles regressaram a Nazaré, sem razão para permanecerem tanto tempo em Belém, onde não tinham casa própria.

Não entraremos aqui em pormenores sobre o número dos meninos mortos — certamente não 14.000 (como afirma o Sinaxário de 29 de dezembro) —, sobre o que é “Ramá”, que chora e se lamenta pelos meninos assassinados (Mt 2,18; cf. Jr 31,15), nem sobre o facto de “nazareno” e “nazireu” (cf. Mt 2,23) serem realidades totalmente distintas. Jesus não foi nazireu, uma vez que bebia vinho (Mt 11,19 e outros), mas apenas “Nazareno”, no sentido de que ali se encontrava a residência dos Seus pais legais.

Para além de tudo isto, constatamos que a Igreja, segundo o Lecionário atual, dá prioridade ao relato de Mateus: no primeiro dia (25 de dezembro) proclama-se o nascimento do Senhor e a adoração dos Magos (cf. Mt 2,1–12), e no dia seguinte (26 de dezembro e no primeiro domingo após o Natal) — a fuga para o Egito e o massacre dos inocentes (cf. Mt 2,13–23). Apenas a hinografia da festa reúne tanto os Magos e a estrela como a manjedoura, os anjos e os pastores.

Como é natural, a circuncisão (Lc 2,20–21.40–52, embora idealmente sem os vv. 41–52) é lida no dia 1 de janeiro, e a apresentação no Templo (Lc 2,25–32) no dia 2 de fevereiro, quarenta dias após 25 de dezembro.

Por conseguinte, vemos que o texto de Lucas 2,1–20, que contém toda a narrativa da manjedoura, do cântico angélico e dos pastores, não é lido nem nas Matinas nem na Liturgia da festa, mas apenas nas Vésperas, na Hora Terça “Real”. Para as Matinas foi escolhido o trecho de Mateus 1,18–25, já lido no Domingo antes do Natal, como continuação da genealogia. Proponho, contudo, que nas Matinas se leia o trecho de Lucas 2,1–20 (atualmente colocado no Evangeliário na Hora Terça), mantendo-se na Liturgia a perícope atual (Mt 2,1–12). Com isso, não afirmamos que a adoração dos Magos tenha ocorrido no próprio dia do nascimento do Senhor ou imediatamente depois; porém, na ausência de dados e razões mais concretas, o tempo litúrgico não reproduz a cronologia histórica, mas recapitula-a teologicamente, para evitar que se leia no verão ou no outono do ano seguinte sobre a adoração dos Magos diante do Menino que nasceu em dezembro do ano anterior — sobretudo porque todas essas datas são estabelecidas de modo convencional e possuem valor relativo.

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Bibliografia: Raymond E. Brown, The Birth of the Messiah (Doubleday, 1993); Joseph A. Fitzmyer, The Gospel According to Luke I-IX, Anchor Bible (1981); W.D. Davies & Dale C. Allison, Matthew 1-7, ICC (1988); Géza Vermes, The Nativity (Penguin, 2006).

Publicado emBíblia ou Sagrada Escritura

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