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Arquimandrita Zacarias de Essex – “Abri largamente os vossos corações”

1ª Pergunta: Poderia expandir sobre o que disse de que como a última geração viverá a fé?

 1ª Resposta: Existem muitas profecias sobre o fim dos tempos nos nossos Padres e o ditado que mencionei anteriormente é apenas um deles. Dizia que as tribulações serão tantas que os Cristãos dos últimos tempos mal conseguirão manter a fé e que receberão mais glória no céu do que os Padres que poderiam ressuscitar até os mortos. Em outro ditado dos Padres do Deserto, há a seguinte história: Um noviço vai a um ancião e pergunta-lhe: “O que pensa de um certo grande ancião, um grande asceta?” E o ancião responde: “Em comparação com a sua geração, ele é grande.” Depois de alguns momentos, o discípulo perguntou novamente, “O que pensa deste Padre?” e o ancião responde-lhe, “eu te disse, comparado à sua geração, ele é grande.” Então ele pergunta-lhe uma terceira vez: “O que acha desse Padre?” E o ancião diz: “Comparado à sua geração, ele é grande”, e continua, “mas eu conhecia alguns Padres em Alta Tebas que podiam fazer parar o Sol no meio do céu”. Ou seja, Deus julga-nos sempre em comparação com a grande árvore da humanidade, da qual somos apenas umas folhas. Não podemos deixar de ser influenciados por esta grande árvore da humanidade, por isso somos como uma gota de água tentando fluir contra a corrente do grande rio. É impossível para os homens, mas para Deus é possível (Mt 19:26). Ele já o fez: nós precisamos apenas de O seguir, e herdaremos o cumprimento das Suas promessas. Não obstante, Deus tem em consideração a situação geral do mundo. Isso é um consolação para nós, não para que relaxemos, mas para nos ajudar a não perder o rumo. Deus sempre julga-nos em comparação com a nossa geração, o nosso ambiente. Ele mesmo declara-nos: “Assim como é, o Pai não julga ninguém, mas Ele deu todo o julgamento ao Filho” (João 5:22), e o Pai “Ele também lhe dera autoridade para executar julgamento, pois Ele é o Filho do homem” (João 5:27). Cristo, o Filho do Homem, por Ele se tornar homem e viver nas condições de vida que nós vivêramos, já é um grande juízo. Mas mesmo Ele não julgará ninguém: Ele dará todos os julgamentos aos seus santos. “Os santos”, diz São Paulo, “julgarão o mundo” (1 Cor 6: 2). Mas eu penso que os santos de todas as gerações julgarão os da sua própria geração. Não creio que os apóstolos nos julguem, seremos julgados pelos santos da nossa geração e do nosso ambiente, que viveram a mesma vida connosco e ainda assim encontraram o caminho. Então Deus permanece verdadeiro nestes julgamentos podendo ir mais além: eu não serei julgado por um santo Americano; serei julgado por um santo do meu mosteiro, porque quem pode entrar em julgamento com Deus? (Sal. 143: 2). Ele julgará em comparação com os da nossa geração.

2ª Pergunta: São João Crisóstomo diz numa das orações da Santa Liturgia: “Relembrando portanto, este salvífico mandamento da salvação e de todas as coisas que aconteceram por nós, a Cruz, o Túmulo, a Ressurreição ao terceiro dia, a Ascensão ao céu, o sentar-se à Sua direita, a vinda novamente pela segunda vez em glória … ” Como nos podemos lembrar disto?

 2ª Resposta: Mas nós temos isso em lembrança, e isso não é uma lembrança psicológica. São Nicolau Cabasilas disse que a Liturgia é um retrato da vida de Cristo, e que também é uma expressão da gratidão do homem por tudo o que Ele fez. Ao realizar este acto, recebemos a graça, e essa graça ajuda-nos a entrar num eterno evento, o qual está sempre presente na eternidade, não há passado nem futuro, há sim um eterno “hoje”, o eterno presente. Assim, ao relembrarmos de todos os benefícios de Deus e, mais especialmente usando-nos na Sua palavra e cumprindo-nos no Seu mandamento – porque não devemos esquecer que a Liturgia é um mandamento – o mistério da Cruz trabalha em nós. Recebemos a graça da Crucificação e Ressurreição do Cristo, e essa graça introduz-nos em eternos eventos; tornando-nos assim contemporâneos desses eternos eventos. É por isso que podemos dizer “Hoje Cristo nasceu”. Tendo entrado na eternidade pela graça que nos é dada, somos contemporâneos dos seus acontecimentos eternos podendo dizer: “Hoje nasceu”, “Hoje Cristo é crucificado”, “Hoje Cristo ressuscitou” e, é claro, “Hoje Cristo chegou”. Nós não esperamos passivamente pelo Dia do Senhor, diz São Pedro, mas “apressamo-nos” em direção a isso (Pedro 3:12). O que é a Segunda Vinda? É o dia em que o Senhor brilhará em glória, mas para nós “desde que o fim dos tempos chegou sobre nós” , diz São Paulo (I Cor. 10:11). Ver a glória do Senhor significa que Ele está aqui, que Ele chegou. E assim os  Seus santos também contemplam a Segunda Vinda.

3ª Pergunta: A minha pergunta está ligada à anterior palestra que fez: “Mantém a tua mente no inferno, e não desesperes”. Eu fui à capela hoje à noite, como todas as pessoas e o senhor sabe, tenho que tomar um medicamento para a minha saúde. Enquanto estava lá, estava muito quente e quase desmaiei, mas mantive a minha mente exactamente no que me havia dito. Por algumas vezes eu quis sair, mas lembrei-me das palavras “Mantém a tua mente no inferno, e não desesperes”, e senti que tinha que ficar até o fim, mesmo que caísse. Eu queria-lhe perguntar: existe alguma limitação para isto ou quê?

3ª Resposta: Eu acho que o que fez está correcto: é uma questão de fé e há muitos graus de fé. Em toda palavra de Deus há uma profundidade sem fundo. A palavra de Deus é como uma esfera, que tem muitos pontos de contacto, e onde quer que toque, toca toda a esfera. Existem muitos aspectos para isto. Quando lê a interpretação das Escrituras pelos santos, encontra muitas interpretações para a mesma passagem, porque a palavra de Deus é eterna e tem aspectos infinitos, um número infinito de pontos de contacto, e é uma questão de fé entrarmos nisso, em penetrarmos nisso. O pensamento que teve é, obviamente, um pensamento honroso.

4ª Pergunta: O senhor mencionou sobre as pessoas de hoje que desejam prazer e conforto, então qual será o nosso lugar de emoções?

 4ª Resposta: Todos nós temos emoções, mas as emoções são realmente depressões do “velho homem”, e Deus pede-nos que nos despojemos desse “velho homem” (Ef. 4:22) e as suas emoções. Nós devemos converter estas emoções, que são de natureza psicológica, em sentimentos e sensações espirituais.

5ª Pergunta: Pode definir-me emoções?

5ª Resposta: Por exemplo, algo acontece comigo e por isso sinto uma grande alegria. Eu posso vivê-la psicologicamente e divertir-me e ser realmente feliz, ou posso transformar essa emoção de felicidade que tenho por causa do que aconteceu comigo e torná-la numa sensação espiritual. Imediatamente, eu inicio uma conversa com Deus, e começo a agradecer ao Senhor, de vez em quando, para que, ao invés de ser uma emoção psicológica, seja uma alegria Espiritual, tornando-se numa energia para conversar com Deus. Se eu tiver uma emoção de tristeza e estiver terrivelmente aflito, porque, digamos, a minha mãe morreu ou o meu melhor amigo, ou aconteceu-me alguma catástrofe, eu derramarei o meu coração a Deus como a Profetisa Hanna (I Sam. 1:4-28), e uso esta energia de tristeza e faço dela uma energia de oração para Deus.

           O Padre Sofrónio costumava dizer-nos que não podemos viver uma vida monástica apropriadamente a não ser que aprendamos a transformar os nossos estados psicológicos em estados espirituais. E como é que nós faríamos isso? Nós permitimos que qualquer energia chegue até nós, mas mudamos o pensamento e viramo-lo em direção a Deus, para conversarmos com Ele. Por exemplo, lembro-me da minha avó, do quão piedosa ela era, sendo sempre a primeira na Igreja e a última a sair. Durante a noite, ela fazia prostrações continuamente, e a minha mãe costumava observá-la pela porta enquanto fazia as prostrações, e dizia: “Sabes, a tua avó está sempre a fazer prostrações.” Eu recordo-me disso tudo e emociono-me. Deixa pra lá, deixo que a emoção venha, mas depois levanto a minha mente a Deus e uso essa energia da emoção para o que quero. “Os espíritos dos profetas estão sujeitos aos profetas”, diz São Paulo (1 Coríntios 14:32). Então, viro essa energia para o pecado e começo a implorar perdão pelos meus pecados, ou por outra coisa qualquer. Mudo o foco da minha mente e dou-lhe outra coisa para se focar.

           O Padre Sofrónio vê este tipo de “transformador de energia” na vida do nosso Senhor. Ele costumava-nos dizer que o Senhor não pensava nas pessoas que O iam crucificar, que iam O prender no Jardim do Getsêmani – fossem eles gregos, romanos ou judeus -, mas Ele conversava com Deus, dizendo: “O cálice que meu Pai Me deu, não devo Eu beber?” (João 18:11). Ele sabia que seria crucificado; todavia, Ele não pensou psicologicamente: “Mas porquê, se são judeus, serão eles ingratos? Eu fiz tanto por eles, fiz tantas maravilhas para salvá-los dos seus inimigos. Porque é que eles agora Me vão crucificar injustamente?” Ele não descera a esse nível, mas conversava com o Pai: “O copo de Meu Pai não o beberei?”. Então, é o mesmo que acontece connosco: temos muitas energias, positivas e negativas, de tristeza, energias trágicas, energias de prazer, energias nobres que nos sucedem. Mas nós não permaneçamos nesse nível de emoção: exploramos a energia que eles trazem. Tomamos a energia e direcionamos o pensamento para Deus de acordo com nossas necessidades, e oramos.

           Dar-te-ei um exemplo. Eu estava no Chipre e os meus amigos estavam a vir para me levar da casa da minha mãe para uma aldeia para ir à Liturgia. Combinámos para que eles chegassem às seis horas para me apanhar; a Liturgia começava às sete e demorava uma hora de Nicósia para a aldeia. Eu andava muito ocupado em Chipre, porque muitos padres estavam sempre a convidar-me para ir falar nas suas paróquias, ou na televisão, ou na rádio. Eu andava tão cansado e esgotado que fora deitar-me tarde e levantara-me cedo para a preparação da Liturgia. Levantei-me às quatro horas, porque, como eu disse, às seis horas vinham-me buscar. Mas eu não conseguia rezar. O meu coração estava desfeito em pedaços; ele simplesmente não me seguia. Pensei para comigo: “Eu não tenho energia, eu não tenho forças, eu vou lavar as minhas roupas.” Eu tinha algumas camisetas para lavar pois suo muito durante a noite, e talvez isso me espevite um pouco mais e então tentarei novamente rezar e ver se consigo. Entrei no banheiro por meia hora e terminei de lavar a roupa, e às quatro e meia saí e ouvi alguns sussurros. A porta estava um pouco aberta, e eu pude ver minha mãe, que não podia andar, na cama. Ela estava a fazer pequenos reverências na cama e em cada oração, dizia: “Pelo mundo inteiro e os meus filhos”. Ela fazia isto com fervor, e eu senti-me tão envergonhado que o meu coração foi curado, e por uma hora e meia eu também orei. Preparei-me para a Liturgia, sendo uma das minhas melhores Liturgias. A minha própria mãe idosa, envergonhara-me naquele dia.

           Às vezes pensamos que não temos energia, mas nós temos uma quantidade médica de energia dentro de nós. O segredo é encontrar um pensamento humilde que nos envergonhe, o qual nos trará contrição para que solte essa energia espiritual em nós. É por isso que temos que nos colocar no caminho humilde de nos “rebaixar”, para podermos sempre “repescar” aqueles pensamentos humildes que soltam essa interna energia espiritual que nos permitirá fazer o trabalho de Deus. Eu tenho um companheiro sacerdote e um dia ele estava muito cansado do seu ministério com as pessoas. Era Domingo, e ele estava completamente exausto. Ele disse-me: “Nas noites quando estou tão exausto, geralmente vou ao meu quarto, olho para os ícones e digo “boa noite a todos vós” e vou para a cama”. Mas naquela noite, ele sentiu vergonha ao fazê-lo, em vez disso, caminhou pelo corredor para um lado e para o outro dizendo: “Desculpa-me Senhor, eu não consigo orar esta noite. Perdoa-me.” “Desculpa-me Senhor, estou cansado, não consigo orar esta noite. Perdoa-me.” Por meia hora, ele foi de um lado para o outro no corredor dizendo essas palavras, e dessa maneira Deus permitiu que ele cumprisse a regra da Sua oração. Assim, podemos sempre descobrir em nós mesmos uma quantidade incrível de energia espiritual, se encontrarmos a chave certa, “a chave de David” (Isaías 22:22, Rev. 3: 7), e fazer o movimento certo para soltá-lo, isto é, o pensamento humilde, dado pelo Senhor, quando nos entregamos ao Seu julgamento, “rebaixando-nos”. Ele nos dará “uma boca e sabedoria” (Lucas 21:15), o humilde pensamento que solta a energia espiritual.

Arquimandrita Zacarias, “O alargamento do coração”, (pp. 107-112),
Monte Tabor Publicações, 2012, versão em inglês.
Tradução: Pedro Mota

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